Loader
Encontra-nos
Publicidade

Estados Unidos: morre aos 92 anos Gloria Steinem, ícone feminista e jornalista

Morre aos 92 anos Gloria Steinem, ícone feminista, escritora e jornalista pioneira
Morre aos 92 anos Gloria Steinem, ícone feminista, escritora e jornalista pioneira Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De David Mouriquand
Publicado a Últimas notícias
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google
Partilhar Close Button

Morreu aos 92 anos Gloria Steinem, escritora, ativista e figura de referência do movimento feminista moderno nos Estados Unidos

Gloria Steinem, escritora consagrada, ativista feminista e uma das vozes mais conhecidas do movimento feminista nos Estados Unidos, morreu aos 92 anos.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Morreu na quarta-feira em casa, na cidade de Nova Iorque, segundo as publicações nas redes sociais na sua página e na da sua fundação.

“Quase um século de Gloria na Terra foi um tempo bem vivido, e ela continuou a trabalhar pela igualdade até ao fim”, lia-se no comunicado. “O maior dom de Gloria era a sua capacidade de ouvir os outros, de fazer com que os outros se sentissem vistos e ouvidos. As suas palavras, ações e o seu exemplo deram às pessoas permissão para serem quem realmente são. Gloria viveu fiel ao seu espírito independente, sempre com curiosidade e um grande sentido de humor.”

O comunicado prosseguia: “Passou os últimos anos a fazer as duas coisas de que mais gostava: estar em comunidade com outras pessoas e escrever. Recebeu centenas de convidados na sua sala de estar para os Talking Circles, uma tradição que fez questão de garantir que continuaria muito depois de já não estar entre nós. Como Gloria escreveu no seu próximo livro, 𝘈𝘯 𝘜𝘯𝘦𝘹𝘱𝘦𝘤𝘵𝘦𝘥 𝘓𝘪𝘧𝘦, ‘Vivo há mais de cinquenta anos nesta brownstone, em divisões que testemunharam vidas antes da minha e conhecerão outras depois de eu partir.’ Este livro, tal como o seu compromisso em transformar a sua casa num centro para movimentos de justiça social, estão entre os muitos presentes que Gloria deixou ao mundo, na esperança de que tenham efeitos em cascata durante gerações. Gloria citava muitas vezes o provérbio: ‘O bater das asas de uma borboleta pode mudar o tempo a centenas de quilómetros de distância.’”

Concluía: “Em vez de flores, Gloria pediu que quem deseje homenageá-la com uma oferta faça um donativo à Gloria’s Foundation.”

A causa da morte não foi divulgada, mas Steinem enfrentou um cancro da mama na década de 1980 e foi diagnosticada, nos anos 90, com nevralgia do trigémeo, uma dolorosa doença do nervo.

Nascida em 25 de março de 1934, em Toledo, no estado do Ohio, Steinem foi uma das principais figuras da “segunda vaga do feminismo” e uma das pioneiras do movimento de defesa dos direitos das mulheres nos EUA nos anos 60.

Iniciou a carreira como jornalista freelancer em Nova Iorque e ganhou notoriedade em 1963, quando se infiltrou, disfarçada de Playboy Bunny, para uma reportagem na revista Show. A investigação revelou as condições de trabalho enfrentadas pelas mulheres nos clubes de Hugh Hefner.

Em 1968, Steinem ajudou a fundar a revista New York, onde trabalhou como editora e cronista política. No ano seguinte publicou o artigo “After Black Power, Women’s Liberation”, que lhe trouxe atenção a nível nacional e a colocou como uma das líderes do movimento feminista.

Steinem passou então a dedicar a vida a causas como a liberdade reprodutiva e a prevenção da violência doméstica, bem como às desigualdades de género no trabalho e na política.

Em 1971, juntou-se às ativistas Bella Abzug, Betty Friedan e Shirley Chisholm para criar o National Women’s Political Caucus (NWPC), com o objetivo de aumentar a participação das mulheres na política.

Nesse contexto, proferiu o famoso discurso “Address to the Women of America”, lembrado sobretudo pela seguinte passagem: “Isto não é uma simples reforma. É, de facto, uma revolução. O sexo e a raça, por serem diferenças fáceis e visíveis, têm sido as principais formas de organizar os seres humanos em grupos superiores e inferiores e em mão de obra barata, da qual este sistema continua a depender. Falamos de uma sociedade em que não haverá papéis além dos que forem escolhidos ou conquistados. Falamos, verdadeiramente, de humanismo.”

