A persistência de níveis muito baixos de água obrigou várias indústrias europeias, da refinação de petróleo ao nuclear e ao setor químico, a reduzir a produção por falta de matérias-primas e de água de arrefecimento
A Europa tem enfrentado ondas de calor cada vez mais severas nos últimos anos, com os últimos meses a trazerem vários episódios extremos relacionados com o calor, incluindo secas e incêndios florestais em Espanha, França, Itália e outros países.
Mas outro impacto tem vindo a sentir-se noutras zonas da Europa, já que vias navegáveis essenciais como o Reno e o Danúbio desceram para níveis excecionalmente baixos, batendo recordes em alguns pontos.
Isto pode tornar o transporte de mercadorias significativamente mais difícil, obrigando potencialmente as embarcações a reduzir a carga, levando a que o transporte comercial em partes destas rotas fique praticamente paralisado ou impondo o recurso a alternativas mais complexas.
Grandes setores industriais europeus, incluindo refinação de petróleo e química, podem por isso enfrentar perturbações graves.
Europa: como é que a falta de água nos rios afeta indústrias chave
Uma das principais consequências dos baixos níveis de água para a indústria europeia é impedir que os cargueiros transportem carga completa. Os operadores têm de dividir a carga por vários navios ou encaminhar parte do transporte para as estradas ou para a ferrovia.
O ponto de medição de referência em Kaub, no Reno, desceu abaixo do nível crítico de 30 centímetros. Foi registado aos 27 centímetros no final de julho deste ano, segundo o ICIS (fonte em inglês), e previa-se uma nova queda. A leitura diz respeito ao nível na escala de Kaub, não à profundidade total do rio nem à profundidade do canal de navegação.
O Reno percorre cerca de 1 230 quilómetros, desde os Alpes suíços, atravessando ou delimitando a Suíça, o Liechtenstein, a Áustria, a Alemanha, a França e os Países Baixos antes de desaguar no mar do Norte, o que faz dele uma artéria vital para o transporte, o turismo e a indústria nestes territórios.
Os baixos caudais provocaram fortes perturbações na navegação no Reno, e a maioria das embarcações interiores já não conseguia transpor o estrangulamento de Kaub em 27 de julho, disseram armadores ao fornecedor de informação de mercados de matérias-primas Argus. Os volumes de carga ficaram fortemente limitados nas embarcações que ainda conseguiam fazer a travessia, o que levou as tarifas de transporte a níveis recorde. “Na prática, o Alto Reno e o rio Main estão agora praticamente desligados do polo comercial de Amesterdão-Roterdão-Antuérpia (ARA)”, referiu a Argus num relatório publicado na quarta-feira.
Para as indústrias química e petroquímica, a redução da profundidade navegável limita as entregas de matérias-primas essenciais, como nafta e gás de petróleo liquefeito (GPL), desde os portos do mar do Norte até às fábricas no interior.
A ICIS noticiou que a LyondellBasell declarou força maior no fornecimento de butadieno a partir da sua fábrica de Wesseling, depois de os baixos níveis de água terem perturbado o abastecimento de matérias-primas. Segundo o mesmo meio, a BASF também sinalizou possíveis declarações de força maior (FM) ou faltas de produto, dado depender do rio para o transporte.
Danúbio: sistemas de arrefecimento industrial e carga também afetados
As temperaturas da água em subida tornaram também menos eficientes os sistemas de arrefecimento industrial, aumentando ainda mais a pressão operacional. Isto é particularmente relevante para centrais nucleares e térmicas.
As indústrias do petróleo e da energia na região enfrentam sobretaxas elevadas por baixa de água e subida das tarifas de transporte para enviar gasóleo e produtos petrolíferos rio acima, o que ameaça a distribuição no interior. Do mesmo modo, as centrais a carvão têm dificuldades em assegurar abastecimentos de combustível, à medida que a carga transportada por barcaças diminui de forma significativa.
A siderurgia e a indústria pesada também não escapam. O gigante industrial Thyssenkrupp reduziu ligeiramente a produção dos altos-fornos na sua fábrica de Duisburgo, porque as barcaças que transportam matérias-primas têm dificuldade em passar pontos de estrangulamento pouco profundos como Kaub. A empresa industrial suspendeu igualmente a sua própria operação de barcaças e fretou embarcações de menor calado, embora tenha garantido que as entregas aos clientes não estavam em risco.
A capacidade das redes ferroviária e rodoviária próximas já é limitada, pelo que não consegue substituir totalmente a capacidade perdida nas barcaças. Isto aumenta o risco de novas perturbações económicas, sobretudo porque não se espera uma melhoria dos níveis de água tão depressa.
Também o Danúbio, que atravessa ou delimita dez países, incluindo Alemanha, Áustria, Eslováquia, Hungria, Croácia, Sérvia, Bulgária, Roménia, Moldávia e Ucrânia, registou níveis historicamente baixos este mês de julho.
Devido à persistência de temperaturas elevadas e à falta de chuva, o Danúbio desceu até um valor recorde de 23 centímetros na escala de Budapeste às 10 horas (CEST) de quinta-feira, menos 10 centímetros do que o recorde anterior, de 2018, segundo o serviço oficial húngaro de monitorização das águas. Este valor mede o nível da água face a um ponto de referência local fixo, e não a profundidade física do rio. A autoridade previu nova descida nos próximos dias.
