Há quatro anos, os ucranianos acordaram para um verdadeiro pesadelo do qual ainda não conseguiram sair. A 24 de fevereiro de 2022, a Rússia invadia a Ucrânia em grande escala. Foram milhares os ucranianos que fugiram do seu país e escolheram Portugal para viver e muitos permanecem.
Portugal acolheu cerca de 60 mil refugiados ucranianos desde o início do conflito, em fevereiro de 2022, e está entre os vinte países com o maior número de refugiados vindos da Ucrânia.
Quatro anos depois, os números oficiais não são fáceis de obter. Estima-se que tenham saído cerca de dez mil, mas a grande maioria mantém-se e constitui já uma das maiores comunidades de refugiados no país.
O sentimento de segurança que se vive em Portugal é uma das grandes razões para que muitos refugiados escolham fazer vida cá, mas muitos mantêm ainda o sonho de voltar.
“Acredito que cerca de 90% dos refugiados que estão aqui querem regressar para reconstruir a Ucrânia”, admite, à Euronews, Ângelo Neto, vice-presidente da HelpUA.PT.
“Querem ajudar a Ucrânia a fazer parte da União Europeia e a construir um país que seja, no futuro, uma grande potência junto com os demais Estados-membros”, conclui Ângelo.
“Se a Ucrânia cair, o que vai ser da Europa?"
Um cessar-fogo que parece cada vez mais uma miragem.
O último dia das conversações de paz entre a Ucrânia e a Rússia, mediadas pelos Estados Unidos, terminou precisamente uma semana antes da data que assinala os quatro anos de guerra. Os territórios ucranianos ocupados continuam a ser o principal obstáculo nas negociações, com Moscovo a exigir que as forças ucranianas se retirem do Donbass e Kiev a rejeitar repetidamente esse pedido.
“Eu ouvi uma frase de uma mãe que dizia: ‘nós estamos a morrer pela nossa terra, estamos a morrer pela Ucrânia, a derramar sangue por este território. Não é justo agora cedê-lo ao inimigo, que até há quatro anos era um vizinho nosso. Não aceitamos`, ou seja, a população ucraniana quer defender a terra, quer defender a liberdade, quer defender a sua democracia e a memória dos que morreram”, afirma Ângelo.
Contudo, a falta de esperança num cessar-fogo imediato e os constantes avanços e recuos nas negociações também levam muitos ucranianos a não deixar o país que os acolheu. “Há algumas pessoas que já começam a pensar, ou até a dar passos reais, para continuar a viver em Portugal”, diz o presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal, Pavlo Sadokha, à Euronews.
Pavlo Sadokha, ucraniano em Portugal há quase 30 anos, considera que a guerra “está longe de terminar”.
“Acho que este problema está longe de se resolver, porque a sua origem é a própria estratégia de Putin e dos políticos à sua volta, que concebem o país como um império, um regime que quer crescer através da ocupação de outras terras”, concluindo que “as perspetivas de terminar a guerra são tão fracas que as pessoas já começam mesmo a pensar que têm de continuar aqui.”
O vice-presidente da HelpUA.PT relembra a dimensão que teria uma eventual cedência de territórios por parte da Ucrânia. “Se a Ucrânia cair, o que vai ser da Europa? Porque Putin não vai parar. Quem está a defender os jardins europeus hoje é a Ucrânia”, diz.
"Portugal deu-nos não só segurança, mas também calor humano"
Após o início da guerra, Portugal criou um modelo simplificado em que, através de um formulário online, os cidadãos ucranianos puderam solicitar um “Título de Proteção Temporária” que incluía um título de residência temporária, a atribuição do Número de Identificação Fiscal (NIF), do Número de Identificação da Segurança Social e do Número de Utente do Serviço Nacional de Saúde.
Um processo que facilitou a vida dos refugiados recém-chegados que chegavam a Portugal devastados pelo que se passava no país e ainda a ter de lidar com uma série de desafios.
Mariya Velihotska chegou a Portugal em março de 2022 e ainda hoje não conseguiu aprender o português. Já Myron, o seu filho de nove anos, domina a língua "como se sempre tivesse sido a sua língua", diz orgulhosa.
