Portugal prepara-se para investir milhares de milhões de euros em Defesa na próxima década, pressionado por uma NATO em rearmamento e por um contexto internacional cada vez mais instável. Mas, com um contingente militar reduzido, há dúvidas quanto à capacidade operacional do país.
O mundo mudou. Com uma Rússia cada vez mais ousada, a desenvolver ações ofensivas híbridas no interior do território europeu e um aliado americano cada vez mais instável - a ver pelas recentes ameaças à Gronelândia -, os países europeus da NATO vão precisar de aumentar o investimento e a despesa em defesa.
A cimeira da NATO em Haia, em junho do ano passado, obrigou Portugal a ir mais além. Gastar 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em gastos militares tradicionais (equipamento e treino) nos próximos dez anos foi o compromisso assumido pelo primeiro-ministro Luís Montenegro.
A isto acresce mais 1,5% de forma indireta, em investimentos e infraestruturas que também podem ter utilização militar. Um esforço financeiro de grande envergadura que se enquadra na estipulação da organização transatlântica dos países membros investirem pelo menos 5% do seu PIB em Defesa.
450 milhões de euros é quanto se estima que a despesa em Defesa tenha que crescer em média, durante os próximos dez anos, para atingir essa meta.
Mas se a despesa continua a aumentar, são cada vez menos os efetivos nas Forças Armadas. Em meio século de democracia, o número de militares diminuiu em cerca de 90%. Em 1974, quando a Guerra Colonial exigia um grande contingente, eram 243 mil.
Este número tem vindo a reduzir drasticamente. Primeiro porque, com o colapso do bloco soviético, deixou de fazer sentido a constituição de grandes exércitos prontos para uma guerra à escala global, tendo Portugal acompanhado a tendência de outros países da NATO na redução de efetivos.
Depois com o fim do serviço militar obrigatório, em 2004, quando se contavam mais de 41 mil efetivos, as Forças Armadas ficaram diminuídas a 35 mil militares em pouco mais de cinco anos.
Com a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, a guerra voltou à Europa. E com o discurso de afastamento da Europa por Donald Trump, voltam a soar os alarmes de que há uma necessidade de recrutamento e de retenção.
Segundo os dados mais recentes da Direção-geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP), as Forças Armadas contavam com apenas 23.589 efetivos a 30 de setembro de 2025.
Este número está substancialmente abaixo do mínimo definido pelo decreto-lei que estabelece que os três ramos das Forças Armadas devem ter um contingente de 32 mil militares para garantir a "capacidade operacional exigida". Faltam mais de 8 mil militares para atingir esse objetivo.
“Para o objetivo de 32 mil militares, faltam cerca de sete, oito mil. A estimativa de recursos humanos é chegar muito próximo dos 35, 36 mil, dadas as capacidades que estão a ser levantadas porque são muito significativas, muito tecnológicas e, sobretudo carecem de pessoas. Não podemos adquirir equipamentos e depois não te pessoas para os operar”, disse, em entrevista ao jornal Público em dezembro, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), general do Exército José Nunes da Fonseca.
Atualmente, o Exército continua a ser o ramo com mais efetivos (12.593), seguido da Marinha e da Força Aérea. Até ao final de 2025, projetava-se que a instituição somasse entre 500 e 700 novos militares, sendo que objetivo final para o último ano era conseguir atingir entre 13.300 e 13.500 militares no ativo.
A Euronews questionou o gabinete do Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas sobre se este objetivo foi cumprido e sobre o número total de efetivos nos três ramos no final de 2025, mas não obteve qualquer resposta apesar de muita insistência.
Em 2024, já se tinha registado uma inflexão da curva no número de efetivos, que permitiu estancar a saída de militares.
O número total de militares em Portugal em 2024 era de 23.678, incluindo militares dos quadros permanentes no ativo e na reserva. Os três ramos receberam 9.843 candidaturas em 2024, mais 33,8% do que as 7.353 candidaturas recebidas no ano anterior. Mas as muitas saídas fizeram com que o número total de militares aumentasse apenas em 68 operacionais face a 2023.
