Nesta que é já a 18.ª edição dos NOS Alive, uma das grandes novidades consiste no Palco Literário, descrito pela organização como um "espaço dedicado aos livros, à escrita e ao poder das histórias". Exemplo de como, num festival de música, há também lugar para outras formas artísticas.
Num festival de verão a música é, grande parte das vezes, a principal atração. Mas, nos últimos anos, os grandes eventos em Portugal têm procurado ir além das convenções, dando palco a outras formas de expressão cultural.
E, nesta edição do NOS Alive, no Passeio Marítimo de Algés, em Lisboa, está a ser oferecida ao mundo da literatura uma forma privilegiada de contacto com o público, através de uma iniciativa que, segundo a organização do festival, se materializa num "espaço dedicado aos livros, à escrita e ao poder das histórias".
Este Palco Literário, nome pelo qual foi batizado, é uma das principais novidades desta que é já a 18.ª edição de um dos festivais de verão com maior afluência de público em Portugal, que este ano decorre de 9 a 11 de julho e conta com uma lotação máxima de 55 mil pessoas por dia. Fasquia que irá atingir já esta sexta-feira e também no sábado, dias para os quais já não existem bilhetes disponíveis.
Valter Hugo Mãe, com obra traduzida em várias línguas (é o caso de títulos como A Desumanização, O paraíso são os outros e O apocalipse dos trabalhadores), esteve entre os escritores portugueses convidados para protagonizar uma das conversas literárias promovidas no primeiro dia do NOS Alive, que arrancou na quinta-feira, num momento conduzido pela também autora e comunicadora Ana Markl.
Em declarações à Euronews, o autor salientou considerar "importantes todas as iniciativas que aproximem o livro das pessoas, que levem o livro onde as pessoas estão". Por esse motivo, disse ser essencial que não se criem "preconceitos em relação ao que deve ser o lugar disto ou daquilo, para que, eventualmente, todos os lugares sejam o lugar do livro".
Para o autor, a literatura tem um papel fundamental. "Eu tenho para mim que o livro é profundamente humanizador, é um sintoma da maturidade da humanidade. Por isso, onde tivermos livros, temos esperança; onde tivermos livros, estamos a construir alguma coisa que é absolutamente essencial não deixar de mão."
Na sua conversa em palco com Ana Markl, Valter Hugo Mãe alertou ainda para os perigos que as novas tecnologias e, em particular, a Inteligência Artificial, trazem não só à criação cultural, como também à Humanidade no seu todo.
"As novas tecnologias trazem um deslumbre, obviamente, são fascinantes, porque elas potenciam soluções pelas quais sempre ansiámos. O problema das novas tecnologias está no momento em que, eventualmente, mais do que solucionar os nossos problemas, elas possam estar a propor uma substituição daquilo que nós somos", avisou o escritor.
No domínio artístico, sobre "estas novas tecnologias que parecem vir facilitar quer a escrita de um texto, quer a composição de uma música", é necessário que cada um entenda que "essa atração por essa facilitação, por essa facilidade, não nos vai colocar diante daquilo que é humano", elaborou Valter Hugo Mãe.
"O que me interessaria a mim um belo poema de amor que uma máquina me inventou? Em última análise, um belo poema de amor não é sempre uma forma de relação entre alguém que lê e alguém que escreve?", refletiu o escritor português.
Entre os nomes com passagem marcada pelo Palco Literário, nesta edição do NOS Alive, contam-se ainda: Pedro Chagas Freitas, que esteve igualmente no alinhamento de quinta-feira, também em conversa com Ana Markl; Afonso Cruz, Luísa Sobral e Pedro Boucherie Mendes, na tarde desta sexta-feira; e Francisco Guimarães, Ana Bárbara Pedrosa, David Azevedo Lopes e Hugo van der Ding, no sábado, último dia de festival.
Por outro lado, além de promover o debate sobre o universo literário, a iniciativa dá ainda ao público a hipótese de adquirir, no local, livros dos autores que nela participam e de lhes pedir autógrafos. E muitos foram os que aderiram à proposta.
E para quem ter um "peso extra" nas mochilas pudesse ser um obstáculo, uma parceria estabelecida com a FNAC e os CTT - Correios de Portugal possibilita que as obras sejam enviadas gratuitamente para casa, depois da compra.
Os visitantes elogiaram igualmente a criação deste espaço literário, demonstrando que, num festival de música, há também lugar para outras formas artísticas. Até porque, ao longo dos últimos anos, tem sido aposta deste evento diversificar a sua oferta cultural, nomeadamente através de um palco onde o fado é a principal atração e de outro onde a comédia pretende conquistar todos os espectadores com uma gargalhada.
Dulce Pinto, uma das muitas milhares de pessoas que marcaram presença no primeiro dia de festival, confidenciou à Euronews que, quando chegou ao recinto na quinta-feira, "não estava à espera de encontrar um cantinho literário". E, muito menos, de "encontrar o Valter Hugo Mãe a assinar livros".
Na sua opinião, este foi um "momento fora da caixa" que ganhou forma por meio de uma "iniciativa engraçada e apelativa". A qual, acrescentou, "faz todo o sentido", pois a literatura também é uma forma de "expressão cultural" e um "bom livrinho nunca ocupa espaço".
Já Pedro Fernandes, outro festivaleiro, confidenciou que veio "mais cedo" para o recinto para poder aproveitar a oportunidade de assistir à "talk" que teve Valter Hugo Mãe como grande protagonista. Uma atividade cuja inserção num festival de verão faz "todo o sentido", referiu igualmente, pois a literatura, tal como a música, "é também cultura e arte".
Para este espectador, a opção de vir antecipadamente para o recinto acabou por ser bastante proveitosa: "Ganhei [a possibilidade] de poder ver o Valter Hugo Mãe em pessoa. É a primeira vez que o vejo. E é um autor que começo a acompanhar agora com bastante interesse. E, além disso, a conversa foi muito interessante porque o último livro dele, o mais recente [O Século dos Imbecis], aborda um tema que me interessa muito."
Na vertente musical, o dia de quinta-feira, 9 de julho, ficou marcado pelos concertos de Nick Cave & The Bad Seeds e de Twenty One Pilots, os grandes cabeças de cartaz do primeiro dia da 18ª edição do NOS Alive.
No entanto, Foo Fighters, Skunk Anansie, Teddy Swims, Lorde, Florence + The Machine e Buraka Som Sistema são alguns dos artistas mais aguardados pelas dezenas de milhares de festivaleiros que, entre sexta-feira e sábado, são esperados no recinto para mais dois dias de festival.