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Memórias de Gisèle Pelicot recuperam história de dissociação e de julgamento à porta fechada

Gisèle Pelicot fala à comunicação social à saída do tribunal de Avignon, no sul de França, quinta-feira, 19 de dezembro de 2024.
Gisèle Pelicot fala à comunicação social à saída do tribunal de Avignon, no sul de França, na quinta-feira, 19 de dezembro de 2024. Direitos de autor  Copyright 2024 The Associated Press. All rights reserved
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De Euronews
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Quatro meses após o fim oficial do julgamento, Gisèle Pelicot publica a 17 de fevereiro, na Flammarion, uma biografia em que recorda a primeira ida à esquadra, o que viveu em tribunal e a decisão de recusar uma audiência à porta fechada

Foi o rosto do caso das violações de Mazan em França. A história das agressões, cometidas sob submissão química e por iniciativa do ex-marido, correu mundo e fez dela uma figura da luta contra a violência sexual. Gisèle Pelicot publica agora a sua autobiografia.

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Da primeira vez que encontrou Dominique Pelicot à vida depois dos julgamentos, a septuagenária conta a sua história pela mão da jornalista e escritora Judith Perrignon. Os primeiros excertos foram publicados na terça-feira no jornal Le Monde.

A vítima (no sentido legal, mas não perante a vida, como precisa nas páginas do jornal) retoma ali o controlo da sua história, sem pedir ao leitor que tenha pena dela ou a admire. Tal como fizera durante o julgamento das violações.

Relatar factos revividos mas esquecidos

Tudo começa com um telefonema e uma convocatória para a esquadra de polícia de Carpentras (Vaucluse), na manhã de 2 de novembro de 2020. Um gendarme interroga-a e depois mostra-lhe fotografias suas, adormecida e violada por pessoas que não reconhece. Gisèle Pelicot também não se reconhece.

«Aquela mulher tinha a face tão flácida», descreve. «A boca tão mole. Era uma boneca de trapos. O meu cérebro ficou ali, no gabinete do subbrigadeiro Perret», conta.

No fim da investigação, descreve a estupefação ao ler os detalhes dos factos. «As datas magoavam-me. Revivia o momento de antes, o de depois, o sítio onde estávamos, o que vivíamos e que eu julgava feliz. Era no dia do meu aniversário, era naquela noite de Ano Novo que, pela primeira vez, tínhamos passado os dois sozinhos, foi mesmo depois da partida dos nossos filhos».

«Se tivesse menos vinte anos, talvez não tivesse tido coragem»

Depois chega o julgamento. Em 2024, Gisèle Pelicot decidiu recusar o julgamento à porta fechada que a teria deixado sozinha perante 50 agressores, o ex-marido e os respetivos advogados. Por receio de os proteger, explica, mas também por medo de os enfrentar sozinha. «A ele, tinha pressa de o ter frente a mim. A eles, temia-lhes o número», recorda. «Ao ponto de, cada vez mais, a porta fechada do tribunal, supostamente para me proteger dos olhares, da imprensa e dos comentários, me inquietar. Deixar-me-ia sozinha diante deles».

Perante o tribunal de Avignon, explica que recusa o julgamento à porta fechada para que «todas as mulheres vítimas de violação deixem de ter vergonha». Mantém hoje essa posição, mas, na biografia, contextualiza essa escolha. «Hoje, quando penso no momento em que tomei a decisão, digo para comigo que, se tivesse menos vinte anos, talvez não tivesse tido coragem de recusar o julgamento à porta fechada», explica.

«Ter-me-ia assustado com os olhares, esses malditos olhares com que uma mulher da minha geração sempre teve de lidar, esses malditos olhares que a fazem hesitar de manhã entre as calças e o vestido, que a escoltam ou a ignoram, que a elogiam e a embaraçam, esses malditos olhares supostamente capazes de dizer quem é, quanto vale, e que depois a largam quando envelhece».

A multidão, «envolvente e tranquilizadora»

Das sete semanas de audiência, Gisèle Pelicot recorda os «ataques incessantes», mas também o medo que se foi dissipando. E lembra-se da multidão. Durante os quatro dias de audiência em que esteve presente no tribunal de júri do Gard, foi aplaudida a cada entrada e saída da sala.

«Há quatro anos que fugia aos abraços demasiado apertados das pessoas que me querem bem, não queria a compaixão de ninguém, contava apenas com a minha força e, provavelmente, com o esquecimento. Mas aquela multidão já não aguentava o esquecimento, essa forma que a vida tem de nos recortar e de nos deixar sós, com dores que se ignoram umas às outras. Essa multidão salvou-me».

Em dezembro, em Avignon, Dominique Pelicot, que organizara durante uma década as violações da ex-mulher, foi condenado a 20 anos de prisão, a pena máxima. Ao seu lado, os coarguidos foram condenados a penas que vão de três anos de prisão, dois dos quais com pena suspensa, a 15 anos.

«Et la joie de vivre», de Gisèle Pelicot, é publicado a 17 de fevereiro em França pela editora Flammarion, 320 p., 22,50 €

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