Secas históricas e temperaturas abrasadoras alimentaram os incêndios florestais que devastaram milhares de hectares de floresta autóctone
As alterações climáticas provocadas pelo homem tiveram um impacto significativo nos recentes incêndios florestais devastadores que atingiram partes do Chile e a região da Patagónia, na Argentina, tornando as condições de risco extremo que levaram à propagação generalizada das chamas até três vezes mais prováveis do que num mundo sem aquecimento global, alertou uma equipa de investigadores em 11 de fevereiro.
O tempo quente, seco e ventoso que alimentou, no mês passado, os incêndios florestais mortais no centro e sul do Chile tornou-se cerca de 200% mais provável devido às emissões de gases com efeito de estufa de origem humana, enquanto as condições de elevado risco de incêndio que continuam a alimentar os fogos no sul da Argentina passaram a ser 150% mais prováveis, de acordo com a World Weather Attribution, uma iniciativa científica que investiga fenómenos meteorológicos extremos pouco depois de ocorrerem.
Essa probabilidade só irá aumentar enquanto a humanidade continuar a queimar combustíveis fósseis e a cobrir o planeta com mais gases que retêm o calor, acrescentaram os investigadores.
Os incêndios que devastaram as regiões chilenas de Biobio e Ñuble em meados de janeiro mataram 23 pessoas, destruíram mais de 1 000 casas e outras estruturas e obrigaram dezenas de milhares de pessoas a abandonar as suas habitações. Todos tiveram origem em atividade humana, seja por fogo posto, seja por negligência.
No sul da Argentina, os incêndios inicialmente provocados por descargas elétricas obrigaram à evacuação de milhares de turistas e residentes e consumiram mais de 45 000 hectares de floresta nativa, incluindo vastas áreas do Parque Nacional Los Alerces, classificado como Património Mundial da UNESCO e onde existem árvores com 2 600 anos.
Rastrear a mão humana nas catástrofes
O estudo, que confirma o que há muito se suspeitava, apresenta a primeira avaliação científica do papel do aquecimento global na intensificação de algumas das mais graves emergências de incêndios florestais que atingiram o Chile e a Argentina em anos.
Trata-se do mais recente trabalho numa subárea emergente da ciência do clima, conhecida como atribuição meteorológica, que está a evoluir rapidamente em resposta à crescente procura de informação pública sobre a forma como as alterações climáticas influenciam os desastres naturais.
O relatório da World Weather Attribution ainda não foi revisto por pares nem publicado numa revista científica, mas baseia-se em métodos amplamente aceites, incluindo a análise de dados e simulações com modelos informáticos para comparar o clima atual com padrões meteorológicos do passado.
“No conjunto, estamos confiantes em afirmar que o principal fator deste aumento do risco de incêndio é o aquecimento provocado pelo ser humano”, afirmou Clair Barnes, investigadora associada da World Weather Attribution, num encontro com jornalistas. “Prevê-se que estas tendências continuem no futuro enquanto continuarmos a queimar combustíveis fósseis.”
Florestas quentes e secas transformam-se em rastilho
Secas recorde e temperaturas abrasadoras criaram condições propícias a incêndios florestais no Chile e na Argentina, concluiu o estudo, enquanto plantações de uma só espécie de árvores altamente inflamáveis, como os pinheiros, facilitaram a propagação das chamas nas duas áreas. Estas espécies invasoras substituíram ecossistemas nativos, mais resistentes ao fogo, na região, transformando mato e pastagens em material combustível.
Na Patagónia argentina, a localidade de El Bolsón registou a mais alta temperatura de janeiro de que há registo – 38,4 graus Celsius. A cidade de Esquel, perto do Parque Nacional Los Alerces, teve 11 dias consecutivos de temperaturas máximas em janeiro, a sua segunda vaga de calor mais longa em 65 anos. No Chile, as temperaturas antes dos incêndios eram elevadas, mas não bateram recordes.
Os investigadores estimaram que a precipitação sazonal entre novembro e janeiro, antes do pico do período de incêndios, foi cerca de 25% mais fraca no Chile e 20% menos intensa na Patagónia argentina do que teria sido sem o aumento da temperatura global de, pelo menos, 1,3 graus Celsius desde a era pré-industrial.
“Isto, em conjunto com temperaturas superiores à média, levou a que a vegetação estivesse sujeita a stress, com níveis de humidade muito baixos no solo”, explicou Juan Antonio Rivera, investigador argentino e autor do estudo. “Quando os incêndios começaram... havia combustível suficiente para se expandirem e se manterem ao longo do tempo.”
Menos recursos enfraquecem a resposta
O Chile aumentou em 110% o orçamento para o combate a incêndios florestais nos últimos quatro anos, sob a presidência do esquerdista Gabriel Boric, melhorando a previsão de incêndios e investindo em novo equipamento.
Mas, na Argentina, um rigoroso programa de austeridade sob a presidência do libertário Javier Milei pode ter limitado a capacidade de resposta do país aos incêndios, referiram os investigadores, apontando cortes orçamentais nas equipas de combate, falta de planeamento e desregulação das atividades turísticas nos parques nacionais da Patagónia. A crítica foi corroborada, em declarações à agência The Associated Press, por bombeiros, guardas florestais e responsáveis envolvidos nas operações de socorro.
Milei, tal como o seu aliado, o presidente norte-americano Donald Trump, tem negado que as alterações climáticas estejam relacionadas com a atividade humana. O seu gabinete não respondeu de imediato a um pedido de comentário, apresentado na manhã de quarta-feira (11 de fevereiro).
“Infelizmente, com um governo que não compreende as alterações climáticas nem a sua relação com as atividades humanas, e em que a natureza é secundária em termos de prioridades, estas situações agravam-se e os incêndios florestais acabam por ter impactos maiores do que deveriam”, comentou Rivera. “A situação continua fora de controlo.”