Ursula von der Leyen, António Costa e uma série de líderes de toda a UE estiveram em Kiev na terça-feira para mostrar o seu apoio à Ucrânia, numa altura em que o país assinala quatro anos da invasão total da Rússia.
O empréstimo de 90 mil milhões de euros da União Europeia à Ucrânia vai acontecer "de uma forma ou de outra", afirmou Ursula von der Leyen, numa visita a Kiev que foi largamente ensombrada pela decisão de última hora da Hungria de vetar o programa financeiro.
"Esta palavra não pode ser quebrada", disse a presidente da Comissão Europeia na terça-feira, referindo-se ao acordo alcançado pelos 27 líderes da UE em dezembro.
"Vamos cumprir o empréstimo de uma forma ou de outra", afirmou. "Deixem-me ser muito clara, temos diferentes opções e vamos utilizá-las".
Von der Leyen falou ao lado do Presidente do Conselho Europeu, António Costa, e do Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy.
António Costa voltou a repreender o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán por violar o princípio da cooperação sincera com o seu veto de última hora ao empréstimo de 90 mil milhões de euros para a Ucrânia, que os líderes da UE tinham acordado em dezembro após negociações exaustivas.
"Quando o Conselho Europeu concorda e toma uma decisão, todos os Estados-membros precisam de cooperar para implementar esta decisão. E ninguém é capaz de parar, ou bloquear, ou tentar bloquear uma decisão do Conselho Europeu. Só o Conselho Europeu pode alterar uma decisão do Conselho Europeu", avisou Costa.
"Exorto a Hungria a cooperar imediatamente na implementação da decisão tomada pelo Conselho Europeu em 18 de dezembro."
Enquanto isso, acrescentou Costa, a Comissão Europeia deveria fazer uso de todas as ferramentas disponíveis nos tratados da UE para "superar" o veto e "evitar que todos possam tentar chantagear a União Europeia", não sendo claro ao que se referia.
O empréstimo destina-se a cobrir as necessidades militares e financeiras da Ucrânia para 2026 e 2027, uma tarefa urgente após a retirada completa da ajuda americana sob o governo de Donald Trump. Ao mesmo tempo, os Estados-Membros estavam perto de aprovar o 20º pacote de sanções contra a Rússia, com uma proibição total dos serviços marítimos para petroleiros e a primeira ativação da Ferramenta Anti-Circunvenção.
Mas, numa reviravolta dramática, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, decidiu impor não um, mas dois vetos, bloqueando o empréstimo de 90 mil milhões de euros e o pacote de sanções na véspera do aniversário.
Orbán acusou a Ucrânia de "chantagem" e interferência eleitoral devido à interrupção do petróleo russo através do oleoduto Druzhba da era soviética. Embora os danos ao oleoduto tenham sido amplamente atribuídos a Moscovo, Budapeste colocou a culpa diretamente em Kiev, levando o seu confronto de longa data para um novo nível.
Durante a conferência de imprensa, o Presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy foi questionado sobre se o seu governo estaria disposto a reparar o oleoduto de Druzhba que está no centro da disputa com a Hungria. O oleoduto foi bombardeado no final de janeiro num ataque de drone atribuído à Rússia.
O primeiro-ministro húngaro prometeu manter o veto até que as entregas de petróleo sejam retomadas.
"Não é a primeira vez que o primeiro-ministro da Hungria bloqueia algo," disse Zelenskyy, salientando que o empréstimo de 90 mil milhões de euros e o gasoduto eram "duas coisas diferentes".
"Então, se Orbán quer bloquear o apoio financeiro, pode fazê-lo para a Rússia, não para a Ucrânia. Nós não somos a razão da destruição deste oleoduto."
Zelenskyy disse que as forças russas destruíram o oleoduto "várias vezes" no passado e sugeriu que era "da responsabilidade de Orbán" falar com o presidente russo Vladimir Putin para estabelecer um "cessar-fogo energético".
Macron exorta parceiros da Coligação de Vontades a "levantarem reservas" sobre futuras garantias de segurança à Ucrânia
O Presidente francês Emmanuel Macron instou os parceiros da Coligação de Vontades para "levantarem as reservas" que ainda têm ao apoio a futuras garantias de segurança à Ucrânia.