No último balanço, divulgado na terça-feira, o Ministério húngaro da Construção e dos Transportes informou que a maioria dos navios de carga tinha sido imobilizada no troço húngaro do Danúbio, enquanto os que ainda operavam transportavam apenas entre 10% e 20% das cargas habituais. Cerca de 15 navios-hotel ficaram igualmente encalhados.
A perturbação não é igual ao longo de todo o rio. A Associated Press noticiou que o transporte de mercadorias foi interrompido em algumas zonas afetadas, enquanto noutros pontos as embarcações continuam a operar, mas com cargas fortemente reduzidas. Na Sérvia, por exemplo, barcaças e navios-tanque transportam cerca de 30% a 40% da capacidade normal.
Hungria e Roménia: abastecimento de energia afetado
Os baixos níveis de água obrigaram a central nuclear de Paks, na Hungria, a reduzir a produção e a desligar um dos seus quatro reatores, segundo a operadora MVM. A comunicação social húngara referiu que foi o primeiro encerramento completo de um bloco da central nuclear. Em conjunto com reduções anteriores, a paragem baixou a produção da central para cerca de 60% da capacidade.
Também a produtora estatal romena de energia nuclear, Nuclearelectrica, desligou na terça-feira a Unidade 1 da central de Cernavodă devido ao que descreveu como o nível “muito baixo e sem precedentes” do Danúbio. O Ministério da Energia da Roménia indicou que a Unidade 2 seria desligada na madrugada de quinta-feira, deixando os dois reatores simultaneamente fora de serviço por causa dos baixos níveis de água, pela primeira vez.
As paragens aumentam a pressão sobre o fornecimento regional de eletricidade. A Hungria está a compensar a produção perdida com uma combinação de importações e geração interna a gás natural, segundo dados do operador de rede Mavir citados pela agência nacional de notícias MTI. O Ministério da Energia da Roménia afirmou que a perda dos dois reatores aumentará a dependência de importações, o que, segundo a Reuters, deverá exercer mais pressão ascendente sobre os preços da eletricidade.
O transporte de combustíveis na Sérvia também foi afetado. O país recebeu apenas 25% das importações de combustível previstas para julho, porque os baixos níveis do Danúbio limitaram as entregas por barcaça, disse a ministra da Energia, Dubravka Đedović Handanović. O governo autorizou posteriormente as empresas de energia a recorrer às reservas operacionais de combustível para proteger o abastecimento.
Os baixos níveis de água atingem igualmente a agricultura, perturbando o transporte de cereais e a irrigação na Sérvia, nomeadamente na região agrícola setentrional da Voivodina. Na Roménia, as autoridades restringiram a rega, já que os caudais do Danúbio caíram para o nível mais baixo desde 1996, e a navegação fluvial também foi parcialmente perturbada.
Que medidas podem ajudar a enfrentar níveis de água tão baixos
Um dos maiores desafios no Reno e em alguns troços do Danúbio é terem leitos rochosos, difíceis de dragar.
Por isso, lidar com níveis de água reduzidos exige uma combinação de medidas de engenharia, tecnológicas e logísticas para manter o transporte de carga a funcionar.
As autoridades alemãs já preparam o projeto Optimisation of Load Draughts on the Middle Rhine, que prevê aprofundar em 20 centímetros o canal de navegação em estrangulamentos críticos entre Mainz e St. Goar, incluindo Kaub. De forma semelhante, a modificação de muros e outros obstáculos no leito do rio pode encaminhar mais água para o canal de navegação, ajudando a manter profundidade suficiente.
A modernização das eclusas existentes pode ajudar a regular a retenção de água a montante durante períodos de seca particularmente severos em secções reguladas dos rios.
O desenho e a tecnologia dos navios podem também ser adaptados, recorrendo a embarcações de baixo calado. Empresas como a HGK Shipping e a BASF já utilizam ou desenvolvem navios para níveis de água baixos, capazes de transportar cargas significativas com profundidades reduzidas.
O recurso a materiais leves, como aço de alta resistência, pode apoiar estes conceitos ao reduzir o peso em vazio das embarcações e permitir transportar mais carga quando os níveis de água são baixos.
Do lado das cadeias de abastecimento e da logística, redistribuir a carga por diferentes modos de transporte, por exemplo encaminhar mercadorias sensíveis ao tempo para as redes ferroviária ou rodoviária quando a capacidade fluvial diminui, pode ajudar a manter o funcionamento mais fluido.
Construir instalações de armazenamento maiores em portos interiores permite às empresas acumular matérias-primas nas épocas de cheias. Utilizar redes de embarcações mais pequenas e de menor calado, em vez de megabarcaças únicas, também ajuda a distribuir o peso da carga.
A Hungria declarou esta quinta-feira um estado de alerta de seca depois de os limiares de seca terem sido ultrapassados em 66 dos 84 distritos de gestão de recursos hídricos do país, anunciou o ministro do Ambiente, László Gajdos.
“Isto significa que especialistas da Autoridade de Gestão das Águas vão aplicar medidas de mitigação da seca no nível máximo de alerta em 74% do território”, acrescentou, citado pelo site de notícias húngaro Telex.