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Hungria: apoiantes de Orbán acusam Meta de interferir nas eleições, sem qualquer prova

Apoiantes do primeiro-ministro Viktor Orbán agitam bandeiras numa ação de campanha em Kaposvár, Hungria, em 16 de março, antes das legislativas de 12 de abril de 2026
Apoiantes do primeiro-ministro Viktor Orbán agitam bandeiras numa digressão de campanha em Kaposvár, Hungria, em 16 de março de 2026, antes das legislativas de 12 de abril. Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De Estelle Nilsson-Julien
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Meta envolve‑se na tensa campanha eleitoral húngara, após apoiantes do Fidesz acusarem a plataforma de limitar publicações para favorecer a oposição. Na realidade, estas acusações carecem de fundamento.

Contas nas redes sociais que apoiam o partido populista de direita Fidesz, atualmente no poder na Hungria, acusam a gigante tecnológica Meta de interferência política nas próximas eleições do país, alegando que o partido e o primeiro-ministro Viktor Orbán estão a ser censurados.

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O coordenador de campanha do Fidesz, Balázs Orbán (fonte em inglês), veio também apoiar estas acusações.

"Recebemos inúmeros relatos de que alguns utilizadores não têm conseguido colocar 'gosto' em conteúdos relacionados com o Fidesz no Facebook nos últimos dias", afirmou a 29 de março.

Mas o Cubo, a equipa de verificação de factos da Euronews, não conseguiu reunir quaisquer provas credíveis que sustentem estas alegações.

Alegações de interferência

As acusações surgiram numa publicação na rede X partilhada pelo comentador político libanês-australiano Mario Nawfal, normalmente alinhado com posições populistas.

"EXCLUSIVO: FACEBOOK RESTRINGE PUBLICAÇÕES DE ORBÁN A SEMANAS DAS ELEIÇÕES NA HUNGRIA", escreveu a 18 de março.

Nawfal, que entrevistou Orbán sete dias depois, alegou que, antes das eleições "cruciais" de 12 de abril, o Facebook estaria "a restringir publicações do primeiro-ministro do país".

Sugeriu que isso teria sido desencadeado por um apelo de um membro do partido Tisza, a formação conservadora pró-europeia liderada pelo antigo dirigente do Fidesz Péter Magyar, que terá instado os "apoiantes a denunciar em massa" os conteúdos de Orbán.

Estas alegações foram depois retomadas pelo meio de comunicação conservador polaco, wPolityce.pl, e pelo Mandiner, um jornal húngaro alinhado com o Fidesz. O Mandiner identificou a "membro da oposição" referida por Nawfal como a eurodeputada do Tisza Dóra Dávid, antiga assessora jurídica da Meta.

O Cubo contactou Nawfal para obter mais informação sobre as alegações, mas não recebeu resposta até ao momento da publicação. Entretanto, não existe qualquer prova pública de que a Meta tenha visado ou censurado publicações do Fidesz ou de Orbán.

Um porta-voz da Meta disse-nos que "não há quaisquer restrições às contas do primeiro-ministro húngaro" e que nenhuma das suas publicações foi removida.

"As nossas Normas da Comunidade e políticas aplicam-se de forma igual a todos, e dispomos de sistemas para detetar quaisquer tentativas coordenadas de abuso dos nossos mecanismos de denúncia", acrescentou o porta-voz.

Vídeo retirado do contexto

As acusações dirigidas a Dávid parecem deturpar declarações anteriores suas, retirando-as do contexto, nomeadamente um vídeo que publicou nas redes sociais em novembro de 2025.

No vídeo, Dávid dizia aos seguidores que "propagandistas e o grupo 'Mi hazánk'" – uma formação política húngara de extrema-direita – a tinham acusado de "manipular os algoritmos da Meta", algo que garantiu "não ser verdade".

"Podem fazer muito para que o algoritmo não dê destaque às publicações mentirosas, falsas, enganadoras e de ódio do Fidesz e da sua órbita", afirmou Dávid no vídeo.

"Como? Assim: denunciem-nas e escolham a categoria mais adequada", acrescentou, enquanto surgiam no ecrã instruções em vídeo a explicar como denunciar conteúdos.

Os utilizadores podem assinalar à plataforma conteúdos que violem as normas da comunidade da Meta.

