A embarcação desenhada por Leonardo da Vinci ganhou destaque após o encerramento de uma ponte e o aumento do trânsito. O ferry é um exemplo de transporte sustentável e funciona com a corrente do rio.
No rio Adda, na Lombardia, circula um ferry que há mais de 500 anos liga as duas margens do rio. É o chamado “ferry de Leonardo”, uma embarcação renascentista sem motor, desenhada por Leonardo da Vinci em 1513.
Hoje liga Imbersago, na província de Lecco, a Villa d'Adda, na margem bergamasca do rio. Trata-se do último exemplar em funcionamento deste tipo.
Leonardo da Vinci não inventou o ferry de Leonardo
Em serviço há cinco séculos, o ferry ligou pessoas e mercadorias entre o Ducado de Milão e a República de Veneza até ao final do século XVIII, quando o rio Adda marcava a fronteira entre os dois Estados.
Apesar de o nome sugerir que foi Leonardo da Vinci a projetar o ferry, este tipo de embarcação já era comum no século XV. Mas impressionou tanto o génio de Leonardo que ele a imortalizou num desenho intitulado “Paisagem do Adda com pormenor de um ferry”, conservado na Royal Collection do Castelo de Windsor, no Reino Unido.
Segundo o historiador Erminio Bonanomi, Leonardo terá, no máximo, projetado o porto de Imbersago, depois de estudar o funcionamento do ferry.
Depois de ter passado por várias famílias nobres, a gestão do ferry acabou por chegar ao município de Imbersago. No Adda, existiam cinco embarcações deste tipo, mas foram sendo abandonadas a partir de 1889, quando foi construída a primeira ponte em Paderno d'Adda, tornando desnecessário o serviço de travessia.
O exemplar de Imbersago é o único que sobreviveu.
Entre os que atravessaram o Adda nesta embarcação esteve também Angelo Giuseppe Roncalli, antes de se tornar papa João XXIII. Natural da região, o pontífice costumava usá-la durante as peregrinações ao Santuário de Nossa Senhora do Bosque de Imbersago.
Quando foi redescoberto o ferry de Leonardo
Os trabalhadores pendulares da Lombardia redescobriram o ferry no início de maio, quando a ponte de Brivio, uma das poucas ligações entre as duas margens na zona, foi encerrada para obras que vão durar até 2027.
O trânsito na vizinha ponte de San Michele, a três quilómetros de distância, aumentou, com filas de dois quilómetros e oito mil veículos por dia nas horas de ponta.
O ferry, que antes funcionava apenas aos fins de semana como curiosidade turística, transformou-se numa oportunidade para evitar o trânsito. Desde o fecho da ponte, o funcionamento da embarcação foi alargado também aos dias úteis.
“Neste momento é o sistema mais rápido, mas sobretudo o mais agradável, porque oferece três minutos de tranquilidade”, contou Gianpaolo Graffagnino à Associated Press. Desde o encerramento da ponte, passou a deslocar-se de bicicleta e a usar o ferry.
A operação está a cargo de um grupo de voluntários locais. Entre eles há três jovens de 20 anos, estudantes de engenharia e economia, um reformado e o presidente da câmara de Imbersago, Fabio Vergani.
“Este é um meio de transporte que existe há 500 anos e que sempre ligou as duas margens do Adda”, explicou Massimo Zoia, um dos voluntários. “Hoje voltou à sua função original: pôr em contacto duas comunidades que vivem nas margens opostas do rio.”
Ferry de Leonardo é modelo de transporte sustentável
A embarcação é um meio totalmente ecológico e sem impacto ambiental, pois funciona com base na corrente do rio, sem motor nem combustível.
Construída em madeira, a barca-chata está presa a um cabo de aço (antigamente era uma corda) esticado entre as duas margens do Adda. Para arrancar, a pessoa ao leme puxa uma corda que orienta a embarcação para o centro do rio. O barqueiro manobra depois o ferry de forma a ficar oblíquo em relação à corrente, que o empurra para a outra margem.
A força da água bate no costado da embarcação, que avança graças a um princípio de decomposição de forças que fascinou o génio de Leonardo.
Para fazer funcionar o ferry basta um único operador e a travessia dura cerca de cinco minutos.
A plataforma transporta peões, bicicletas, motas e automóveis. O bilhete custa 1,5 euros (3,5 euros para quem vai de carro). Em caso de vento, o serviço é suspenso.