Seguro e Ventura chegaram ao único debate da segunda volta com estratégias claras: o socialista acusou o líder do Chega de estar a fazer campanha para umas "primárias à direita", enquanto Ventura procurou reduzir o adversário à herança socialista. As diferenças profundas também marcaram o confronto.
No único debate entre os dois candidatos que vão disputar a segunda volta das eleições presidenciais, António José Seguro e André Ventura tentaram passar duas narrativas: o socialista procurou mostrar que Ventura "está na eleição errada" e não tem perfil para Presidente da República, enquanto o líder do Chega quis colar Seguro à "herança socialista" e mostrar que não está preparado para o cargo.
Com a habitual troca de picardias, mas sem o tom violento que, por norma, os debates com André Ventura adquirem, os candidatos a Belém mostraram-se distantes em quase tudo. António José Seguro abriu o debate puxando do trunfo dos "apoios de todos os quadrantes políticos e de pessoas que nunca se envolveram na política", garantindo que não é "capturável", mas sim "livre e sem amarras".
Em jeito de provocação, o candidato apoiado pelo PS disse que percebia o "embaraço" de Ventura porque quis "que toda a direita se juntasse a si e eles responderam dizendo-lhe: preferimos o António José Seguro" por quererem, na Presidência da República, "alguém que garanta a proteção do nosso chão comum".
E voltou a insistir que o líder do Chega está na "eleição errada", um argumento que já tinha usado no debate a 17 de novembro, mas desta vez foi mais longe e insinuou que Ventura está a tentar transformar as presidenciais numas "primárias à direita".
No contra-ataque, Ventura foi buscar posições antigas de várias figuras políticas, como Cavaco Silva e Paulo Portas, para usar contra Seguro, considerando que essas personalidades que têm manifestado apoio ao socialista não o fazem pelo candidato, mas para o tentar cancelar.
"É sobre cancelarem-me a mim e cancelarem o projeto de mudança e de rutura com o sistema", atirou.
Ventura questionou ainda como é que Seguro irá conseguir unir o país "se nem o Partido Socialista conseguiu unir e agregar" quando foi secretário-geral. "A única vez que liderou alguma coisa foi o PS e deixou-o na maior confusão possível e imaginária", atacou.
Questionado pelos moderadores do debate se a palavra "socialista" queima, Seguro respondeu negativamente e defendeu que os portugueses o conhecem e sabem de onde vem.
O candidato apoiado pelo PS considerou também que os portugueses querem um Presidente da República "que seja íntegro, que seja experiente e que seja dialogante e que não divida os portugueses, que os una".
"Serei um Presidente da República independente. Comigo, as ideologias ficam à porta. Eu não serei nem um primeiro-ministro-sombra, nem serei um líder de fação contra outra parte dos portugueses", garantiu.
Já Ventura prometeu "ser a voz de quem não tem voz", indicando que Portugal não precisa de "rainhas de Inglaterra" que não fazem exigência nenhuma ao Governo. "Nós precisamos de um Presidente que defenda o povo português", reforçou.
Constituição, saúde e imigração: Quase tudo os separa
Em matéria de Constituição, a divisão entre os dois candidatos não podia ser mais clara. Seguro não quer mexer no texto da lei fundamental, considerando os poderes do Presidente da República suficientes e falando apenas na necessidade de ser "mais exigente" perante os governos.
Ventura também rejeitou defender a "revisão constitucional por causa dos poderes presidenciais". A sua intenção de alterar o atual texto passa sobretudo pelas subvenções vitalícias dos políticos, que considera "um escândalo", questionando Seguro sobre se acha bem que Armando Vara e José Sócrates recebam esta pensão.
O adversário aproveitou para dizer que ele mesmo prescindiu dessa subvenção quando deixou a política. António José Seguro afirmou que, quando saiu do parlamento, há 11 anos, poderia ter ainda pedido a subvenção e recebido, até ao momento, 300 mil euros.
"Sabe quanto recebi? Zero. Porquê? Porque enquanto tiver mãos para trabalhar, eu continuarei a fazê-lo", sublinhou.
Ventura insistiu ainda na mudança da Constituição em torno de outros temas, nomeadamente para acabar com nomeações políticas em altos cargos do Estado e para combater o enriquecimento ilícito.
O presidente do Chega recordou que as várias tentativas legislativas para criminalizar o enriquecimento ilícito foram bloqueadas no Parlamento pelo PS e pelo Tribunal Constitucional.
António José Seguro vincou que será sempre contra "que se prenda um português sem se provar que ele é culpado por ter um crime", considerando que as propostas apresentadas no passado recente fazem "uma alteração do ónus da prova".
O candidato apoiado pelo PS defendeu que há uma forma de resolver a questão do enriquecimento ilícito e sugeriu a Ventura que recupere um projeto-lei que Seguro apresentou em 2011 e que o Parlamento chumbou.
"Eu não estava lá", ainda retorquiu o líder do Chega, mas Seguro acusou-o de estar lá [no Parlamento] "há seis anos" e de não o ter retomado. O ataque levou a protestos de Ventura, que criticou a proposta do antigo secretário-geral do PS sobre o enriquecimento ilícito por "não resolver nada", por se centrar na "falsidade documental sobre os crimes" e não em torno do "aumento do património".
