No rescaldo da crise da Gronelândia e depois das críticas de Mark Rutte, a chefe da diplomacia da UE instou os países europeus a deixarem de externalizar a sua segurança e defesa.
A política de Donald Trump está a fazer uma mossa importante nas relações entre a Europa e os Estados Unidos, segundo a Alta Representante da UE para a política externa, Kaja Kallas, que diz que as mudanças são «estruturais, e não apenas temporárias». Kallas alerta para os perigos da externalização da segurança numa nova era de «política baseada no poder coercivo».
As tensões foram atenuadas por um acordo-quadro sobre a segurança do Ártico, cujos pormenores continuam a ser discutidos.
"É possível que a maior mudança na reorientação fundamental esteja a acontecer do outro lado do Atlântico: um repensar que abalou as relações transatlânticas até aos seus alicerces", afirmou Kallas na quarta-feira de manhã, na conferência anual da Agência Europeia de Defesa.
"Sejamos claros: queremos laços transatlânticos fortes. Os EUA continuarão a ser o parceiro e o aliado da Europa. Mas a Europa precisa de se adaptar às novas realidades. A Europa já não é o principal centro de gravidade de Washington". "Esta mudança já está em curso há algum tempo", acrescentou, referindo-se às anteriores administrações norte-americanas. "É estrutural, não é temporária. Significa que a Europa tem de dar um passo em frente. Nenhuma grande potência na história alguma vez subcontratou a sua sobrevivência e sobreviveu."
No seu discurso, Kallas apresentou um panorama sombrio da situação atual. Classificou a Rússia como uma "grande ameaça à segurança", a China como um "desafio a longo prazo" e o Médio Oriente como uma região "completamente imprevisível". Estes desenvolvimentos, juntamente com a política externa sem limites de Trump, colocaram uma "forte pressão sobre as normas internacionais, as regras e as instituições que as aplicam, que construímos ao longo de 80 anos", disse Kallas.
"O risco de um regresso total à política de poder coercivo, às esferas de influência e a um mundo em que o poder faz a razão é muito real", observou.
A Alta Representante exortou as nações europeias a "reconhecerem que esta mudança tectónica veio para ficar e a agirem com urgência".
Desde a reeleição de Trump, a União Europeia lançou várias iniciativas multimilionárias para aumentar os gastos com defesa, promover as indústrias nacionais e reduzir a dependência de armas fabricadas nos EUA. O bloco estabeleceu 2030 como prazo coletivo para alcançar a chamada "plena prontidão de defesa", destinada a deter um possível ataque russo a um Estado-membro da UE.
Os esforços foram rejeitados esta semana pelo secretário-geral da NATO,Mark Rutte, que disse aos europeus para "continuarem a sonhar" com a possibilidade de se tornarem independentes em matéria de segurança e defesa. Os comentários suscitaram reacções em Bruxelas e Paris.
Kallas não se referiu à intervenção polémica de Rutte no seu discurso. Em vez disso, apelou a uma maior coordenação e complementaridade entre a UE e a NATO, que têm 23 membros em comum, para garantir uma partilha mais justa dos encargos entre os aliados.
"Enquanto os Estados Unidos se voltam para o exterior e para além da Europa, a NATO precisa de se tornar mais europeia para manter a sua força", afirmou. "Para isso, a Europa tem de agir".