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França: presença de ministra em almoço de Bolloré com propagandista russa gera polémica

Annie Genevard chega ao Palácio do Eliseu, em Paris, França, na terça-feira, 26 de maio de 2026.
Annie Genevard chega ao Eliseu, em Paris, França, na terça-feira, 26 de maio de 2026. Direitos de autor  Tom Nicholson/Tom Nicholson/Pool
Direitos de autor Tom Nicholson/Tom Nicholson/Pool
De Serge Duchêne
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Segundo fontes da France Inter, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu telefonou à ministra da Agricultura na manhã de quarta-feira, embora o Matignon sublinhe o caráter pessoal da presença da governante e qualifique o incidente como uma forma de negligência.

A temperatura sobe nos corredores políticos em Paris e, desta vez, não é por causa dos termómetros.

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No auge da polémica "Zapper Bolloré", que denuncia a influência crescente do bilionário bretão sobre a sétima arte e que surgiu na sequência de uma contestação no mundo da edição, a ministra da Agricultura, Annie Genevard, foi vista entre cerca de uma centena de convidados do círculo de reflexão do Instituto da Esperança, criado pelo bilionário Vincent Bolloré.

Entre os convidados contavam-se nomeadamente apoiantes da união das direitas, figuras do canal CNews, bem como antigos intermediários de média pró-russos, como Xenia Fedorova, a antiga diretora da Russia Today France, proibida desde a invasão da Ucrânia, mas que entretanto voltou a ser presença nos ecrãs de um canal de Bolloré.

Embaraçoso, no mínimo, para o executivo, que tenta evitar qualquer proximidade com a extrema-direita, bem como a imagem de brandura em relação a Moscovo, numa altura em que decorre um debate pan-europeu sobre a necessidade de dialogar com o Kremlin.

Segundo apurou a France Inter junto de várias fontes, Sébastien Lecornu telefonou a Annie Genevard antes do Conselho de Ministros para lhe pedir explicações sobre a presença nesse almoço.

Segundo a ministra, oriunda dos Republicanos, tratava-se de um convite privado enviado por Stanislas Billot de Lochner, um jovem empresário católico, para fazer contactos na sede da Vivendi, o grupo de Vincent Bolloré.

O círculo próximo de Annie Genevard garante, em declarações a franceinfoe à France Inter que a ministra não sabia da presença de Xenia Fedorova, que não se sentou à mesma mesa e que a lista de convidados, que efetivamente recebera, estava incompleta. Nessa lista constava também François Durvye, novo conselheiro económico do presidente do partido da direita nacionalista Rassemblement National (RN), Jordan Bardella.

"Se soubesse que a propagandista do Kremlin ia estar presente, [ela] não teria ido", assegura o círculo próximo desta aliada de Laurent Wauquiez.

Ao mesmo tempo, o Matignon tenta minimizar o alcance do caso. Para a porta-voz do governo, Maud Bregeon, não se deve ler aí "nenhuma mensagem política em particular"; Annie Genevard "agiu a título individual". Segundo uma fonte governamental citada pela France Inter, este almoço resulta de uma forma de negligência.

E, se Philippe Juvin, deputado dos Republicanos, citado pela RFI, não vê nada de anormal neste encontro ("que os ministros vão falar com os operadores económicos do país parece-me indispensável"), a esquerda mostra-se bem menos compreensiva.

O insubmisso Thomas Portes denuncia uma "agenda política de Vincent Bolloré".

**"**Tudo o que faz à medida que se aproxima a eleição presidencial tem um objetivo: instalar a extrema-direita... A ministra não devia estar sentada nessa mesa", referiu.

Para Romain Eskenazi, deputado socialista, também na RFI, a presença da ministra também não se justifica: "Neste momento decorre na Assembleia Nacional o debate de uma lei de emergência agrícola. Não sei se era exatamente aí que ela devia estar".

Xenia Fedorova, musa controversa da "espiritualidade russa" e apoiante de Putin

Mas é provavelmente a própria figura da antiga chefe de redação da RT France que constitui a verdadeira pedra no sapato.

A RT France deixou de emitir em janeiro de 2023. Fedorova explicou na altura que a decisão se devia ao congelamento das contas do canal. Desde então, a propaganda do Kremlin tentou infiltrar-se novamente no panorama audiovisual francês através de média de retransmissão como sputniknews.lat ou rtenfrancais.tv, todos também banidos por Paris.

Após o encerramento do canal, Fedorova permaneceu em França e publicou ali as suas memórias, "Bannie. Liberté d'expression sous condition" (“Banida. Liberdade de expressão com restrições”, em português), na editora Fayard, que integra os ativos de Vincent Bolloré.

De acordo com o Le Monde, já em 2023 estava em negociações com o grupo de média do bilionário e, atualmente, participa regularmente nos programas de informação do grupo, para comentar a atualidade internacional, além de assinar uma crónica semanal própria na CNews. Realizou ainda uma minissérie, "Lumières orthodoxes" ("Luzes ortodoxas", em português), dedicada às igrejas ortodoxas na Europa.

"Fedorova retoma sistematicamente os argumentos dos média estatais russos. O principal é que 'a Rússia quer a paz', enquanto a continuação da guerra se deve às ações da Ucrânia, da Europa, dos Estados Unidos e da NATO", assinala numa publicação o serviço em russo da RFI.

Em 15 de maio, Fedorova foi alvo de fortes críticas por parte da French Response, uma conta na plataforma X de verificação de factos e contra a propaganda, dependente do Ministério dos Negócios Estrangeiros e conhecida pelo estilo irreverente.

Após uma crónica em que a comentadora russa abordava a corrupção na Ucrânia, a conta do Quai d’Orsay respondeu: "O sistema é mais simples" na Rússia, "não há escândalos quando já não há ninguém para investigar". Citado pelo Le Monde, o porta-voz do ministério descreve Fedorova como um "instrumento de propaganda do regime".

Já foram apresentadas queixas contra Fedorova junto da ARCOM, a autoridade francesa de regulação do audiovisual, acusando-a de promover as ideias do Kremlin. Porém, como sublinha o Politico, na ausência de provas de um financiamento russo das atividades desta "jornalista", as autoridades francesas têm as mãos atadas.

A imprensa francesa estranhou ainda o facto de o título de residência de Xenia Fedorova ter sido renovado por dez anos, em agosto de 2024. Questionados sobre o assunto pelo Le Monde, Gérald Darmanin e Laurent Nuñez, então ministro do Interior e prefeito da polícia de Paris, respetivamente, não responderam.

Outras fontes • franceinfo, RFI, HuffPost, Meduza

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