Ninguém ignora a importância das remunerações para a retenção de efetivos. Aliás, na altura, o ministro da Defesa, Nuno Melo, atribuiu o crescimento de candidaturas em 2024 e a inversão na tendência de efetivos ao momento de grande valorização para a profissão militar, com o aumento de salários e de diversos suplementos financeiros aprovados em 2024. O salário médio líquido dos profissionais das Forças Armadas subiu 19% no ano passado, o que corresponde a 286 euros por mês, alcançando os 1.802 euros.
Quanto ganham afinal os militares?
De acordo com as tabelas remuneratórias para 2025, divulgadas pela Associação de Praças, um recruta das Forças Armadas começa por receber 878,41 euros mensais durante a sua formação.
Quando terminam a formação, os recrutas passam ao posto de soldado, no Exército e na Força Aérea, e ao de segundo-grumete na Marinha, auferindo um salário base de 926,42 euros, a que se soma o suplemento de condição de militar, no valor de 542,28 euros, num total de 1468,7 euros brutos.
Quando os militares passam para o regime de contrato, nos postos de cabo adjunto e de primeiro-marinheiro, os salários sobem para 1709,12 euros mensais, incluindo o suplemento. Os valores são brutos, antes de impostos.
Na categoria de sargento, onde há 19 escalões, a remuneração mais baixa já com o suplemento de condição de militar é de 1.645,97 euros, a maior ascende aos 3.113,78 euros.
Esses valores voltam a subir quando os militares passam a oficiais. O primeiro posto desta categoria é o de alferes, para o Exército e para a Força Aérea, e o de guarda-marinha ou subtenente, na Marinha. Aqui o salário dos militares sobe para 1.547,83 euros de vencimento base e um suplemento de 666,57 euros de suplemento, num total de 2.214,40 euros brutos.
Quando os militares chegam à categoria de oficiais superiores, nos postos de major, no Exército e na Força Aérea, e de capitão-tenente, na Marinha, os rendimentos dos militares sobem para 2.459,95 euros de salário base e um suplemento de 848,99 euros. Ao todo, estes oficiais vão receber 3.308,94 euros brutos.
Os cargos mais elevados da estrutura das Forças Armadas são os dos oficiais generais e os salários também acompanham essa progressão. O posto mais baixo desta categoria é o de comodoro, na Marinha, e o de brigadeiro-general, no Exército e na Força Aérea. Estes militares têm um salário base de 3.746,80 euros, acompanhado por um suplemento de 1.106,36 euros, num total mensal de 4.853,16 euros.
No topo dos rendimentos estão os generais e os almirantes com um rendimento base de 5.497,83 euros e um suplemento de condição de militar de 1.456,57 euros. Estes líderes militares em topo de carreira auferem 6.954,40 euros por mês brutos.
Existem ainda subsídios pagos consoante cada situação. Quem for destacado para uma zona de combate recebe uma compensação extraordinária. Além disso, os militares portugueses em missões de salvaguarda de paz no estrangeiro beneficiam de isenção de IRS sobre as remunerações auferidas nessas funções.
Quantos estão destacados para missões internacionais?
No início do ano passado, as Forças Armadas portuguesas tinham mais de 1133 militares destacados um pouco por todo o mundo, empenhados em missões no âmbito da NATO, da União Europeia, das Nações Unidas e de acordos com outros países e instituições parceiras, com o objetivo de contribuir para a segurança e defesa, não só do território nacional, como também dos aliados e parceiros.
De acordo com a informação divulgada pelo Ministério da Defesa, os efetivos portugueses encontravam-se empenhados, entre outros locais, na Roménia e na Lituânia, integrados nas iniciativas da NATO no flanco leste, bem como em missões navais no Mar do Norte e no Mar Báltico. No quadro da União Europeia, Portugal participava ainda em operações na Itália, no Mali, na República Centro-Africana e na região da Somália/Oceano Índico, através de missões de treino, formação e segurança marítima.