Um ano depois, cofundou a revista Ms., que se tornou uma publicação de referência do movimento feminista, ao trazer para o debate público temas como violência doméstica, assédio sexual e aborto. A própria Steinem fez um aborto em 1957, quando o procedimento ainda era ilegal – algo que só revelou publicamente em 1969.

Steinem viria ainda a fundar outras organizações, incluindo a Ms. Foundation for Women e o Women’s Media Center.

ARQUIVO – Bella Abzug e Patsy Mink, da Women USA, ao lado de Gloria Steinem enquanto esta fala, em Washington, a candidatos presidenciais sobre compromissos em matéria de direitos das mulheres – 1979
ARQUIVO – Bella Abzug e Patsy Mink, da Women USA, ao lado de Gloria Steinem enquanto esta fala, em Washington, a candidatos presidenciais sobre compromissos em matéria de direitos das mulheres – 1979 AP Photo
“O primeiro problema para todos nós, homens e mulheres, não é aprender, é desaprender.”
Gloria Steinem

Steinem foi também uma autora prolífica, com livros como “Outrageous Acts and Everyday Rebellions” (1983), “Revolution From Within: A Book of Self-Esteem” (1992), “Moving Beyond Words” (1993), “The Truth Will Set You Free, But First It Will Piss You Off!” (2015) e as suas celebradas memórias “My Life on the Road” (2016).

Em 1998, enfrentou polémica por um artigo de opinião publicado no The New York Times, no qual defendia o então presidente Bill Clinton perante acusações de assédio sexual. “Ele não é culpado de assédio sexual”, escreveu, apenas “uma investida grosseira, estúpida e imprudente sobre uma apoiante numa fase difícil da sua vida”.

Em 2013, o presidente Barack Obama atribuiu-lhe a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta distinção civil dos EUA.

O presidente Barack Obama entrega a Medalha Presidencial da Liberdade a Gloria Steinem – 20 de novembro de 2013
O presidente Barack Obama entrega a Medalha Presidencial da Liberdade a Gloria Steinem – 20 de novembro de 2013 AP Photo
“Se o Trump falasse bem de mim, matava-me.”
Gloria Steinem

Steinem manteve-se, já nos 90 anos, uma defensora incansável da igualdade e continuou a escrever e a intervir publicamente sobre os direitos das mulheres, incluindo o direito à autodeterminação reprodutiva, os direitos LGBTQ e o movimento Time’s Up.

Em setembro de 2020, quando Donald Trump era presidente, Steinem disse ao The New York Times (fonte em inglês): “As críticas ou ataques mais dolorosos vêm de pessoas que partilham os nossos valores, não de quem não os partilha. Se o Trump falasse bem de mim, matava-me.”

Gloria Steinem com duas laureadas com o Prémio Nobel da Paz, Mairead Maguire e Leymah Gbowee, a marchar para o Pavilhão de Imjingak com ativistas sul-coreanas – maio de 2015
Gloria Steinem com duas laureadas com o Prémio Nobel da Paz, Mairead Maguire e Leymah Gbowee, a marchar para o Pavilhão de Imjingak com ativistas sul-coreanas – maio de 2015 AP Photo

Depois de anos a descrever o casamento como uma instituição que arruinava relações, Steinem casou-se em 2000 com o ativista ambiental David Bale. Manteve uma relação próxima com o enteado, o ator Christian Bale, depois da morte do pai em 2003.

Questionada sobre porque mudou de ideias em relação ao casamento, disse à revista National Geographic (fonte em inglês): “Se me tivesse casado quando supostamente devia tê-lo feito, teria perdido o meu nome, a minha residência legal, o meu histórico de crédito, muitos dos meus direitos civis.” E acrescentou: “Já não é assim. É possível ter um casamento igualitário.”

Disse ainda ao The New York Times em 2020: “Mesmo que viva até aos 100 anos, como é minha inteira intenção, não falta assim tanto tempo. Só espero não morrer a dizer: ‘Mas! Espera!’.”

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google

Notícias relacionadas

Morre aos 70 anos a cantora de jazz Cassandra Wilson, galardoada com Grammys

Morre Peter Cullen, voz icónica de Optimus Prime, Eeyore e Predator, aos 85 anos

Morre Tim Curry, estrela lendária de “The Rocky Horror Picture Show” e “It”, aos 80 anos