Oito satélites de cinco Estados-membros diferentes estão atualmente a ser agrupados no âmbito do GOVSATCOM. A Comissão espera que este seja o primeiro passo para uma menor dependência dos EUA, cujos sistemas de comunicação estão muito mais maduros.
Os Estados-membros da União Europeia têm agora acesso a comunicações por satélite "seguras e encriptadas" de fabrico europeu, anunciou na terça-feira o Comissário para a Defesa e o Espaço.
"Na semana passada, iniciámos as operações do GOVSATCOM", disse Andrius Kubilius na Conferência Espacial Europeia, referindo-se ao programa de comunicações governamentais por satélite da União Europeia. "Isto significa que todos os Estados-membros podem agora ter acesso a comunicações soberanas por satélite. Militares e governamentais. Seguras e encriptadas. Construído na Europa, operado na Europa, sob controlo europeu".
O Comissário descreveu este programa como o "primeiro passo na conetividade por satélite". A expansão da cobertura e da largura de banda está prevista para 2027, enquanto a operacionalização da Infraestrutura para a Resiliência, Interconectividade e Segurança por Satélite (IRIS²), uma constelação multi-orbital de 290 satélites, está agora prevista para 2029 em vez de 2030.
Estes esforços fazem parte dos planos para reduzir a dependência da UE de serviços espaciais estrangeiros, como a Starlink, propriedade de Elon Musk. Também vão a par dos esforços da UE para reforçar as capacidades de defesa do bloco e a sua prontidão antes do final da década, altura em que algumas agências de informação estimam que a Rússia poderá atacar outro país europeu.
"Concorrência é concorrência"
O GOVSATCOM, que oferece largura de banda aos Estados-membros para a transmissão de dados, envolve atualmente oito satélites de cinco Estados-membros diferentes, mas está aberto a todos. A Comissão Europeia está agora a analisar um pedido de acesso por parte da Ucrânia, segundo a Euronews.
O lançamento do GOVSATCOM "fornece serviços muito necessários, especificamente para os nossos militares e pessoal de segurança" e mostra que a Europa está a "começar a ser menos dependente" dos serviços espaciais dos EUA, afirmou Kubilius numa entrevista de grupo em que a Euronews participou à margem da conferência.
Questionado sobre o atraso da Europa face ao facto de a Starlink estar totalmente operacional em 2021, Kubilius mostrou-se confiante de que a IRIS² acabará por oferecer um melhor serviço.
"As coisas estão a desenvolver-se muito rapidamente a nível mundial, estão a surgir novas tecnologias. Estamos a planear ter tecnologias boas e avançadas para utilizar, por exemplo, na navegação. Já existia um serviço de GPS, um serviço americano, mas depois criámos o Galileo".
"Construímos o Galileo como uma versão melhorada do sistema de navegação: três vezes mais preciso, cinco mil milhões de consumidores, se não me engano. Por isso, concorrência é concorrência", afirmou.
Um "Comando Espacial Europeu virtual"
O Comissário admitiu que a Europa está atrasada no que se refere ao lançamento de satélites soberanos, especialmente quando se trata de lançadores reutilizáveis.
"Sim, estamos atrasados em relação a Elon Musk, mas compreendemos a importância de dispor de sistemas de transporte bons e eficazes e vamos construí-los", afirmou Kubilius, acrescentando que o próximo orçamento da União Europeia será afetado a esse objetivo.
A Comissão propôs aumentar os fundos afetados ao espaço e à defesa no quadro financeiro plurianual 2028-2034 para 131 mil milhões de euros.
Na terça-feira, o Comissário responsável pelo Espaço também instou os Estados-membros a centrarem-se na interoperabilidade à medida que vão construindo os seus activos espaciais. A Alemanha, por exemplo, anunciou que vai gastar 35 mil milhões de euros em capacidades espaciais militares até 2030, e outros Estados-Membros estão a seguir o exemplo.
Os factores estratégicos, que incluem os recursos espaciais, foram designados entre as nove áreas prioritárias de capacidade de defesa em que os Estados-membros devem investir, como parte do roteiro de preparação da defesa para 2030 da Comissão.
A Comissão Europeia confirmou à Euronews que os Estados-membros que subscreveram o programa de empréstimos SAFE para a defesa pediram dinheiro para comprar equipamento que abrange as nove áreas prioritárias, incluindo os capacitadores estratégicos.
"Se protegermos apenas o nosso próprio país, o nosso próprio exército, não aprenderemos a lutar como Europa. Não conseguiremos dissuadir Putin. Não seremos bem sucedidos na nossa defesa", afirmou Kubilius no seu discurso, no qual lançou a ideia de um "Comando Espacial Europeu virtual".
"Não existe um processo de mobilização dos recursos europeus para a nossa defesa conjunta. Não é claro quem faz o quê", afirmou Kubikius. "Vejo esta parceria como um quadro de cooperação".