Sobre as garantias de segurança, disse que o trabalho está a ser finalizado, mas que é "muito importante" acompanhar o trabalho realizado durante a reunião de 6 de janeiro.
"É muito importante que finalizemos tudo o que acordámos em termos concretos, de modo a obter credibilidade para uma paz longa, robusta e sustentável", acrescentou.
"Os parceiros da Coligação de Vontades têm que aumentar a pressão sobre a Rússia, aumentar o apoio à Ucrânia e mudar a narrativa que Moscovo está a tentar projetar", afirmou também o primeiro-ministro britânico Keir Starmer na abertura da chamada de 90 minutos com outros 35 representantes da aliança que apoiam a Ucrânia.
"Seja o que for que Putin diga a si próprio e ao seu povo, a Rússia não está a ganhar e temos de mudar a narrativa", reforçou Starmer aos seus homólogos.
A Rússia, acrescentou o líder britânico, sofreu um elevado número de vítimas e fez poucos ganhos territoriais em quatro anos de combates, enquanto viu as suas receitas petrolíferas diminuírem e o seu défice aumentar.
Do lado da pressão a Moscovo, pediu "maior foco na frota sombra" de petroleiros envelhecidos que a Rússia usa para contornar as sanções e exportar o seu petróleo, enquanto do lado da Ucrânia, pediu mais doações, especialmente de sistemas de defesa aérea e energia.
Na reunião da Coligação de Vontades, Volodymyr Zelenskyy falou depois de Keir Starmer e pediu ajuda "para renovar os sistemas energéticos". "Tivemos um inverno terrível", afirmou.
A Rússia tem vindo a atacar as infraestruturas energéticas civis nos últimos meses, deixando grandes áreas da Ucrânia sem electricidade ou aquecimento numa altura em que a temperatura ronda abaixo de zero.
Zelenskyy também pediu mais equipamentos de defesa aérea, especialmente mísseis PAC-3 e PAC-2 usados com sistemas Patriot fabricados nos EUA.
Washington suspendeu todas as doações para a Ucrânia no ano passado e os parceiros europeus estão agora a comprar equipamento fabricado nos EUA de que Kiev necessita através do programa PURL da NATO.
"Apenas a Ucrânia e a Rússia, juntas em negociações de boa-fé, podem chegar a um acordo de paz", dizem líderes do G7
Os líderes do G7 também emitiram uma declaração para reafirmar o seu "apoio inabalável" à Ucrânia no quarto aniversário da invasão em grande escala da Rússia.
Os signatários incluem o canadiano Mark Carney, o alemão Friedrich Merz, a italiana Giorgia Meloni, o japonês Sanae Takaichi, o norte-americano Donald Trump, além de Keir Starmer e Emmanuel Macron.
O grupo de líderes expressou o seu "apoio contínuo" aos esforços de paz liderados por Trump e notaram a sua disposição de fornecer garantias de segurança sob o formato da Coligação de Vontades, acrescentando: "Reconhecemos que apenas a Ucrânia e a Rússia, trabalhando juntas em negociações de boa-fé, podem chegar a um acordo de paz."
Além disso, frisaram que estão comprometidos em trabalhar juntos para garantir a segurança nuclear na Ucrânia, principalmente por meio de arrecadação de fundos para a "reabilitação, o mais cedo possível, do arco de contenção de Chernobyl e para prevenir qualquer incidente radiológico que teria sérias consequências humanitárias e ambientais para todo o continente."
Finalmente, disseram que apoiam iniciativas destinadas a garantir "o retorno imediato, seguro e incondicional" das crianças ucranianas.
Apesar de ter assinado a declaração do G7, da parte de Washington ainda não se ouviu ou leu uma palavra sobre a Ucrânia no dia de hoje para reconhecer a marca dos quatro anos desde a invasão russa. Nem do presidente norte-americano Donald Trump, ou o secretário de Estado Marco Rubio ou até mesmo do secretário da Defesa Pete Hegseth.