Isto inclui "conteúdos de ódio" dirigidos a pessoas pela sua "raça, etnia, origem nacional, deficiência, filiação religiosa, casta, orientação sexual, sexo, identidade de género ou doença grave", de acordo com as diretrizes da Meta.

Já a desinformação é classificada pela Meta como "diferente de outros tipos de discurso", argumentando a empresa que "não é possível definir uma lista exaustiva do que é proibido".

Na Europa, os utilizadores podem sinalizar ao Facebook conteúdos que considerem ser notícias falsas, que são depois analisados de forma independente por verificadores de factos.

Nos Estados Unidos, o modelo é diferente: no início de 2025, a Meta anunciou que iria abandonar os verificadores profissionais de factos e passar para um sistema de "notas da comunidade", semelhante ao do X, que permite aos utilizadores acrescentar notas a publicações consideradas enganosas.

Na altura, o fundador Mark Zuckerberg afirmou que, com o sistema anterior, a empresa moderava publicações "de forma demasiado agressiva".

Ainda assim, uma mudança deste tipo seria mais difícil de aplicar em toda a Europa, devido ao Regulamento dos Serviços Digitais (DSA), que visa combater a desinformação obrigando as plataformas online a lidar com riscos para os processos democráticos. Qualquer plataforma que viole as regras fica sujeita a coimas pesadas.

De facto, o processo de verificação de factos da Meta parece manter-se inalterado deste lado do Atlântico, pelo menos por agora. Um porta-voz da empresa disse-nos que "a verificação de factos por terceiros continua em vigor fora dos EUA. Isto inclui a Hungria, onde trabalhamos com a AFP, e a UE".

"Estamos a começar a introduzir as Notas da Comunidade nos EUA e continuaremos a aperfeiçoar o sistema antes de o expandirmos a outros países. Construir um ecossistema sólido de Notas da Comunidade levará tempo", acrescentou o porta-voz.

Por isso, o apelo de Dávid para que os utilizadores assinalem "publicações mentirosas, falsas, enganadoras e de ódio" não constitui uma violação das regras, por ir ao encontro do objetivo do DSA de levar as empresas a mitigar a disseminação de desinformação e de conteúdos nocivos.

O Cubo contactou também Dávid para obter declarações, mas esta não quis especificar a que conteúdos do Fidesz se referia.

A acusação contra si surge depois de várias outras alegações de que o Fidesz estará a recorrer a táticas desleais contra os adversários.

Nos últimos meses, o partido foi acusado de conduzir uma campanha de difamação contra os rivais políticos, difundindo imagens geradas por IA, como falsos vídeos do líder do Tisza, Péter Magyar, e gravações fabricadas de soldados húngaros transportados em caixões, com o objetivo de desacreditar o apoio à Ucrânia face à Rússia.

Embora a Meta preveja a remoção de "conteúdos suscetíveis de contribuir diretamente para interferir no funcionamento dos processos políticos", investigadores de desinformação sublinham que persistem falhas nos mecanismos de filtragem e que parte deste conteúdo continua a chegar às plataformas.

Membros da equipa da Meta visados por rumores de interferência

Dávid não é a única a ser apontada e acusada de liderar uma campanha contra o Fidesz através da Meta.

Uma série de publicações nas redes sociais acusou Oskar Braszczyński, parceiro da Meta para a área de governos e impacto social na Europa Central e de Leste, de dirigir uma campanha contra o partido no poder na Hungria.

A 18 de março, Philip Pilkington, comentador político conservador e investigador convidado no Mathias Corvinus Collegium – um think tank e instituição de ensino superior com ligações estreitas ao primeiro-ministro Viktor Orbán – partilhou no X uma publicação que classificou como "notícia de última hora", alegando que Braszczyński estaria a "suprimir" a presença de Orbán nas redes sociais.

Nenhuma das contas que deu eco a estas acusações apresentou provas concretas que as sustentassem.

Em vez disso, utilizadores do X apontaram o apoio declarado de Braszczyński à Ucrânia e aos direitos LGBT, expresso na sua conta de Facebook, como os "sinais clássicos" de "liberais progressistas encarregados de interferir em eleições na Europa".

Philip Pilkington disse ao Cubo que não podia adiantar mais pormenores sobre as suas alegações, mas afirmou que a informação lhe tinha sido transmitida por uma "fonte governamental sénior em Budapeste".

Já Braszczyński não respondeu ao nosso pedido de comentário.

A Meta também não se pronunciou sobre as alegações relativas a Braszczyński e Dávid.

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