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Áustria: ex-responsáveis sírios vão a julgamento por tortura na era de Assad

O sol poente ilumina as janelas da temida prisão militar de Saydnaya, nos arredores de Damasco, em 18 de dezembro de 2024
O pôr do sol ilumina as janelas da temida prisão militar de Saydnaya, nos arredores de Damasco, 18 de dezembro de 2024 Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De Gavin Blackburn
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A legislação austríaca prevê a competência dos tribunais locais para julgar determinados crimes cometidos no estrangeiro. Arquidos residem em Viena.

Um antigo general sírio e ex-alto responsável da polícia síria começaram a ser julgados em Viena, na segunda-feira, acusados de torturar opositores do regime entretanto deposto de Bashar al-Assad.

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Segundo os procuradores, os dois são acusados de, em numerosas ocasiões, terem ordenado ou não terem impedido os maus-tratos a membros de um movimento de protesto.

Os arguidos, um antigo general de brigada dos serviços de informações sírios e um ex-chefe do gabinete de investigações da polícia criminal local, terão cometido os crimes em Raqa entre abril de 2011 e março de 2013.

Vários processos semelhantes, relativos a crimes cometidos durante a guerra civil síria, já foram julgados noutros países, incluindo a Alemanha, França e Suécia.

O general de brigada Khaled al-Halabi, de 63 anos, em prisão preventiva desde 2024, vai declarar-se inocente, disse o seu advogado, Timo Gerersdorfer, aos jornalistas antes do início do julgamento.

O arguido fugiu de Raqa em 2013, pouco antes de o grupo autoproclamado Estado Islâmico (EI) conquistar a cidade.

A seu lado no banco dos réus está o tenente-coronel Musab Abu Rukbah, de 54 anos.

Os dois sírios pediram asilo na Áustria em 2015 e residem desde então no país da Europa Central.

Apoiantes do Partido Baath sírio gritam palavras de ordem em apoio de Bashar al-Assad em Beirute, 4 de março de 2012
Apoiantes do Partido Baath sírio gritam palavras de ordem em apoio de Bashar al-Assad em Beirute, 4 de março de 2012 AP Photo

Reprimem movimento de protesto

Os procuradores austríacos afirmaram em comunicado: "Por ordem do governo central e do Gabinete de Segurança Nacional da República Árabe Síria, 21 indivíduos detidos em prisões foram torturados e maltratados no âmbito da repressão de um movimento de protesto civil".

Na altura da acusação contra Halabi, ativistas consideravam-no o mais alto responsável sírio implicado em abusos presente na Europa.

Responde pelos crimes de tortura, coação agravada e coação sexual, bem como por várias ofensas à integridade física grave, e arrisca até 10 anos de prisão.

Rukbah, o agente da polícia, é acusado de ofensa à integridade física grave, coação agravada e coação sexual e enfrenta também uma pena até 10 anos de prisão.

Um membro das forças de segurança do novo governo sírio interino inspeciona uma cela do centro de detenção da ala Palestina, em Damasco, 14 de dezembro de 2024
Um membro das forças de segurança do novo governo sírio interino inspeciona uma cela do centro de detenção da ala Palestina, em Damasco, 14 de dezembro de 2024 AP Photo

Segundo a acusação, foi levantado o prazo de prescrição de 10 anos que se aplicaria normalmente.

Tratados internacionais, entre eles a Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, obrigavam o Ministério Público a avançar com a acusação, acrescenta o documento.

A legislação austríaca prevê a competência dos tribunais nacionais para certos crimes cometidos no estrangeiro.

Vítimas prestam depoimento

O tribunal de Viena é competente porque os arguidos residem na cidade. Estão marcados treze dias de audiência até 30 de junho, onde são esperados os depoimentos das alegadas vítimas que vivem na Síria e na Europa.

Anwar al-Bunni, advogado sírio radicado na Alemanha, que passou ele próprio cinco anos em prisões sírias, afirmou que o general devia enfrentar acusações adicionais.

Classificou o julgamento de "importante", mas disse à agência noticiosa AFP: "Não percebo por que razão não o acusam de crimes contra a humanidade".

Altos responsáveis austríacos suspeitos de terem protegido o antigo general de brigada foram absolvidos em 2023.

Fotografias de pessoas dadas como desaparecidas após terem sido detidas pelo exército do antigo presidente sírio Bashar al-Assad, em Damasco, 22 de dezembro de 2024
Fotografias de pessoas dadas como desaparecidas após terem sido detidas pelo exército do antigo presidente sírio Bashar al-Assad, em Damasco, 22 de dezembro de 2024 AP Photo

O Ministério Público acusara-os de o terem ajudado a obter proteção no país, apontando para um acordo alegadamente concluído em maio de 2015 com o serviço de informações nacional de Israel, o Mossad.

Segundo a imprensa austríaca, o Mossad ter-se-á encarregado de levar o oficial sírio para a Áustria a partir de França, onde se encontrava na altura.

Em 2016, a Comissão para a Justiça e Responsabilização Internacionais (CIJA), grupo que recolhe provas contra alegados criminosos de guerra, informou as autoridades de Viena sobre os supostos crimes de al-Halabi.

De acordo com a agência noticiosa austríaca APA, o acordo com o Mossad, com o nome de código 'White Milk', foi supervisionado por Martin Weiss, então chefe do serviço de informações austríaco (BVT).

Weiss está em fuga no Dubai e é procurado por alegadas ligações a outro espião austríaco foragido, Jan Marsalek, que se suspeita estar a ser protegido por Moscovo.

Tatiana Urdaneta Wittek, do Centre for the Enforcement of Human Rights International (CEHRI), advogada que representa 18 das 21 alegadas vítimas, disse à APA que existe o risco de a Áustria estar a dar abrigo a autores de crimes.

"A Áustria não pode tornar-se um refúgio para criminosos de guerra", afirmou.

Outras fontes • AFP

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