Mãe e filho partiram da cidade natal, Kharkiv, cerca de uma semana após o início da guerra. Soube rapidamente que ali já não era o seu lugar. Fizeram uma viagem de quase cinco mil quilómetros de carro sozinhos. O pai de Myron, como milhares de homens ucranianos, não pôde vir com a família.
Do país só conhecia as fotografias das praias para o surf e o sol. "Portugal deu-nos não só segurança, mas também calor humano. E isso mudou tudo", conta, quatro anos depois de uma chegada difícil.
Em março de 2022 Maryia deparou-se com uma depressão: não conhecia ninguém, não sabia a língua, e estava sem trabalho, para além de ver o seu passado bombardeado e o futuro hipotecado.
Na Ucrânia, era chef de pastelaria com o seu próprio negócio que corria bastante bem. Paixão que trouxe para Portugal e a fez renascer com a ajuda de Myron. "Ele é que me puxou para cima e disse para partilharmos a nossa experiência e o nosso amor com as pessoas. Começámos assim a fazer as nossas bolachas – NUTS – que são ucranianas e a vender no Instagram”, conta Maryia.
"Às vezes penso que as crianças curam-se mais rápido do que os adultos", reflete.
Há quatro anos, quando caíram as primeiras bombas no país, Maryia achava que duraria apenas um mês. "Quatro anos depois, encaro a guerra de forma diferente. Não mais como um choque, e sim como um peso silencioso no meu coração. Ela mudou-me. Tornou-me mais atenta ao tempo, às pequenas alegrias, às coisas simples, como uma manhã tranquila ou uma refeição partilhada", começa por dizer, em conversa com a Euronews.
Hoje Maryia é mais feliz e continua a cozinhar. "As sobremesas não são apenas um negócio para mim; são conforto, memória, conexão", diz.
Ainda gere o negócio na cidade de Kharkiv, apesar das dificuldades devido aos cortes diários de eletricidade, à falta de aquecimento e, por vezes, à falta de água. "Depois da guerra, ficou muito difícil, mas não fechámos. Continuamos a trabalhar, não tanto pela parte rentável, que não é, mas porque ajuda as pessoas a preservar os seus trabalhos e a manter alguma estabilidade", partilha. Lá, a vida segue dentro de um novo normal.
Por cá, Myron já está completamente integrado e sente-se em casa. "Ele joga râguebi e sonha em tornar-se um dos melhores jogadores de râguebi de Portugal. Vê-lo a correr no campo, confiante e destemido, dá-me paz", explica.
Paz essa que não encontra na Ucrânia e, mesmo que um dia haja, a Ucrânia já só será morada no coração de Maryia , porque não pensa regressar. "Para mim, o lar agora é onde o meu filho se sente seguro, onde pode rir livremente, onde pode imaginar o seu futuro sem medo", confessa.
Contudo, para muitos destes ucranianos que chegaram como refugiados e a quem lhes foi atribuído o "Título de Proteção Temporária", o futuro continua incerto. "Neste momento, temos estatuto de proteção temporária e, tal como muitas famílias ucranianas, não sabemos como será a situação a longo prazo", diz Mayria.
Em junho do ano passado, os Estados-Membros da UE concordaram em prorrogar a proteção temporária dos refugiados ucranianos até 4 de março de 2027.
A diretiva contorna o tradicionalmente complicado processo de asilo para acelerar o acesso às autorizações de residência, ao mercado de trabalho, à segurança social, aos cuidados médicos e ao sistema educativo.
Estima-se que existam cerca de 4,3 milhões de ucranianos distribuídos pelos diferentes países da UE.
"Espero que sejam encontradas soluções para famílias como a nossa. Famílias que trabalham, que se integram e contribuem para a sociedade. Não queremos viver com medo, queremos continuar a construir e a retribuir", deixa o apelo.
Maryia chegou a Portugal sem sonhos, mas agora já consegue sonhar. "Agora sonhamos em abrir o nosso próprio pequeno café — com sobremesas e gelados — um lugar onde as pessoas se possam encontrar e sentir calor humano", tal como o que encontrou cá.