Portugal mantém ainda cerca de 120 militares no centro de treino militar de Lešť, a cerca de duas horas e meia da capital da Eslováquia.
A presença de forças militares portuguesas na Eslováquia iniciou-se em julho de 2024, através de um pelotão de carros de combate, com 24 militares, integrando um batalhão espanhol do Battlegroup Multinacional Eslováquia (MNBG SVK).
Desde fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, que os países da NATO, nomeadamente Portugal, têm reforçado a sua presença militar na zona leste da Europa.
Ao abrigo desta missão, em julho de 2025 o contingente português na Eslováquia aumentou para 120 militares, equipados com carros de combate, viaturas PANDUR II 8x8 e veículos militares espanhóis URO VAMTAC.
Esta missão da Aliança Atlântica na Eslováquia - país fronteiriço com a Ucrânia - tem como objetivo reforçar a presença de forças militares na fronteira leste da NATO, à semelhança das missões na Roménia, onde Portugal tem um contingente de cerca de 300 militares.
Serviço militar obrigatório ou voluntário?
Em Portugal, o atual contexto internacional e a crescente preocupação com a guerra na Ucrânia têm trazido o debate sobre a defesa nacional para o centro das atenções, levando muitos a considerar a reintrodução do serviço militar obrigatório.
Atualmente, o recrutamento é baseado num modelo voluntário e profissionalizado. Os jovens entre os 18 e os 24 anos podem ingressar nas Forças Armadas através do regime de voluntariado por períodos curtos, geralmente de um ano, ou regime de contrato por seis anos, com possibilidade de transição para os quadros permanentes.
A maioria dos portugueses continua a opor-se à reintrodução do serviço militar obrigatório. O ministro da Defesa, Nuno Melo, já afastou a possibilidade de um serviço cívico obrigatório, mas admite a adoção de outros modelos militares, caso o contexto internacional sofra alterações significativas.
“Eu acredito nas virtudes de um sistema profissional em que quem é militar é militar porque quer. E para isso tem de estar bem equipado e com todas as condições. E é nesse sentido que nós trabalhamos todos os dias. Não pode nenhum de nós dizer que se houver uma alteração grave no contexto geopolítico mundial, tal qual outros países da União Europeia vão fazendo agora, outros modelos não possam ser estudados”, referiu em entrevista à Renascença, em março do ano passado.
Em 2017, as movimentações da Rússia no Báltico levaram o governo sueco a reintroduzir o serviço militar obrigatório. O atual modelo chama todos os jovens que fazem 18 anos a apresentarem-se para serviço. Depois, os jovens passam por uma série de testes físicos, psicológicos e cognitivos para averiguar a aptidão e a vontade de cumprir serviço militar. Finalmente, o país seleciona o número de militares desejados para suprir as necessidades das Forças Armadas.
Os governos europeus têm olhado para o modelo sueco de recrutamento de jovens como um exemplo para reforçar o contingente militar. A Alemanha, que abandonou o serviço militar obrigatório em 2011, deu um passo nesse sentido no final do ano passado, com o Bundestag a aprovar um plano para persuadir mais pessoas a alistarem-se.
Desde 1 de janeiro deste ano, o país passou a exigir que todos os homens se registem para eventual serviço militar, deixando a porta aberta a que o serviço militar obrigatório seja reintroduzido se o número de voluntários ficar aquém das metas estabelecidas para cumprir os compromissos da NATO.
Todos os jovens que completem 18 anos têm agora que responder a questionários sobre a sua disposição e capacidade para servir, sendo que os homens serão obrigados a responder, mas as mulheres não. Os jovens do sexo masculino também serão obrigados a submeterem-se a exames médicos.
França também apresentou um programa para formar militarmente milhares de voluntários de 18 e 19 anos a partir do próximo ano, enquanto a Bélgica e a Polónia planeiam atrair mais pessoas para o serviço militar.
Atualmente, apenas dez países da União Europeia têm serviço militar obrigatório: Áustria, Chipre, Croácia, Dinamarca, Estónia, Finlândia, Grécia, Letónia, Lituânia e Suécia.