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As raízes da arte, na Bienal de Marraquexe

As raízes da arte, na Bienal de Marraquexe
De  Nelson Pereira

As raízes históricas norte-africanas são o fio condutor na edição deste ano da Bienal de Arte Contemporânea de Marraquexe, o coração exótico do centro-sudoeste marroquino.

O curador Reem Fadda reuniu à volta do tema “Not New Now” / “Quoi de neuf là”, um leque de artistas originários principalemente do mundo árabe, da região mediterânea e da África subsaariana e das suas diásporas.

Parte das exibições foram instaladas no Palácio el-Badi, construído no séc. XVI. O artista argelino Rachid Koraichi criou, com uma série de urnas de porcelana, um memorial dedicado aos seus pais, intitulado “Oração pelos ausentes”.

“Quis contar o tipo de relação formidável que existia entre nós, para que depois da minha morte fique para os meus filhos e netos. A história fica marcada em obras que a fazem eterna”, disse Koraichi, acrescentando que “sou artista graças aos meus pais, pois eles nunca se opuseram a isso, pelo contrário – encorajaram-me a caminhar.”

Une maquete massiva de um motor de bulldozer feito de couro, madeira, gesso, aço reciclado e cobre – a obra do belga Eric Van Hove foi instalada no Palácio da Bahia. Este artista nasceu na Argélia, cresceu nos Camarões e hoje trabalha entre Bruxelas e Tóquio.

O bulldozer interessa a Van Hove “pela sua ambiguidade, pois surgiu como ferramenta civil, usado na construção, e desde a guerra no Vietname é usado em conflitos bélicos, como no Iraque”. O modelo D9T que trouxe à bienal, é o tipo de bulldozer que é usado na Cisjordânia e em Gaza.

A artista marroquina e designer Sara Ouahaddou foi colher inspiração na joalharia Amazigh (os berberes chamam-se a si próprios Imazighen, ou seja, “homens livres”) desenhada pela realizador, fotógrafo e escritor Ahmed Bouanani. Bouanani morreu em 2011. Grande parte da sua obra estava guardada e depois disso tem vindo a ser redescoberta e reinterpretada por vários artistas.

A partir dos desenhos de Ahmed Bouanani, do design de joalharia Berber, fiz um trabalho de reinterpretação, com base nas técnicas e os materiais usados por ele. Recorri aos contos populares para introduzir uma ligação ao imaginário Berber. Ele era um coleccionador de contos populares.

A bienal trouxe também a Marraquexe as obras de três artistas pioneiros que trouxeram uma nova estética a Marrocos na década de ’60: Farid Belkharia , Mohammed Melehi e Mohamed Chabaa.

A memória e as raízes são centrais também nas peças de artesanato de Ahmed Bouanani. A artista Berber Yto Barrada reinterpretou os contos populares recolhidos por Bouanani com cosendo retalhos de tecidos vindos da casa da sua família em Marrocos.

A artista marroquina sublinhou que “os jovens estão a descobrir o artesanato tradicional, estão a fazê-lo regressar” e que por esta via descobrem o lugar do artesanato, que é considerado uma arte inferior, na história dos movimentos de direitos civis.

Leila Alaoui, a mediterrânea

O trabalho de um grupo de artistas que recicla lixo rendeu homenagem à fotógrafa franco-marroquina Leila Alaoui, morta no atentado de 18 janeiro em Ouagadougou, com 33 anos de idade.

Para os organizadores, Marrocos deve cumprir a vocação de cruzamento de culturas entre o Ocidente, África e o mundo árabe e a bienal de Marraquexe torna-se ponte neste encontro de culturas.

A edição deste ano da Bienal de Arte Contemporânea de Marraquexe decorre até dia 8 de maio.