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"Moderação" contra "Rutura": Seguro e Ventura no confronto decisivo para Belém

António José Seguro e André Ventura vão estar num frente-a-frente esta terça-feira
António José Seguro e André Ventura vão estar num frente-a-frente esta terça-feira Direitos de autor  X/@PoliticoVoto
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De Joana Mourão Carvalho
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A poucos dias da segunda volta das presidenciais, António José Seguro e André Ventura medem forças esta terça-feira no único debate da campanha, um frente-a-frente decisivo que colocará em confronto dois projetos políticos opostos para a Presidência da República.

António José Seguro e André Ventura enfrentam-se esta terça-feira num debate decisivo, o único no âmbito da campanha para a segunda volta das eleições presidenciais.

O debate, com duração de 75 minutos, realiza-se às 20h30, com transmissão simultânea na RTP1, SIC e TVI.

Seguro e Ventura vão disputar a segunda volta das eleições presidenciais, a 8 de fevereiro, depois de, a 18 de janeiro, terem conquistado 31,1% e 23,5% dos votos, respetivamente, na primeira volta.

Os dois candidatos já se encontraramfrente a frente a 17 de novembro, ainda antes de se saber quem passaria à segunda volta, num debate que acabou por ser o mais visto do total de 28, com uma audiência total de 1 milhão e 520 mil telespetadores.

Foi também o primeiro debate televisivo de uma longa maratona, no âmbito da primeira volta. As alterações ao pacote laboral e a greve geral convocada pelas duas centrais sindicais para 11 de dezembro de 2025 abriram a discussão, expondo divergências claras.

Esse primeiro debate serviu também para lançar uma das linhas estratégicas do líder do Chega: colar o antigo secretário-geral socialista ao PS e à "herança" da governação passada.

No contra-ataque, Seguro acusou Ventura de estar "na eleição errada" e de não respeitar os eleitores que o tinham escolhido para a Assembleia da República apenas meses antes.

O tom do debate desta terça-feira não deverá afastar-se muito desta linha, antecipando-se um confronto intenso entre os dois candidatos.

Seguro, mais moderado, quer ser o "Presidente de todos os portugueses"

António José Seguro, antigo líder socialista, pôs fim a uma década de interregno político quando lançou a sua candidatura presidencial. Apesar do apoio do PS, diz estar na corrida "sem amarras", representando uma candidatura apartidária e aberta a todos os democratas.

Seguro junta-se a Mário Soares, Jorge Sampaio e Manuel Alegre como os nomes que o PS apoiou formalmente ao longo da sua história em campanhas presidenciais.

Natural de Penamacor, é mestre em Ciência Política, pelo ISCTE-IUL, e licenciado em Relações Internacionais, pela Universidade Autónoma de Lisboa. É casado e tem dois filhos.

Seguro estreou-se como líder da Juventude Socialista (JS), posição que ocupou entre maio de 1990 e março de 1994, altura em que começou a aproximar-se da cúpula do poder socialista depois de, no início de 1992, António Guterres bater Jorge Sampaio na corrida ao lugar de secretário-geral do PS.

Pela mão de António Guterres, conheceu uma ascensão rápida dentro do partido. Desempenhou as funções de chefe de gabinete do secretário-geral, foi eleito diretamente deputado nas legislativas de 1991 e, a partir de 1994, integrou a Comissão Permanente do Secretariado Nacional, núcleo duro do "guterrismo".

Com a vitória do PS nas legislativas de outubro de 1995, Seguro assumiu as funções de secretário de Estado da Juventude, cargo do qual sairia para se candidatar, no segundo lugar da lista dos socialistas, às europeias de 1999, atrás do cabeça de lista Mário Soares.

Em 2001, regressou do Parlamento Europeu para exercer o cargo de ministro-adjunto no executivo chefiado por António Guterres.

Em 2004, esteve em vias de disputar a liderança do partido com José Sócrates, mas, segundo relatos de socialistas, Jorge Coelho, o então homem forte do aparelho, pediu-lhe que esperasse.

Já durante a governação de José Sócrates, Seguro esteve sempre na segunda linha, apesar de ter sido cabeça de lista por Braga nas eleições legislativas de 2005, 2009 e 2011, tendo coordenado a reforma do Parlamento em 2007.

