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“Em quatro anos, é a primeira noite que dormimos nove horas despreocupados”

Criança ucraniana visita o Oceanário de Lisboa
Criança ucraniana visita o Oceanário de Lisboa Direitos de autor  Euronews
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De Diana Rosa Rodrigues
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Portugal acolhe, durante três semanas, um grupo de mães e crianças ucranianas vindas de uma região fortemente marcada pela guerra. Longe dos bombardeamentos, relatam descanso real, atividades lúdicas e terapêuticas, além de um agradecimento maior do que as palavras podem expressar.

Makar observa o fundo do mar. Este menino ucraniano não fez mergulho, mas esteve perto ao visitar o Oceanário de Lisboa. A primeira vez num aquário grande nunca se esquece. Aqui, a tranquilidade do meio marinho contrasta com os dias da guerra….que, durante um período finito de tempo, ficaram para trás.

Makar, de seis anos, perdeu o pai para os horrores do conflito. Faz parte de um grupo de mães e crianças ucranianas que viajaram até território nacional com a ajuda da organização Help UA.PT, ao abrigo do Programa Europeu de Apoio Psicológico e Cultural a Famílias de Guerra.

Makar de seis anos observa atentamente o aquário principal do Oceanário de Lisboa
Makar de seis anos observa atentamente o aquário principal do Oceanário de Lisboa Euronews

“Foram 20 horas de viagem de autocarro de Kiev até Varsóvia com muita resiliência. Nós só conseguimos chegar porque tivemos escolta militar do lado ucraniano, que ajudou a limpar as estradas. E as crianças, sem dormir, mas com uma vontade enorme de chegar em Portugal e descansar um pouco do horror da guerra”, descreve Ângelo Neto, vice-presidente da Help UA. PT.

Estas mães e crianças, familiares de soldados ucranianos falecidos ou desaparecidos em combate, vêm de Chernihivska, no norte da Ucrânia.

“É uma região mais fortemente afetada pelos conflitos diários que existem. Imaginem agora, 20 graus negativos, sem energia, sem calefação, sem comida”, explica Ângelo.

“Só para terem uma ideia, eles chegaram no sábado. No domingo, quando acordaram, perguntei se tinham dormido bem e disseram**: ‘há quatro anos que é a primeira noite que nós dormimos nove horas, despreocupados.’**

A visita ao Oceanário faz parte de uma lista de atividades para três semanas. Durante estes dias ficam hospedados no Centro Fénix, em Ourém, na região Centro de Portugal.

"Para eles é uma paz de três semanas, para quem sente isso na pele**, equivale como se tivessem ficado três anos, em termos de descanso mental"**, descreve Ângelo Neto, apontando os detalhes para o programa que inclui sessões de terapia para ultrapassar o trauma da guerra.

"Nós temos a psicóloga oficial, que veio da Ucrânia, e uma psicóloga cá em Portugal, do nosso centro, onde fazem o tratamento exatamente para devolver-lhes a esperança. Eles estão muito abalados em termos mentais, a capacidade cognitiva de reagir diminui muito por causa desse trauma. E é isso que queremos recuperar", explica, salientando que, apesar do apoio institucional do governo português, o projeto "só foi possível graças à União da Sociedade Civil".

Makar foi parco nas palavras. Perguntámo-lhes se estava a gostar da experiência, de conhecer o Ocenário e outros locais de Portugal. Se estava a fazer novos amigos e se uma dia gostaria de regressar a terras lusas. A resposta foi sempre, e somente, um tímido "sim". Já a mãe, Yulia, salienta à Euronews como foram bem recebidos.

"Ficar aqui tem sido uma experiência muito boa. A estadia aqui é muito agradável, com ótimas sensações. Fomos muito bem recebidos", explica. "As excursões são muito interessantes, tanto para as mães como para as crianças. Estamos muito gratos".

Daqui a uns dias será tempo de regressar a solo ucraniano. Sem adiantar como será esse momento, Yulia reforça apenas a gratidão pelo projeto, realizado num "período tão difícil".

Yulia descreve à Euronews como está agradecida pela experiência
Yulia descreve à Euronews como está agradecida pela experiência Euronews

"Neste momento, estamos sinceramente muito felizes por nos apoiarem. Num período tão difícil, esta missão é muito importante para nós", explica. "Só temos boas impressões de Portugal e destas pessoas".

Formar cidadãos para o futuro

Antes do Ocenário, uma das paragens do grupo foi a Presidência da República. Em Belém, conheceram Marcelo Rebelo de Sousa, numa experiência "marcante para toda a vida destas crianças".

Grupo de mães e crianças visita Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém
Grupo de mães e crianças visita Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém Imagem fornecida pela Help UA.PT.

"As crianças, para mim, — e é preciso que entendam — são o futuro", explica Roman Kurtysh, presidente da Help UA.PT. "Estas visitas a Portugal, por exemplo, aquilo que eles estão a ver aqui, outra cultura, a de Portugal e a cultura europeia em geral, isso também é muito importante", explica à Euronews.

"Este é um projeto que serve também em termos de integração, já pensar na Ucrânia como membro da União Europeia, que é o que todos queremos", complementa Ângelo.

Para já, o apoio a projetos futuros está limitado ao apoio da sociedade civil, até porque o centro Fénix, onde estas crianças dormem e são reabilitadas, precisa de financiamento contínuo.

"Em termos do centro (Fénix), o que nós vamos fazer agora é, a partir de maio, disponibilizar vagas para o PRR, cuidados continuados, para que nós consigamos ter algum fluxo de financiamento de entrada de dinheiro, para ajudar a população portuguesa, gerir mesmo ao detalhe", explica Ângelo Neto.

"Mas sem o apoio contínuo dessas empresas, dessas fundações e da sociedade civil e agora do governo, é impossível chegarmos à meta das 500 famílias atendidas, mas eu sei que nós vamos conseguir", afirmou, com convicção.

Para Roman, presidente da organização, o sonho é voar mais alto.

"Eu quero desafiar Bruxelas para nós, em conjunto, organizarmos um projeto maior, de maior escala, porque nós temos capacidade, somos organizados, temos equipa e conseguimos superar os resultados que temos", explica. "Mas claro que aindasomos pequenos e procuramos apoios para mostrar resultados, mostrar a nossa capacidade".

Segundo explica a organização Help UA.PT, o projeto teve início em 2025 com o apoio do Ministério da Defesa do Reino Unido, que financiou e acompanhou mais de 400 mães e crianças ucranianas em programas semelhantes realizados no Reino Unido, Espanha e Bulgária.

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