Passadas mais de duas décadas desde o lançamento, esta canção continua a ser o hino do indie rock que teima em não desaparecer...
“And I just can’t look, it’s killing meeeeee...”
É aquela canção que já ouviu em todo o lado, das festas de estudantes e festivais aos casamentos e festas de divórcio.
Basta que aqueles versos iniciais comecem a sair das colunas para haver sempre alguém a juntar-se, a gritar a letra de copo na mão e braços estendidos, convencido de que também está a sair da sua própria jaula...
Lançado originalmente em 2003 – e relançado no ano seguinte –, “Mr. Brightside”, dos rockers norte-americanos The Killers, foi o single de avanço do álbum de estreia da banda, “Hot Fuss”. Ao contar a história verídica de Brandon Flowers a apanhar a então namorada a traí-lo num bar de Las Vegas, o tema passou de grito geracional millennial a hino intergeracional sobre ultrapassar o ciúme e a adversidade.
Ao longo dos anos, o êxito bateu inúmeros recordes, sobretudo no Reino Unido, que praticamente adotou a canção como sua.
“Mr. Brightside” foi a canção anterior a 2010 mais ouvida em streaming no Reino Unido e, em 2024, acabou por ultrapassar “Wonderwall” para se tornar a canção de sempre com maior sucesso sem nunca ter chegado ao cobiçado 1.º lugar do top.
O que torna o número seguinte ainda mais impressionante...
Esta semana, “Mr Brightside”, dos The Killers, atinge a impressionante marca de 520 semanas acumuladas no Top 100 do Reino Unido, prolongando a sua corrida aparentemente imparável como a canção com mais tempo de permanência de sempre nas tabelas britânicas.
Para pôr esta marca em perspetiva, equivale a 10 anos nas tabelas.
Segue destacado na frente da concorrência, já que os perseguidores Lewis Capaldi, Goo Goo Dolls e Ed Sheeran somam respetivamente 239 semanas com “Someone You Loved”, 213 semanas com a power ballad dos anos 90 “Iris” e 191 semanas com “Perfect”.
Esta carreira recordista já tinha sido reconhecida em 2024, quando os The Killers arrecadaram dois recordes do Guinness com “Mr Brightside”: a permanência mais longa de um grupo na tabela de singles do Reino Unido e o maior número de semanas acumuladas nessa mesma tabela.
“É difícil não ficar comovido ou entusiasmado”, disse Flowers ao Guinness World Records na altura. “E simplesmente não nos cansamos dela.”
Também o público britânico não dá sinais de cansaço, mas a longevidade da canção levanta a questão: “Mr. Brightside” merece mesmo ser uma das músicas mais duradouras do século XXI?
Diríamos que canções igualmente omnipresentes e inegavelmente demasiado passadas como “Seven Nation Army”, dos The White Stripes, “Ms. Jackson”, dos Outkast, e “One More Time”, dos Daft Punk, são superiores; que pérolas indie como “Since I Left You”, dos The Avalanches, “Real Love Baby”, de Father John Misty, e “Hasta La Raíz”, de Natalia La Fourcade, são fortes candidatas a Melhor Canção do Século XXI; e que nenhuma canção lançada nos últimos 26 anos superou “Hate To Say I Told You So”, dos The Hives, “Maps”, dos Yeah Yeah Yeahs, ou “Favourite”, dos Fontaines D.C. Mas isso já são contas nossas.
“Mr. Brightside” nem sequer é o melhor single de “Hot Fuss”; “Somebody Told Me”, “Smile Like You Mean It” e “All These Things That I’ve Done” superam-no claramente em qualidade.
Ainda assim, é impressionante ver como cada nova geração parece descobrir e adotar o êxito do início dos anos 2000 dos The Killers. Já devia ser encarado como uma relíquia nostálgica ou “retro”, mas, de alguma forma, esta raridade musical nem sequer é descartada pela geração Z como “Unc”, porque também eles sabem a letra de cor.
Será por ser tão catártico gritá-la em coro? Terá a ver com a mensagem universal de superação das desilusões amorosas e da traição, que reforça o seu poder coletivo? Ou será apenas um refrão irresistível para berrar quando se está bêbedo?
Sobrevalorizada ou não, continua a bater recordes e provavelmente continuará a tocar em todas as festas, festivais ou sessões de karaoke a que for pelo resto da vida. Não nos espantaria que chegasse às 600 semanas em março de 2028 (segundo as nossas contas). É apenas o preço a pagar... Open up your eager eyes... porque Mr. Brightside não vai a lado nenhum.