Evitando fazer críticas em público à direção em funções, embora fossem conhecidas as suas divergências, aguardou a saída de cena de Sócrates e, em 2011, após a derrota do PS nas eleições legislativas desse ano, foi eleito secretário-geral do partido com 68% dos votos, derrotando Francisco Assis e sucedendo a Sócrates na liderança dos socialistas.

Depois de ocupar vários cargos públicos, como membro do Governo, deputado ou eurodeputado, Seguro afastou-se da vida política após sair derrotado das eleições primárias contra António Costa.

Nas eleições autárquicas de 2013, o PS conseguiu um dos seus melhores resultados de sempre e venceu, ainda, a coligação PSD/CDS–PP nas eleições europeias de 2014. Esta vitória, no entanto, foi interpretada pelos críticos à liderança de Seguro como uma vitória por "poucochinho", motivando Costa, na altura presidente da Câmara de Lisboa, a avançar para a liderança do PS contra Seguro.

Foram assim convocadas eleições primárias abertas a simpatizantes do partido para o dia 28 de setembro de 2014. Seguro foi derrotado por Costa, obtendo cerca de 32% dos votos, demitindo-se assim da liderança do PS e renunciando aos mandatos de conselheiro de Estado e de deputado à Assembleia da República.

Remetendo-se à condição de "militante de base", depois de deixar a liderança do PS, António José Seguro dedicou-se a dar aulas na universidade e aos seus negócios e manteve-se quase em silêncio sobre as questões políticas ao longo da última década, com raríssimas exceções.

Em novembro do ano passado, numa entrevista à TVI/CNN que antecedeu o seu espaço de comentário semanal naquela estação, assumiu que estava a ponderar uma candidatura a Presidente da República, mas afastou a possibilidade de regressar à vida partidária.

No dia em que o novo parlamento iniciou funções, a 3 de junho do ano passado, Seguro desfez as dúvidas e anunciou que iria ser candidato à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa, sem esperar pelo apoio do PS.

Na corrida a Belém tem-se posicionado como "o candidato da moderação" pela "defesa da democracia e contra os extremismos e radicalismos".

"Afastei-me quando podia dividir. Volto agora para unir. Sei o que está em jogo e sei como defender Portugal com firmeza e respeito. Não preciso de aprender no cargo. Chego preparado", assegurou, no discurso de apresentação da candidatura à Presidência da República.

No discurso da noite eleitoral de 18 de janeiro, disse querer ser "o Presidente de todos os portugueses", deixando um apelo a todos os quadrantes do espectro político: "Convido todos os democratas, todos os progressistas e todos os humanistas a juntarem-se a nós, para, unidos, derrotarmos o extremismo".

Mais de 250 personalidades do espaço "não socialista" já vieram declarar apoio público a Seguro, sublinhando que não se revêm na candidatura de André Ventura na corrida à segunda volta destas presidenciais.

Ventura, mais combativo, quer ser o rosto da "rutura com o sistema"

É uma das figuras mais marcantes da vida política nacional recente. Foi professor de Direito, inspetor da Autoridade Tributária, comentador desportivo e elevou um partido que criou do zero à segunda força política. André Ventura decidiu regressar à corrida presidencial, depois de ter ficado em terceiro lugar na eleição de 2021.

"Deus, Pátria, Família e Trabalho" é uma frase que tem origem no lema que vigorou durante o Estado Novo e o regime de António de Oliveira Salazar e acompanha Ventura, pelo menos desde 2021, e o candidato presidencial decidiu recuperá-la para esta campanha. "Seria com muito orgulho o lema da minha campanha", chegou a afirmar antes da primeira volta, a 12 de junho.

Natural de Algueirão–Mem Martins, Sintra, Ventura cresceu no seio de uma família que nunca lhe impôs qualquer religião e, quando nasceu, não foi batizado. A aproximação à Igreja Católica só viria a acontecer aos 14 anos, quando quis receber os sacramentos, com o objetivo de entrar no seminário. Em 2000, com 17 anos, concluiu o secundário no Externato de Penafirme, no Seminário Menor de Nossa Senhora da Graça, em Torres Vedras.

A paixão por uma jovem acabou, contudo, por fazê-lo mudar de rumo. Entrou em Direito, na Universidade Nova de Lisboa, e apesar de ter abandonado o seminário, Ventura continuou a viver a fé de uma forma muito próxima. Durante a licenciatura, foi viver na Igreja de São Nicolau, em Lisboa, onde encontrou orientação espiritual e apoio para prosseguir os estudos.

