A decisão da administração Trump de se retirar das estruturas ambientais internacionais atraiu fortes críticas de ambos os lados do Atlântico e poderá oferecer à China um papel mais importante como líder global na ação climática.
Os líderes mundiais condenaram a decisão da administração Trump de retirar os EUA do tratado global das Nações Unidas sobre o clima e de mais de 60 outras organizações ambientais internacionais.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, anunciou a decisão em termos explicitamente políticos, declarando que as instituições climáticas globais já não são relevantes para os interesses do país.
"Como esta lista começa a demonstrar, o que começou por ser um quadro pragmático de organizações internacionais para a paz e a cooperação transformou-se numa arquitetura de governação global em expansão, frequentemente dominada por ideologias progressistas e desligada dos interesses nacionais", afirmou.
A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (CQNUAC) foi criada em 1992 e serviu de base jurídica para o Acordo de Paris de 2015, um pacto voluntário entre nações para combater o aquecimento global. Trump retirou os EUA do Acordo de Paris no seu primeiro mandato, mas o seu sucessor, Joe Biden, voltou a aderir ao acordo.
Washington faltou à cimeira sobre o clima COP30, realizada no Brasil no ano passado, na sequência de comentários do presidente Donald Trump, que apelidou as alterações climáticas de "a maior vigarice alguma vez perpetrada no mundo" e apelidou as energias renováveis de "piada".
Embora a mais recente medida radical seja apenas simbólica, a retirada dos EUA da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas e de dezenas de organizações ambientais dá continuidade a uma tendência em que a economia mais poderosa do mundo está a ficar à margem da ação climática. Os especialistas divergem quanto à dificuldade de um futuro presidente dos EUA voltar a aderir ao tratado da ONU.
Trump também retirou os EUA do Painel Internacional sobre as Alterações Climáticas (IPCC), um organismo da ONU fundamental para apoiar as políticas climáticas da UE, como o Pacto Ecológico Europeu, que estabelece objetivos de neutralidade climática até 2050 e os objectivos do Acordo de Paris de 1,5°C.
Entretanto, a China está a consolidar a sua arquitetura de comunicação de informações empresariais sobre o clima, um sinal de que Pequim pretende assumir um papel de liderança na ação climática e preencher o vazio deixado pelos EUA.
Em dezembro, o Ministério das Finanças do país anunciou o lançamento de uma nova norma que define a forma como as empresas devem comunicar os riscos e oportunidades relacionados com o clima, numa tentativa de evitar o greenwashing e incentivar o investimento verde.
O ponto de vista europeu
A condenação da medida da administração Trump foi rápida nos Estados Unidos e no estrangeiro, incluindo na Europa, onde os líderes políticos reagiram reiterando a importância dos tratados e das organizações climáticas globais como motores da cooperação climática global para reduzir as temperaturas globais.
A vice-presidente executiva da Comissão Europeia para uma Transição Limpa, Justa e Competitiva, Teresa Ribera, não poupou nas palavras, afirmando que a Casa Branca "não se preocupa com o ambiente, a saúde ou o sofrimento das pessoas".
"A paz, a justiça, a cooperação ou a prosperidade não fazem parte das suas prioridades. Nem sequer o grande legado dos Estados Unidos para a governação global. E eles dizem-no claramente", acrescentou.
O comissário europeu para a Ação Climática, Wopke Hoekstra, classificou a retirada dos EUA como "lamentável" e "infeliz" e reiterou o apoio do bloco à investigação internacional sobre o clima.
"Continuaremos a trabalhar na cooperação internacional em matéria de clima. E em casa, continuaremos a seguir a nossa agenda de ação climática, competitividade e independência", afirmou Hoekstra.
A decisão do presidente Trump de retirar os EUA da CQNUAC foi "imprudente" e "profundamente prejudicial", afirmou a eurodeputada Catarina Vieira (Verdes/Países Baixos).
"À medida que as ondas de calor, os incêndios e as inundações se intensificam, afastar-se da ciência e da cooperação é uma escolha política com custos humanos e económicos reais. O mundo vai avançar. Os EUA estão a escolher ficar de lado", disse Vieira à Euronews.
No entanto, o deputado Roman Haider (Áustria/Patriotas pela Europa) apoiou a decisão de Donald Trump, argumentando que os acordos internacionais sobre o clima "não servem os nossos interesses de forma alguma".
"Sob o comando de Ursula von der Leyen, a legislação climática da UE evoluiu para um instrumento de controlo denso e intrusivo que interfere em todos os detalhes da vida quotidiana dos cidadãos e das empresas, tornando tudo mais caro e não melhorando nada", disse Haider à Euronews.
O deputado austríaco afirmou que o "fundamentalismo climático" da UE está a isolar o bloco dos seus pares globais e a pôr em risco os cidadãos e as empresas.
"A Europa deve seguir o exemplo americano sem demora, porque agora somos obviamente os únicos que ainda nos sujeitamos a estes grilhões", acrescentou Haider.