"É claro que é natural sentir algum medo do que virá a seguir. Construímos uma vida aqui. Adoramos Portugal. O meu filho sente-se em casa. Seria muito difícil imaginar começar do zero novamente", afirma.
A integração dos refugiados ucranianos na vida portuguesa é um dos pontos positivos. “É a comunidade que mais se adaptou em termos de emprego, desde trabalhos em fábricas e limpezas até IT; conseguiu integrar-se profissionalmente”, diz Ângelo Neto. Contudo, a grande morosidade nos processos de adaptação de diplomas de profissionais nas áreas da saúde ou da advocacia faz com que muitos desistam de esperar e optem por outras profissões.
Para Pavlo Sadokha, este é um sinal da identidade dos ucranianos: “de conseguirem encontrar soluções” e de “não estarem dependentes de apoios sociais.”
Projeto “Choven – Famílias da Guerra” devolve esperança a mulheres e crianças
Portugal recebeu há quase um mês um grupo de mulheres e crianças, viúvas e órfãos de guerra, pela mão da Associação Ukrainian Refugees – UAPT.
O projeto, em colaboração com o departamento central de cooperação civil-militar do Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia, teve como objetivo proporcionar apoio psicológico, reabilitação emocional e reintegração social a mulheres e crianças ucranianas que perderam familiares diretos na guerra.
“Hoje estima-se que existam quase um milhão de viúvas e crianças órfãs na Ucrânia, sem perspetiva de vida, com depressão, e este é um grande problema humanitário no país”, assegura à Euronews Ângelo Neto, que acompanhou o projeto de perto.
Tudo começou com uma viagem de autocarro, na qual Ângelo, juntamente com outros membros da associação, foi à Ucrânia buscar mães e filhos, previamente selecionados pelo governo ucraniano, para receberem apoio.
“Nós fomos buscá-los à Ucrânia e chegaram a Portugal a 10 de janeiro, tendo ficado até 30 de janeiro. Foram três semanas de acompanhamento psicológico, atividades culturais e de empreendedorismo”, conta Ângelo.
A associação já tinha realizado um projeto semelhante em julho de 2024 com um grupo de soldados ucranianos, recebendo-os no Centro de Reabilitação Fénix, em Ourém.
Para além da componente clínica, com intervenções psicológicas orientadas pela psicóloga clínica da associação, Sydorenko Lada, o projeto integrou também quatro outras componentes: cultural, educacional, desportiva, terapêutica e cívica e institucional.
Visitas a locais como o Mosteiro dos Jerónimos, o Palácio da Pena ou o Palácio de Mafra — com o objetivo de reconectarem-se com a identidade europeia — ou ao Oceanário de Lisboa, para estimular a curiosidade e devolver a esperança no futuro às crianças, foram algumas das atividades realizadas.
Ângelo Neto destacou ainda pequenas iniciativas, como idas ao cabeleireiro com as mães, para “voltarem a sentir-se mulheres” e “voltarem a sentir-se bonitas e a ter autoestima”.
Os resultados clínicos e sociais foram apresentados na segunda-feira e mostram uma “redução significativa dos níveis de depressão e ansiedade”, bem como a “diminuição da tensão emocional crónica e dos sintomas relacionados com traumas.”
O restabelecimento de recursos internos e o aumento da autorregulação emocional foram também constatados em mulheres e crianças que precisavam de novas ferramentas para regressar à sua “realidade” na Ucrânia.
“A intenção do projeto é mostrar que, após a guerra, há um futuro, que eles não estão sozinhos e que não devem desistir”, explica o vice-presidente da associação.
Após três semanas fora do ambiente de guerra, “vemos o seu esforço para continuar a vida, tentar empreender, procurar soluções, porque até então estavam completamente sem esperança ou perspetiva de vida”, conclui.
A UAPT recebeu um convite do Ministério da Economia ucraniano para colaborar no processo normativo e na adaptação aos padrões europeus no âmbito da adesão da Ucrânia à União Europeia.
Há quatro anos, milhares de ucranianos escolheram Portugal como o seu porto de abrigo. Alguns anseiam voltar; outros encontraram casa cá, mas, para todos, o sonho é o mesmo: o fim de uma guerra que já levou à morte de milhares de pessoas.