Nas últimas semanas, tem havido uma série de notícias de que os russos poderão interferir na campanha que antecedeu as eleições parlamentares na Hungria, bem como nas próprias eleições. Neste contexto, a presença de Daria Boyarskaya pode ser preocupante.
Investigações jornalísticas revelaram a presença de uma observadora russa na missão da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) que irá monitorar o processo eleitoral na Hungria antes da votação de 12 de abril. O envolvimento de Daria Boyarskaya, a intérprete pessoal de Vladimir Putin, está a levantar preocupações sobre uma possível interferência do Kremlin.
Na sequência de uma petição numa plataforma online, a OSCE anunciou no final de fevereiro que enviaria mais de 200 peritos e observadores à Hungria para acompanhar todo o processo das eleições parlamentares de 12 de abril, as mais incertas dos últimos anos.
Eugean Murphy, coordenador da missão, disse que observadores dos 27 estados membros da OSCE estarão presentes em cidades e vilas por toda a Hungria, reunindo-se com funcionários e candidatos eleitorais, bem como representantes da sociedade civil e dos média.
A OSCE concentrar-se-á principalmente nas seguintes áreas: condução da campanha eleitoral online e offline, financiamento da campanha, o trabalho das autoridades eleitorais, medidas institucionais tomadas para identificar desinformação, cobertura dos candidatos pela comunicação social e resolução de disputas eleitorais.
A suspeita de presença de Moscovo na missão
Em janeiro, o jornal húngaro Magyar Hang (fonte em húngaro) relatou pela primeira vez que uma mulher russa, que anteriormente atuara como intérprete de Vladimir Putin, participou da missão da OSCE na Hungria.
O semanário lembrou que a mulher também havia sido mencionada num artigo anterior no jornal ucraniano European Pravda, que explicava que vários membros proeminentes da elite russa ocupam posições na organização que poderiam ser usadas para fins de inteligência e para influenciar decisões a favor do Kremlin.
O fio condutor russo
Em janeiro, o Magyar Hang (fonte em húngaro) noticiou pela primeira vez que uma mulher russa, antiga intérprete de Vladimir Putin, tinha participado na missão da OSCE na Hungria. O jornal lembrava que a mulher também tinha sido mencionada num artigo anterior do jornal ucraniano European Pravda, que explicava que vários membros proeminentes da elite russa ocupavam cargos na organização que poderiam ser utilizados para fins de informação e para influenciar as suas decisões a favor do Kremlin.
No final de janeiro, uma declaração oficial foi publicada no site da OSCE afirmando que a chamada "missão de avaliação de necessidades" (NAM) da organização tinha viajado para Budapeste em dezembro de 2025, especificando que o Gabinete para as Instituições Democráticas e os Direitos Humanos esteve em Budapeste entre 15 e 19 de dezembro de 2025.
O objetivo da missão era fazer uma recomendação sobre se e como o gabinete deveria observar o processo eleitoral. Estavam presentes Kseniya Dashutsina, conselheira eleitoral sénior, e Martina Barker-Ciganikova, conselheira eleitoral, juntamente com Daria Boyarskaya, conselheira sénior da Assembleia Parlamentar da OSCE.
Uma fonte disse ao Hungarian Voice que Boyarskaya aparecia regularmente no site de Vladimir Putin como intérprete de russo-inglês, e o seu perfil no LinkedIn mostrava que trabalhava para a Assembleia Parlamentar da OSCE. O jornal examinou a foto de perfil e confirmou que Boyarskaya realmente trabalhou como intérprete para Putin.
Boyarskaya desempenhou essas funções, por exemplo, em 2019 em Osaka quando o presidente russo se encontrou com Donald Trump.
Boyarskaya também interpretou a reunião Obama-Putin no passado, e uma foto dela entre Putin e o primeiro-ministro indiano Narendra Modi também foi encontrada.
O site oficial da OSCE descreve Boyarskaya como uma conselheira sénior que, entre outras coisas, apoia o secretário-geral e o secretariado internacional e auxilia missões de observação eleitoral.
De acordo com a sua biografia, formou-se em interpretação em São Petersburgo e trabalhou no Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia. Desde julho de 2010, tem trabalhado como consultora externa para a OSCE, apoiando as equipas de tradução e interpretação e começou a trabalhar no Secretariado Internacional em janeiro de 2021.
Kremlin tenta infiltrar-se no sistema da OSCE
O jornalista húngaro Szabolcs Panyi escreveu que o colega Bernhard Knoll foi o primeiro a relatar no semanário vienense Falter que a Assembleia Parlamentar da OSCE havia confiado a Boyarskaya a organização de uma missão abrangente de observação eleitoral na Hungria.
Uma investigação conjunta do Der Spiegel, ZDF, Der Standard e Paper Trail Media já revelou como o Kremlin está a integrar pessoas no sistema da OSCE, e o artigo também citou anonimamente o caso Boyarskaya. A mulher foi sancionada e declarada pessoa de interesse indesejado pelo Serviço de Segurança Interna da Polónia em 2022 e detida pela Lituânia em 2023, quando tentou cruzar a fronteira russo-lituana. De acordo com o Ministério da Administração Interna polaco, Boyarskaya é uma apoiante do regime de Putin.
O Comité Húngaro de Helsínquia, uma organização não-governamental de direitos humanos, já tinha solicitado que Boyarskaya fosse removida da missão, e a co-presidente Márta Pardavi disse que a presença de um funcionário ligado a Putin poderia desencorajar civis húngaros, jornalistas e figuras da oposição de falarem abertamente com observadores.
Segundo Pardavi, as atividades de Boyarskaya vão além do simples monitoramento, na verdade, também organiza reuniões, participa em reuniões e escreve atas.
Roberto Montella, secretário-geral da Assembleia Parlamentar da OSCE, disse que Boyarskaya tinha sido nomeada pessoalmente por ele e que lhe depositava a sua "total confiança". Note-se que ser intérprete de Putin é um trabalho de confiança e que os colaboradores próximos são controlados pelo Serviço Federal de Segurança russo.
De acordo com fontes ouvidas pelo jornal VSquare, Boyarskaya voltou à Rússia regularmente desde o início da guerra na Ucrânia em fevereiro de 2022, tem morada em Moscovo e vários familiares próximos trabalham para agências estatais russas - o que significa que poderia facilmente ser pressionada pelo Kremlin.