Seguiu, depois, para a Universidade de Cork, na Irlanda, onde se doutorou em 2013, com a tese "Towards a New Model of Criminal Justice System in the Era of Globalised Criminality", que criticava a estigmatização das minorias, uma posição que, ironicamente, choca com as suas intervenções políticas dos últimos anos.

Continuou na academia durante mais de uma década como professor universitário. Passou ainda pela Autoridade Tributária, como inspetor, e trabalhou como consultor jurídico. Simultaneamente, foi presença assídua na televisão como comentador desportivo na CMTV. Foi aí que ganhou visibilidade nacional por ser um fervoroso adepto do Benfica.

André Ventura entrou na vida política pelo Partido Social-Democrata (PSD). Foi em Loures, nas autárquicas de 2017, que ganhou dimensão quando foi eleito vereador. A campanha ficou marcada por declarações polémicas sobre a comunidade cigana, que dizia viver de subsídios do Estado e estar sob uma capa de "impunidade".

Depois de ter ouvido queixas em Loures, foi aconselhado a usar o tema como bandeira, sustentando-se num estudo que apontava a insegurança como uma das maiores preocupações da população.

A hostilização aos ciganos continua a ser, até hoje, uma arma de arremesso político de Ventura. Basta lembrar os cartazes do Chega, espalhados pelo país em outubro, nos quais se liam frases como "Isto não é o Bangladesh" e "Os ciganos têm de cumprir a lei".

Apesar das afirmações polémicas proferidas durante a corrida autárquica de Loures, o PSD manteve o apoio a André Ventura, ao contrário do CDS, que se quis demarcar da investida contra os ciganos. Acabaria por romper totalmente com a direção nacional social-democrata em 2018, já em guerra aberta com Rui Rio, então líder do PSD.

Ventura renunciou ao mandato de vereador e deu início ao caminho que viria a mudar a paisagem política portuguesa, fundando o Chega em abril de 2019.

O arranque ficou marcado por uma polémica relacionada com assinaturas falsas, assinaturas ilegíveis e casos em que surgiram nomes de menores ou de pessoas que já tinham falecido.

Apesar de um processo conturbado na legalização do partido, o Chega cresceu depressa. Em outubro de 2019, André Ventura conseguiu eleger-se pelo círculo de Lisboa e ganhou um assento — o mais à direita — na Assembleia da República.

Depois, nas eleições de 2022, pela primeira vez, o partido conquista uma bancada parlamentar, conseguindo eleger 12 deputados. Em 2024, novas eleições e mais um salto para o Chega. O partido ultrapassa a marca de 1 milhão de votos, um resultado que fez André Ventura terminar a noite eleitoral a anunciar "o fim do bipartidarismo".

O Parlamento português ganhou 50 deputados na ala mais à direita, um sinal evidente do descontentamento dos portugueses com os partidos tradicionais. Com a queda do Governo de Luís Montenegro, um ano depois, o Chega conseguiu somar mais 10 lugares no hemiciclo.

Pelo caminho, o líder do Chega acumulou declarações e ações polémicas, como a defesa da pena de prisão perpétua e da castração química de pedófilos. As tiradas contra os ciganos, anti-imigração e comentários sobre o Islão também lhe valeram condenações da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial.

Em 2025, o partido viveu ainda uma sucessão de escândalos, com deputados acusados de roubo de malas, condução sob o efeito de álcool ou abuso de menores, episódios que fragilizam a narrativa punitiva contra o crime que Ventura mantém.

A corrida a Belém não é uma estreia para André Ventura. Em 2021, já se tinha candidatado, ficando em terceiro lugar, com 11,9% dos votos, atrás de Marcelo Rebelo de Sousa e Ana Gomes. Quatro anos depois, regressa, apoiado pelo mesmo partido, o Chega, que agora tem mais peso.

Ainda tentou convencer o antigo primeiro-ministro e ex-líder social-democrata, Pedro Passos Coelho, a avançar, mas acabou por admitir que não podia deixar o Chega sem uma candidatura competitiva.

Nestas presidenciais, numa altura em que conseguiu alcançar o maior capital eleitoral da sua carreira, apresenta-se como o único capaz de romper com o que apelida de "velho sistema político", ambicionando construir a "Quarta República" com alterações à Constituição e prometendo ser um Presidente da República interventivo que não se limita a ser "uma jarra de enfeitar".

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