Ainda em torno da revisão constitucional, André Ventura defendeu que é preciso "mudar as nomeações para os altos cargos do Estado", para despartidarizar a administração pública, a justiça e a banca.
"Algumas destas nomeações estão na Constituição. Não nos faça de parvos. Diz que quer fazer estas coisas [despartidarizar a administração pública], mas não quer mudar a Constituição", afirmou, apontando o dedo a Seguro por não querer mudar "as nomeações no aparelho do Estado".
Na resposta, Seguro apenas disse que será "muito transparente" nas suas nomeações, "a começar na Casa Civil" da Presidência da República.
Um dos pontos em que se diferenciaram foi o modelo de nomeação do procurador-geral da República, que atualmente é nomeado pelo Presidente da República, sob proposta do primeiro-ministro, com Seguro a procurar que o líder do Chega fosse mais concreto sobre o que faria: "Qual a solução alternativa [na nomeação do Procurador-Geral da República]?"
Ventura, sem esclarecer, inicialmente, qual seria a alternativa, acabou depois a sugerir, face à insistência do adversário, que o Procurador-Geral da República poderia ser nomeado "dentro da corporação do Ministério Público".
"Com uma nomeação corporativa do Procurador-Geral da República, a quem é que ele responde?", questionou Seguro, evidenciando o problema de alguém escolhido pela "corporação" ser escrutinado pela própria "corporação". "Está a ver a sua impreparação, André Ventura?", criticou.
Perante o ataque, André Ventura disse que Seguro quer que "tudo fique igual".
Já na Saúde, o líder do Chega considerou que Seguro não tem legitimidade para falar após o PS, partido que o apoia, ter deixado o setor "como deixou".
"Não se lhe ouviu uma crítica do estado desastroso em que o PS deixou a saúde. Não se lhe ouviu uma crítica e teve muitos anos para isso", insistiu.
Ventura desafiou também Seguro a acabar com a direção executiva do Serviço Nacional de Saúde (SNS), que apelidou de "organismo absolutamente inútil", sugerindo que podia "acabar" para se "gastar dinheiro onde faz falta que se gaste efetivamente".
Por seu lado, Seguro lembrou que o Presidente da República deve "criar as condições para que os partidos políticos se juntem em volta de uma mesa", disponibilizando "o Palácio de Belém para que isso se faça e cada um possa contribuir com soluções concretas para este compromisso na saúde", referindo-se ao pacto interpartidário que tem defendido ao longo da campanha eleitoral.
Questionado sobre se o pacto que propõe visa mudar a arquitetura do sistema, Seguro respondeu que "visa o objetivo essencial" de dar "saúde a tempo e horas para todos os portugueses", não pondo em causa "o serviço universal e tendencialmente gratuito", que considerou estar a ser "posto em causa em termos práticos".
Sobre imigração, um dos temas que costuma ser trazido ao debate por André Ventura, foi Seguro quem teve a primeira palavra. A proposta do governo espanhol para um processo extraordinário de regularização de estrangeiros que vivem e trabalham no país, que deverá abranger meio milhão de pessoas, marcou uma divergência entre os dois candidatos.
Seguro defendeu que é preciso "controlar e regular a entrada de imigrantes" e que tem de haver organização "também ao nível do acolhimento e da integração".
"Se há uma necessidade e uma emergência no sentido de que a nossa economia precisa de contributo de mais mão-de-obra e essa mão-de-obra não existe no país, qual é a solução? O país para? Agora, a questão do controlo e a questão da imigração é crucial", defendeu Seguro, apontando que "os imigrantes em Portugal dão um contributo indispensável, por exemplo, para a Segurança Social".
Já Ventura defendeu que vetaria esta regularização, que irá ser feita em Espanha caso fosse proposta em Portugal, porque não pode haver "a entrada de gente de qualquer maneira" e referiu que a reação do socialista "mostra bem como não está preparado para o cargo".
"Nem sabia o que tinha que fazer se isso acontecesse. Se tem que promulgar ou não tem que promulgar, se tem que vetar, se tem que reanalisar, se tem que mandar para o parlamento novamente", criticou o líder do Chega.
Os dois candidatos estiveram mais alinhados apenas na questão da reforma laboral, pelo menos em relação à proposta que o Governo colocou em cima da mesa.
Seguro reiterou que, se chegar a Belém, vetará politicamente "o decreto inicial do Governo", mas admitiu que estará mais perto de promulgar as alterações se houver acordo na concertação social, vincando que se pronuncia sobre factos e olhará "para o decreto final".
Ventura também procurará "que o Governo mude" o anteprojeto apresentado, mas "se chegar assim, não passará". O candidato considerou que "a concertação social podia ter ido muito mais longe" e que a lei laboral "não pode significar bar aberto de despedimentos e precariedade".
No caso de Seguro, o candidato defendeu uma reforma baseada no "futuro da economia", mais preparada para o mundo digital, com melhores salários e menos disparidade entre homens e mulheres.