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Eleições francesas podem afetar o mercado da dívida soberana europeia?

 O bairro comercial de La Defense visto do topo do Arco do Triunfo
O bairro comercial de La Defense visto do topo do Arco do Triunfo Direitos de autor Aurelien Morissard/Copyright 2024 The AP. All rights reserved.
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De  Piero Cingari
Publicado a Últimas notícias
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Artigo publicado originalmente em inglês

Os mercados financeiros europeus preparam-se para a turbulência com a aproximação das eleições legislativas em França. Sonia Renoult, estratega de taxas do ABN Amro, alerta para a potencial instabilidade orçamental e para uma trajetória insustentável da dívida francesa.

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Os mercados financeiros da zona euro estão a preparar-se para semanas de maior volatilidade com as próximas eleições parlamentares em França. A primeira volta está agendada para domingo desta semana, com a segunda e última volta a 7 de julho.

Dados de sondagens recentes da Harris Interactive, Ifop, Elabe, Ipsos, Odoxa, OpinionWay e Cluster17 indicam que o Rassemblement Nacional (RN) de Marine Le Pen está a liderar com uma média de 35,4% das preferências, seguido pela Nova Frente Popular (NFP) de extrema-esquerda, com 28,1%, e pela Renascença do Presidente Emmanuel Macron, com 20,8%.

Estes resultados das sondagens sugerem uma potencial segunda volta entre as coligações de extrema-direita e de extrema-esquerda, potencialmente marginalizando os partidos centristas de Macron.

Sonia Renoult, estratega de taxas do banco holandês ABN AMRO, ofereceu recentemente informações valiosas sobre o potencial impacto das eleições parlamentares francesas na política orçamental do país e nos mercados europeus de dívida soberana.

Renoult referiu que: "As finanças públicas francesas já se encontravam num estado lastimoso", mesmo antes da convocação de Macron para as eleições antecipadas, acrescentando que "a perspetiva de um novo governo menos responsável do ponto de vista fiscal" poderia agravar a situação.

A dívida pública francesa está numa "trajetória insustentável"

Renoult sublinhou que: "Em qualquer dos cenários possíveis descritos, é pouco provável que o défice orçamental francês volte ao objetivo de 3% até 2027".

O cenário de base do ABN AMRO prevê que o partido RN obtenha uma maioria relativa no parlamento, conduzindo a um governo de coabitação com o Presidente Macron.

As preocupações do mercado centram-se na possibilidade de políticas orçamentais insustentáveis e de uma postura menos cooperante em relação à União Europeia (UE).

Tanto os partidos de extrema-direita como os de extrema-esquerda defendem políticas orçamentais expansionistas e manifestam uma oposição significativa à integração na UE.

A líder da extrema-direita do RN, Marine Le Pen, espera ganhar com as eleições
A líder da extrema-direita do RN, Marine Le Pen, espera ganhar com as eleiçõesChristophe Ena/Copyright 2024 The AP.

As propostas políticas do RN indicam um aumento significativo das despesas públicas em comparação com a atual administração. As principais medidas incluem a indexação das pensões à inflação (27,4 mil milhões de euros), a redução da idade da reforma de 64 para 62 anos (22 mil milhões de euros) e a redução do IVA sobre a energia de 20% para 5,5% (11,3 mil milhões de euros).

No entanto, Renoult sublinhou que: "Algumas medidas serão difíceis de implementar devido a restrições constitucionais", sublinhou Renoult. Além disso, a proposta de redução do IVA sobre a energia entra em conflito com a legislação da UE, que exige uma taxa mínima de 15%.

O RN também pretende reduzir a sua contribuição para o orçamento da UE em 2 mil milhões de euros, uma medida que não deverá ser bem sucedida, mas que poderá causar fricções políticas com a UE.

De acordo com as atuais propostas, um governo liderado pelo RN resultaria em défices persistentes superiores a 6% nos próximos anos.

Se um governo liderado pelo NFP chegar ao poder, poderá conduzir a um défice próximo dos 8%, alertou Renoult.

"O efeito líquido continuaria a colocar a dívida pública numa trajetória insustentável", acrescentou o analista.

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Como poderão reagir as obrigações francesas e europeias?

Na pior das hipóteses, os mercados financeiros, juntamente com a pressão das autoridades europeias, poderiam acelerar o ajuste de contas fiscal da França, segundo o ABN Amro.

Desde o anúncio das eleições antecipadas, as obrigações francesas registaram um desempenho significativamente inferior e o banco holandês prevê que o spread OAT-Bund se mantenha elevado até que haja clareza quanto ao resultado das eleições e às políticas subsequentes.

O fraco desempenho das obrigações francesas levou a que o rendimento das obrigações a 10 anos fosse negociado acima do seu homólogo belga e se alinhasse, ou excedesse ligeiramente, o dos países periféricos, como Portugal, que têm notações de crédito mais baixas.

Após a ronda final de 7 de julho, o rumo das obrigações francesas dependerá do partido no poder nos próximos três anos.

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Esta incerteza fiscal ensombra as perspectivas económicas da França. "Num cenário em que o futuro governo francês avançasse com um plano fiscalmente imprudente, isso faria provavelmente com que o mercado perdesse a confiança na dívida do país e fizesse com que o spread francês a 10 anos ultrapassasse largamente o nível dos 100pb", disse Renoult.

Este cenário poderia levar a que a França fosse transacionada de forma semelhante aos países com notações mais baixas, tornando-se efetivamente um "periférico cruzado".

Além disso, uma vez que a Comissão Europeia colocou a França no seu Procedimento por Défice Excessivo, o Banco Central Europeu não pode utilizar o seu Instrumento de Proteção de Transmissão para atenuar o risco de crédito soberano do país. Por conseguinte, Frankfurt teria de conceber um programa de emergência alternativo para atenuar os riscos de fragmentação no seio do bloco monetário.

De acordo com Renoult, esta situação pode representar "oportunidades atrativas" para os investidores que pretendam reentrar no mercado de dívida europeu quando as incertezas políticas se atenuarem, permitindo-lhes adquirir dívida de países com sólidos fundamentos económicos, como a Espanha ou Portugal, a taxas de rendibilidade mais favoráveis.

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