O jornal neerlandês NRC revelou que Pols tinha sido membro do movimento de extrema-direita sul-africano Afrikaner Studente Front (ASF) durante os tempos de estudante.
Donald Pols, antigo diretor da Milieudefensie, a secção neerlandesa da grande ONG ambiental "Friends of the Earth", gerou polémica no mês passado ao aceitar o cargo de diretor de sustentabilidade na multinacional Tata Steel.
Na terça-feira, porém, a Tata Steel anunciou a rescisão repentina do contrato de Pols após apenas um dia no cargo, alegando que "vieram a lume informações adicionais sobre o seu passado" que "nos afetaram e não tinham sido anteriormente comunicadas à empresa".
Mais tarde, o jornal neerlandês NRC revelou que Pols tinha sido membro do movimento sul-africano de extrema-direita Afrikaner Studente Front (ASF) durante os tempos de estudante.
O ASF foi um importante grupo pró-apartheid, ativo nas décadas de 1980 e início de 1990 na Universidade de Pretória. Em 1991, Pols participou num protesto que interrompeu uma visita de Nelson Mandela à universidade, durante a qual centenas de membros do ASF queimaram bandeiras do movimento ANC de Mandela e gritaram slogans pró-apartheid.
Pols admitiu ao NRC que tinha sido membro do ASF e classificou o seu comportamento na altura como "repreensível", acrescentando: "Não há justificação para isso, nem procuro nenhuma. Assumo a responsabilidade. Mas não sou, de forma alguma, a pessoa que era naquela altura."
"Um dos maiores poluidores dos Países Baixos"
A polémica em torno de Pols já tinha começado há um mês, quando foi anunciada a sua nomeação para a Tata Steel.
A decisão, inesperada, foi rapidamente criticada pela Milieudefensie, a ONG ambiental que Pols dirigiu durante anos.
Em comunicado, o presidente da Milieudefensie, Marty Smits, afirmou: "Estamos surpreendidos com a saída de Donald Pols e profundamente desiludidos com a sua decisão de se juntar à Tata Steel, um dos maiores poluidores dos Países Baixos."
Pols tinha ganho notoriedade pelo papel de destaque num mediático processo judicial movido pela Milieudefensie contra a gigante dos combustíveis fósseis Shell.
No ano passado, a Shell conseguiu reverter uma decisão histórica de um tribunal neerlandês em matéria de clima, que em 2021 a obrigara a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 45% até ao final da década. Tinha sido a primeira decisão deste tipo contra uma empresa em todo o mundo.
Na altura, Pols manifestou a sua desilusão com a decisão, referindo que "este deveria ter sido o momento de um verdadeiro avanço na luta contra as perigosas alterações climáticas".
"Isso não aconteceu hoje, mas a luta contra as perigosas alterações climáticas é uma maratona, não um sprint, e a corrida mal começou", acrescentou.
"A Milieudefensie responsabiliza as empresas pelos seus deveres. Guiamo-nos pela ciência, somos críticos e intransigentes. Só ficaremos satisfeitos quando todos os grandes poluidores estiverem alinhados com o Acordo de Paris. Nesse caminho, procuramos ativamente o diálogo, mas preservamos sempre a nossa independência", afirmou Smits após a saída de Pols.
"Por isso, não compreendemos esta decisão de Donald Pols."
Ação judicial
A Tata Steel Nederland contribui há anos para a poluição nos Países Baixos, sobretudo na cidade de IJmuiden, onde o grupo indiano opera a sua maior fábrica siderúrgica.
A Tata Steel Nederland foi criada em 2021, depois de a Tata Steel Europe ter sido dividida em duas filiais distintas, uma nos Países Baixos e outra no Reino Unido.
Atualmente enfrenta um processo judicial nos Países Baixos, depois de moradores de IJmuiden terem processado a empresa por 1,5 mil milhões de euros por problemas de saúde causados pela fábrica, bem como pela desvalorização das habitações.
A agência ambiental regional aplicou igualmente à Tata Steel uma coima de 2,4 milhões de euros por "exceder vários limites", incluindo "emissões excessivas de fluoreto de hidrogénio e metais pesados".
Segundo o Instituto Nacional de Saúde Pública e Ambiente, as pessoas que vivem na zona circundante à Tata Steel têm mais probabilidades de adoecer devido a estas emissões.
Pols justificou a ida para a Tata Steel como um "passo seguinte lógico", argumentando que lhe dava "a oportunidade de demonstrar que a sustentabilidade industrial não só pode ser imposta como também pode ser promovida a partir de dentro".
"Durante anos, exerci pressão externa sobre as empresas para que transformassem as ambições climáticas em ações concretas – inclusive por via dos tribunais. Levo essa experiência para dentro da empresa."
Em abril, o parlamento neerlandês aprovou um subsídio de dois mil milhões de euros para a Tata Steel trabalhar no sentido de uma transição ecológica. Com este dinheiro dos contribuintes, a Tata Steel Nederland precisa de passar do carvão para o gás e, após 2030, para o hidrogénio, bem como reduzir drasticamente as suas emissões de CO2.
Além disso, a casa-mãe indiana, a Tata, reservou mais quatro mil milhões de euros para a transição ecológica da sua fábrica em IJmuiden.