Os resultados oferecem um primeiro retrato do equilíbrio político de França antes de 2027. Eis as principais conclusões.
As eleições autárquicas de domingo em França trouxeram sortes diferentes para as principais forças políticas do país: a esquerda venceu em Paris com o socialista Emmanuel Grégoire, a extrema-direita e os seus aliados obtiveram uma importante vitória simbólica em Nice e os principais partidos apontaram para a resiliência em várias cidades de grande e média dimensão, tendo em vista a corrida presidencial de 2027.
As eleições autárquicas em França são disputas locais para eleger presidentes de câmara e conselhos locais, mas são acompanhadas de perto porque testam a organização dos partidos, a formação de alianças e a força das bases antes do início das campanhas nacionais.
Na capital, o socialista Emmanuel Grégoire derrotou a rival conservadora Rachida Dati, assegurando que Paris continua sob o controlo da esquerda, depois de a presidente da câmara cessante, Anne Hidalgo, ter optado por não tentar um novo mandato.
O resultado prolonga um quarto de século de governo de esquerda na capital e dá aos socialistas um dos prémios mais visíveis da noite. Grégoire apresentou o resultado como um mandato para uma visão progressista da cidade.
Noutros locais, a esquerda também teve motivos para celebrar. Em Marselha, o atual presidente socialista Benoît Payan foi reeleito, depois de a extrema-direita ter esperado conquistar a segunda maior cidade de França.
Em Lyon, o autarca dos Verdes Grégory Doucet manteve-se no cargo depois de uma dura disputa contra o seu rival conservador, que foi remodelado por uma fusão de última hora com a lista do partido de extrema-esquerda França Sem Arco.
Socialistas registam bom desempenho
Os socialistas também tiveram um bom desempenho em várias cidades regionais, reforçando a impressão de uma recuperação mais alargada da esquerda tradicional.
Para a extrema-direita, o panorama é mais complexo. O líder do Rassemblement National (RN), Jordan Bardella, evidenciou o que disse ser o maior avanço local do partido, e o RN manteve a cidade de Perpignan, no sudoeste do país, além de ganhar municípios menores.
Mas o partido ficou aquém em várias das grandes cidades que tinha como objetivo, nomeadamente Marselha, Toulon e Nîmes. A exceção foi Nice, onde Éric Ciotti - outrora uma figura importante da direita e agora aliado do RN - venceu a corrida, dando à extrema-direita e aos seus parceiros o controlo da quinta maior cidade de França.
As eleições também trouxeram sinais mais claros de fragmentação no centro-direita e no campo do presidente francês Emmanuel Macron.
O ex-primeiro-ministro Édouard Philippe foi reeleito em Le Havre, reforçando a sua posição como possível candidato a 2027, enquanto as forças centristas de Macron puderam contar com uma vitória simbólica em Bordéus, onde o candidato do Renaissance, Thomas Cazenave, derrotou o presidente da câmara dos Verdes, Pierre Hurmic.
Ao mesmo tempo, a derrota do antigo primeiro-ministro de Macron, François Bayrou, em Pau, no sudoeste, sublinhou as vulnerabilidades da aliança presidencial mais alargada.
A afluência às urnas continua a ser uma preocupação. De acordo com o ministério da Administração Interna, a participação no território continental de França era de 48,1% às 17h, mais alta do que a eleição de 2020, interrompida pela Covid, mas ainda abaixo dos níveis pré-pandémicos.
No seu conjunto, os resultados não permitem prever quem sucederá a Macron em 2027. Mas esboçam a paisagem política a partir da qual essa disputa emergirá: uma esquerda que ainda pode ganhar as grandes cidades, uma direita dominante que permanece localmente entrincheirada, um centro à procura de pontos de apoio duradouros e uma extrema-direita que está a crescer, mas pode ainda enfrentar limites nos maiores campos de batalha urbanos do país.