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Porto de escravos inspira filme guineense

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"Cacheu Cuntum" foi integralmente filmado com telemóvel
"Cacheu Cuntum" foi integralmente filmado com telemóvel   -   Direitos de autor  D.R.
De  Teresa Bizarro  com Lusa

Welket Bungué pegou no sucesso como protagonista do filme alemão "Berlin Alexanderplatz" e multiplicou-o. O ator e realizador luso-**guineense foi distinguido em novembro no Festival Internacional de Cinema de Estocolmo, com o Cavalo de Bronze. Já tinha na mesa de edição "**Cacheu Cuntum", um filme inteiramente gravado com telemóvel. Um manifesto pela riqueza da terra que representa.

"Este filme traz para a tela aquilo que é a memória do passado da escravatura em contraste com aquilo que pode ser a Guiné de amanhã", sublinha Welket Bungué.

"Cacheu Cuntum" junta o ponto de vista do realizador à voz de um guia do museu do Memorial da Escravatura, em Cacheu - cidade que foi o primeiro porto de partida de escravos da Guiné Bissau para o continente americano.

"A Guiné-Bissau é um diamante em bruto em vários sentidos, mais especificamente no que toca ao potencial cinematográfico, ou seja, produção de conhecimento, histórias e de acervo audiovisual. A Guiné-Bissau tem muita coisa ainda por desenvolver," afirma Welket Bungué.

Para o ator, o filme não pretende "somente fazer um atestado" da memória da escravatura, mas "desconstruir e, ao mesmo tempo, relatar, denunciar, algumas figuras que fizeram parte daquele período e que podem ser associadas ao que foi Cacheu", enquanto interposto comercial de escravos.

O criador está na Guiné-Bissau para apresentar a primeira edição do Bissau Film Meeting, que decorre esta sexta-feira no Centro Cultural brasileiro da capital guineense, e onde pode ser visto o seu trabalho.

As telas não espelham a diversidade da sociedade em Portugal

Welket Bungué tinha 3 anos quando a família se mudou para Portugal. É com propriedade que critica a falta de diversidade, sobretudo no meio audiovisual português.

"Deixa muito a desejar que nós não tenhamos tido ainda a coragem de assumir que Portugal é um país 'miscelanizado', diversificado no sentido étnico e cultural, e essa diversidade tem de ter respaldo pragmático nas produções do audiovisual e de ficção nacional. E a cor traz vida. E o nosso país tem obrigação de trazer este manancial humano não só para a ficção [audiovisual] que produz, mas também para toda a estrutura social, política, administrativa e de serviço público," afirma.

Para o ator e realizador, "não é por acaso que no filme 'Soul' cometeram o erro crasso de fazer um casting totalmente branco e não 'miscegenizaram' de todo. É vergonhoso, não só para mim como artista, como para alguém que faça parte de uma indústria não só nacional, mas também que representa Portugal internacionalmente".

Uma petição assinada por mais de 17 mil pessoas, em dez dias, foi lançada para exigir uma nova adaptação em português da recente produção da Disney, "Soul - Uma História com Alma", filme de animação sobre jazz e a comunidade afroamericana nos Estados Unidos, que, na versão portuguesa, não inclui atores negros para dar voz aos personagens negros.

Welket Bungué sublinhou "a grande mudança" que tem havido em Portugal, com a elevação de "vozes insubmissas", "cada vez mais insubmissas", "criando coletivos que se afastam desse hiperconsumo da 'branquitude' estabelecida".

"Quando falo disto, falo de cultura. E a cultura está ligada inevitavelmente às pessoas, e as pessoas estão ligadas àquilo em que acreditam. E aquilo em que acreditam tem muito a ver com a sua realidade (...). E a realidade de onde provêm pode ser diversa. E essa diversidade pode ter sobretudo a ver com a sua etnicidade. E a etnicidade poderá ter a ver com aquilo a que nós, leigamente, chamamos cor. E a cor traz vida. E o nosso país tem obrigação de trazer este manancial humano não só para a ficção [audiovisual] que produz", mas também para toda a estrutura social, política, administrativa e de serviço público, defende.

Bunqué recorda as manifestações de junho do ano passado, sob a palavra de ordem "Black lives matter", e as de solidariedade, que se sucederam ao homicídio do ator negro Bruno Candé, em julho, como reflexos da diversidade e da fraternidade existentes na sociedade portuguesa. Uma realidade que, defende, os produtores têm de entender e fazer refletir.

"Os nossos produtores façam o favor de perceber que este é um país colorido, riquíssimo do ponto de vista cultural, e que eles não podem continuar a impor estrategicamente um 'statement' daquilo que é cultura, porque isso não serve à grande maioria", afirmou.

O ator e realizador luso-guineense Welket Bungué nasceu na Guiné-Bissau, em 1988, cresceu em Portugal, onde se licenciou em teatro, estudou também no Brasil e recentemente mudou-se para Berlim. É membro da Academia Portuguesa de Cinema e da Academia Alemã.