Os especialistas dizem que as carreiras tradicionais estão a acabar. Em que medida é que a volatilidade do emprego obriga as pessoas a explorarem vários caminhos em vez de se cingirem a uma única área?
Chamam-lhe "a grande adaptação da força de trabalho": pode ser uma das mais fortes tendências de emprego de 2026 e já está a remodelar a forma como muitas pessoas seguem as suas carreiras.
De acordo com o Workmonitor 2026 da Randstad, lançado hoje no Fórum Económico Mundial em Davos, mais de um em cada três trabalhadores acredita que os percursos de carreira tradicionais já não são adequados para lidar com as convulsões do mercado de trabalho.
Curiosamente, 72% dos próprios empregadores afirmam concordar com esta visão.
O resultado é que 38% dos talentos têm agora como objetivo uma carreira de portefólio, o que significa que mudam de emprego e de setor à medida que a sua carreira progride.
Na Europa, esta mentalidade é particularmente popular entre os trabalhadores sediados no Luxemburgo (57%), na Polónia (47%) e na Noruega (45%), enquanto os trabalhadores checos (25%) e alemães (27%) são os menos dispostos a ser flexíveis.
Flexibilidade tem um preço. Qual a importância da estabilidade?
Construir uma carteira diversificada dá aos trabalhadores mais opções e resiliência, mas fazer malabarismos com múltiplos papéis também traz desafios, tornando-a claramente uma faca de dois gumes.
Isto talvez ajude a explicar por que razão o equilíbrio entre a vida profissional e a vida privada se tornou o principal fator de retenção no emprego a nível mundial - 46% - muito à frente de fatores tradicionalmente importantes como salários e benefícios competitivos (23%).
As gerações mais jovens são as mais acérrimas defensoras deste fator. Quase metade da Geração Z (45%) e dos Millennials (43%), a nível mundial, afirma que se demitiria de um emprego que não se adequasse à sua vida pessoal, em comparação com 37% da Geração X e 30% dos Boomers.
Equilíbrio entre vida profissional e pessoal supera salário como principal fator de retenção de trabalhadores?
A segurança do emprego continua a ser crucial e, em alguns casos, como na Áustria e na Alemanha, ultrapassa por pouco o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal como primeira razão para permanecer num emprego.
O que se destaca, no entanto, é o facto de a remuneração surgir como o fator menos importante para impedir que os trabalhadores procurem oportunidades noutro local. Para além da Hungria, nenhum outro país dos 25 países inquiridos o escolheu como a principal razão para ficar.
O equilíbrio entre a vida profissional e pessoal também ficou em primeiro lugar na Argentina (44%), na Austrália (50%), no Brasil (45%), no Canadá (43%), no México (43%) e na China (44%), enquanto, na Europa, os Países Baixos (52%), a Polónia (51%) e a Itália (52%) registaram taxas ainda mais elevadas.
Competências intersetoriais e IA: as melhores dicas para uma carreira de portefólio
"Os talentos estão agora a redefinir o sucesso, mitigando os seus riscos - construindo carreiras de portefólio e procurando segurança através da variedade e não da posse", afirma a Randstad no relatório.
O diretor-executivo da empresa, Sander van 't Noordende, disse ao Europe in Motion que os jovens talentos que procuram essas carreiras devem "concentrar-se em competências que se estendem a várias funções e setores", incluindo "profissões especializadas e trabalho prático, e não apenas as tradicionais funções de colarinho branco".
"É também vital adotar uma atitude de aprendizagem permanente, especialmente no que diz respeito ao trabalho com a IA, e não subestimar o valor do discernimento humano, da criatividade e da colaboração", afirmou.
Patrões e trabalhadores: uma nova aliança em ascensão?
Por estranho que pareça, a insegurança no emprego está, de alguma forma, a aproximar patrões e trabalhadores.
Por um lado, os patrões pedem a quem gere o seu negócio que contacte mais frequentemente com a equipas de trabalho (66%), devido aos receios de demissão e de esgotamento.
Ao mesmo tempo, os trabalhadores tendem agora a contactar os seus superiores hierárquicos com mais frequência (60%) devido às preocupações com o atual ambiente macroeconómico volátil.
A Ranstad chama aos gestores as "âncoras de estabilidade" do mercado de trabalho atual.
"Num contexto de perturbações e desafios económicos, a confiança entre empregadores e talentos está sob maior pressão", afirma. "No entanto, com elevados níveis de confiança entre gestores e trabalhadores, os empregadores têm a oportunidade de compreender melhor a dinâmica que impulsiona as motivações e ambições dos seus talentos".
"Precisam de capitalizar estas âncoras de estabilidade para reconstruir a confiança e aumentar a lealdade", acrescenta.