O líder socialista defendeu o ex-presidente Zapatero na primeira sessão de controlo ao governo espanhol no Congresso depois da acusação no caso Plus Ultra. Sánchez pediu também respeito pela presunção de inocência e pelo trabalho da Justiça.
O presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, rejeitou esta quarta-feira uma eventual antecipação das eleições após o ex-presidente socialista José Luis Rodríguez Zapatero ter sido constituído arguido no caso Plus Ultra, uma investigação judicial que analisa alegadas irregularidades no resgate público da companhia aérea durante a pandemia.
"Haverá eleições em 2027", garantiu o primeiro-ministro espanhol, depois da intervenção inicial de Alberto Núñez Feijóo, líder da oposição conservadora. "Toda a colaboração com a justiça, todo o respeito pela presunção de inocência e todo o meu apoio ao presidente Zapatero. Lições de quem tanto tem para esconder, nenhumas", acrescentou o líder do PSOE.
"Basta ler o despacho para perceber que, sem o seu Conselho de Ministros, Zapatero não teria podido delinquir. Nem ele, nem Ábalos, nem Santos Cerdán", denunciou Feijóo, em referência aos dois ex-dirigentes socialistas. "Espanha é governada por corruptos e eu vou tratar de mudar tudo isto", acrescentou o líder da oposição, exigindo a demissão de Sánchez e descrevendo Zapatero como o seu "farol moral".
O presidente do governo de Espanha ausentou-se da sessão parlamentar assim que os líderes do Partido Popular, Vox e Esquerra Republicana de Catalunya (ERC) terminaram de lhe dirigir as respetivas perguntas.
Juiz chama Zapatero a depor em 2 de junho
Na terça-feira, soube-se que o Tribunal Nacional tinha indiciado Zapatero por alegados crimes de organização criminosa, tráfico de influências, falsificação de documentos e branqueamento de capitais no âmbito do processo investigado pelo juiz Calama, conhecido por instruir casos como o apagão generalizado na Península Ibérica de 28 de abril de 2025.
Segundo o magistrado, a investigação aponta para uma alegada participação do ex-presidente socialista numa estrutura organizada destinada a influenciar organismos públicos para favorecer o resgate de 53 milhões de euros concedido à companhia aérea durante a pandemia.
Os investigadores analisam também a eventual utilização de sociedades interpostas e operações financeiras internacionais para canalizar fundos alegadamente irregulares. Zapatero negou todas as acusações, tanto na terça-feira como numa anterior investigação parlamentar, e sustenta que nunca interveio na concessão do resgate nem recebeu comissões ligadas à Plus Ultra.
Cresce pessimismo na maioria de investidura: "Não augura nada de bom"
As caras fechadas dos porta-vozes das esquerdas no Congresso eram visíveis à entrada do hemiciclo e poucos pararam para falar com a imprensa além de uma breve frase antes da sessão de controlo.
O estado de espírito geral foi resumido por Gabriel Rufián, porta-voz da ERC, durante a sua interpelação ao presidente: "A muita gente de esquerda isto parte o coração", afirmou sobre Zapatero, considerado uma referência moral para este setor ideológico.
Entre 2004 e 2011, Zapatero aprovou a primeira lei integral contra a violência de género, pressionou para que Espanha se tornasse o terceiro país do mundo a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo e negociou o novo estatuto da Catalunha, entre outras medidas que marcaram as suas duas legislaturas.
"Não sou objetivo: tenho um enorme respeito por Zapatero. Nove dos nossos dormem em casa graças a ele, mas tenho olhos na cara. Se isto for verdade, é uma chatice; se for mentira, é uma chatice ainda maior que já vimos muitas vezes", afirmou Rufián.
Por sua vez, Enrique Santiago, secretário-geral do Partido Comunista e deputado da Sumar, afirmou que "se foram cobradas comissões, isso é claramente um crime", numa linha discursiva semelhante à da sua homóloga no Podemos, Ione Belarra, que optou pela concisão: "O despacho não augura nada de bom".