Friedrich Merz defende na sua declaração de governação reformas, competitividade e Europa. A líder da AfD, Alice Weidel, critica duramente a linha do governo e o chefe da bancada do SPD, Mathias Miersch, responde.
Mau arranque para a declaração do governo sobre o Conselho Europeu do chanceler federal Friedrich Merz (CDU): no momento em que o chefe do governo quer elogiar o crescimento do setor aeroespacial alemão, o microfone na tribuna dá problemas.
Num debate de uma hora, o chanceler expôs a posição do governo sobre o Conselho Europeu de 18 e 19 de junho.
Em Bruxelas reúnem‑se então os chefes de Estado e de governo dos Estados‑Membros da UE, o presidente do Conselho Europeu e a presidente da Comissão Europeia. No centro das atenções estão a situação na Ucrânia e no Médio Oriente.
Merz fala ainda do aumento do número de criações de startups e de como a Alemanha pode lidar com as mudanças que se avizinham. "Ou receamos as mudanças, incluindo as que à partida significam também restrições", afirma Merz.
Em vez de fechar os olhos, a Alemanha tem de aproveitar as suas forças e potencial "para virar o rumo para todos". Por esta segunda via "foi que o seu governo optou", acrescenta.
Para se posicionar melhor, a Alemanha tem de aceitar "restrições" noutros domínios e para isso, deve apostar antes de mais na "iniciativa empresarial e na inovação tecnológica", da qual resultará também força social.
"Não é pouco o que já foi feito", diz Merz sobre as reformas já aprovadas. E outras continuam na agenda, entre elas a reforma dos cuidados, a reforma do Estado social e uma segunda reforma das pensões.
Os encargos devem ser distribuídos de forma "justa", explica o presidente da CDU. Merz apela à responsabilidade de todos para desenvolver o país de modo a que continuem a prevalecer na República Federal a "liberdade, prosperidade, justiça, segurança social e paz".
Merz: nova dívida europeia não resolve o problema
Para o chanceler "sem a Europa" estes objetivos seriam inatingíveis e que se sente como a Europa é apreciada em todo o mundo como "parceiro fiável".
A UE aproveita oportunidades para alargar relações comerciais e reduzir dependências. Repetidamente há países que, em conjunto com a União, querem preservar uma ordem mundial baseada em regras.
Para tornar a Europa competitiva, é preciso tornar também a Alemanha competitiva. A própria UE tem de ser reforçada. Para isso, é necessário reduzir a burocracia nos processos legislativos em Bruxelas.
Além disso, o novo quadro financeiro plurianual da UE (QFP) deve ser acompanhado de uma modernização profunda do orçamento europeu. Merz defende que, no futuro, os recursos comuns sejam usados para investimentos comuns, nomeadamente em soberania, competitividade e defesa.
"Nova dívida europeia não é solução", afirma o chanceler. No Bundestag ouve‑se gargalhada, possivelmente devido ao afrouxamento do travão da dívida que Merz aprovou no início do mandato com a ajuda do antigo Bundestag. Em campanha, tinha defendido essa regra com rigidez.
Ucrânia faz parte da Europa e, a prazo, da UE
Para enfrentar a ameaça da Rússia, deve ser reforçado o flanco leste da NATO. Além disso, a Alemanha apoia os esforços para uma solução negociada que ponha fim à guerra, possível apenas com a participação da Ucrânia, dos Estados Unidos e da Europa.
Merz reafirma que a Ucrânia pertence à Europa e, "numa perspetiva de longo prazo", também à UE. Há pouco, tinha proposto para a Ucrânia um estatuto de membro associado da União.
No discurso, o chanceler elogia ainda o ministro federal do Interior, Alexander Dobrindt (CSU).
A 12 de junho entra em vigor a reforma europeia do direito de asilo, também conhecida como "Sistema Europeu Comum de Asilo" (GEAS).
Segundo Merz, Dobrindt terá feito "esforços notáveis" para tornar este "êxito" possível e, com isso, iniciar uma viragem na política migratória.
Merz conclui afirmando que a Europa e a Alemanha têm de assumir a tarefa de se defender, na Europa, de "todas as tentativas de atacar o nosso modelo de vida assente na liberdade".
AfD aplaudida de pé pela própria bancada
Depois de Merz sobe à tribuna a líder da AfD, Alice Weidel. Classifica a declaração do governo como "canto fúnebre de um fracassado". Fala de um "tsunami de insolvências" e de um mercado de trabalho colapsado.
A deslocalização da indústria para o estrangeiro lembra‑lhe uma "fuga em massa". Diz que se poupa à custa de pensionistas e pessoas dependentes na Alemanha para financiar pessoas em países do "terceiro mundo".
Com os custos da migração, a ajuda ao desenvolvimento, a transição energética e o que chama de obsessão pela proteção do clima, seriam "desperdiçados" todos os anos montantes de milhares de milhões.
Merz tem, neste momento, duas opções: uma é pôr fim à "coligação de esquerda com o SPD" e procurar novas maiorias construtivas – referindo‑se, presumivelmente, ao seu próprio partido.
A segunda opção é esperar até que os cidadãos façam da AfD o partido mais forte nos estados federados "e depois a nível federal".
Weidel afirmou ainda que a AfD está pronta para "assumir responsabilidades". O seu discurso é recebido com uma ovação de pé da bancada da AfD.
Miersch: políticos da AfD "não são patriotas"
Depois de Weidel intervém o líder parlamentar do SPD, Mathias Miersch e critica o facto de Weidel nada ter dito sobre a Europa no seu discurso, quando a declaração do governo diz respeito ao Conselho Europeu.
Segundo Miersch, Weidel "não quer saber" da Europa. Os membros da AfD "não são patriotas", mas "exatamente o contrário": fazem causa comum com quem se opõe aos valores alemães e à própria Alemanha.
A Alemanha foi sempre "forte" quando juntou esforços e tentou ultrapassar divergências, afirma.
Considera acertado que na UE se discuta a forma de responder a ataques externos. A base industrial é um elemento essencial, sobretudo no que toca à política aduaneira e à concorrência desleal. O princípio "buy european", comprar europeu, deve ficar firmemente consagrado.
A Europa tem de prosseguir de forma coerente o caminho da independência, sobretudo na política energética. As energias renováveis significam independência e têm de continuar a ser reforçadas, sublinha o social‑democrata.
Verdes defendem sanções mais duras contra a Rússia
Britta Haßelmann, líder dos Verdes, critica o discurso de Weidel como um "espetáculo de propaganda" ao serviço dos interesses da AfD.
Garante que a AfD nunca determinará o futuro da Alemanha, o que é recebido com aplausos do SPD e dos Verdes. Os aplausos da CDU e da Esquerda são bem mais contidos.
A dirigente ecologista reclama sanções mais duras contra a Rússia e mais apoio à Ucrânia. Merz abana a cabeça. "Se levarmos a sério o que diz, então também têm de cumprir e não apenas falar", prossegue Haßelmann.
Sören Pellmann, líder parlamentar da Esquerda, afirma que a Alemanha há muito caiu para a "segunda divisão" no que toca à resolução diplomática de conflitos. O forte aumento do armamento no país levará, diz, a cortes sociais profundos. Montantes de milhares de milhões acabarão por perder‑se nos grandes grupos da indústria de defesa.