Num livro-investigação, Ezio Gavazzeni reconstrói um caso dos anos 90 nunca plenamente apurado. "Os snipers de fim de semana" expõe a rede que levava europeus a disparar sobre civis em Sarajevo. O autor explica à Euronews em que ponto está a busca dos responsáveis.
Quatro ministérios públicos europeus investigam uma organização que, durante a guerra na antiga Jugoslávia, levava cidadãos abastados a Sarajevo, para os transformar em atiradores furtivos, num macabro passeio turístico reservado sobretudo a fanáticos por armas, caça e, em alguns casos, extrema-direita.
Pelo menos três clientes da rede são investigados em Milão, outros dois na Áustria, e há inquéritos abertos também na Bélgica e na Bósnia e Herzegovina; um processo poderá ser formalizado em breve na Suíça, assim como uma interpelação no Parlamento Europeu.
Quem o revela é Ezio Gavazzeni, autor do livro_I cecchini del weekend. L’inchiesta sui safari umani a Sarajevo_ (editado pela PaperFIRST), atualmente em digressão por Itália para o apresentar.
Muitos “partiam à sexta-feira à tarde de via Mecenate” em Milão, de autocarro para o aeroporto de Trieste, conta à Euronews. Alguns usavam o de Parma e outros seguiam por mar a partir de Ancona, muitas vezes com primeira paragem em Belgrado ou em países vizinhos, para depois continuarem por terra até à frente da guerra civil.
Itália era assim o nó central destes turistas-atiradores furtivos, que chegavam de várias partes da Europa, do Canadá e dos Estados Unidos depois de receberem uma mensagem codificada por telefone: “Há veados para arqueiros”, revela Gavazzeni.
Como funcionavam os macabros safaris humanos de Sarajevo
No livro, o autor reconstrói o fluxo de estrangeiros que pagavam quantias elevadas para disparar das colinas que dominam Sarajevo. A obra está a ser traduzida em nove línguas (a primeira, em húngaro, saiu em 10 de junho).
Durante quatro anos, a partir de 1992, logo após a declaração de independência da República da Bósnia, a cidade esteve sob cerco pelas tropas federais jugoslavas e pelas milícias da minoria sérvia local, repetindo o que já acontecera um ano antes na Croácia após a secessão da Jugoslávia.
A primeira pista deste tráfico de atiradores furtivos remonta a um telefonema de 1993, feito por uma agência de segurança e por um ex-mercenário, que teria acompanhado clientes em pelo menos seis destes safaris.
O “Francês”, como a fonte é tratada no livro, “conta que foi contactado a partir de Londres por alguém que fazia parte de uma empresa que ainda existe”, explica Gavazzeni à Euronews.
“As inscrições para a Itália eram recolhidas por uma agência de Milão”, diz o Francês no livro, “por detrás estava a criminalidade organizada balcã ou russa e a sede principal que inicialmente dava luz verde ficava na Bélgica”, país com longa tradição de guerras de mercenários e de empresas de contractors.
No terreno havia depois recrutadores, “quase sempre ex-militares”, diz Gavazzeni, que contactou dois deles. Encontravam os aspirantes a atiradores furtivos em hotéis ou bares de baixa categoria, para onde eram encaminhados através do passa-palavra.
“Por vezes durante sessões em campos de tiro, porque é gente que gosta de armas”, ou em armerias e clubes de caça ou de veteranos, prossegue Gavazzeni. “Explicavam-lhes os preços, as possibilidades e o que era ou não permitido: em caso de acordo, eram colocados numa lista de espera para serem novamente contactados para a viagem”.
Quem permitiu a chegada da limpeza étnica aos Balcãs
A outra metade da organização operava na Sérvia e tratava de receber os clientes, facilitar a passagem pelas zonas de guerra, onde atuavam exércitos regulares e milícias paramilitares com múltiplos postos de controlo, e fornecer as armas.
Também sérvia era a companhia de voos charter turísticos Aviogenex, cujas infraestruturas, incluindo uma filial em Trieste, foram usadas para organizar estas caçadas a seres humanos, relata Gavazzeni no livro.
Depois de receberem a confirmação para se concentrarem em Milão para a partida, grupos de no máximo três atiradores furtivos eram transferidos, sobretudo, para Trieste e para o Friul-Veneza Júlia, a região italiana que faz fronteira com a antiga Jugoslávia.
A dona de uma guest-house local denunciou às autoridades que hospedara durante uma noite um grupo de homens, conta o autor, “que diziam ir para lá da fronteira disparar sobre civis” e que se descreviam a si próprios como “arqueiros” e falavam de “veados”.
Ou seja, no código já indicado pelo Francês, as vítimas que iriam encontrar poucas horas depois na Bósnia. A partir daí seguia-se para o objetivo definido por cada cliente, que determinava a tarifa a pagar.
Quanto pagavam os atiradores furtivos na Bósnia para matar impunemente
Os clientes-atiradores furtivos disparavam sobre civis desarmados que se deslocavam pelas ruas de Sarajevo à procura de comida e água, transformando-os em alvos humanos involuntários para o inimigo e, contra a própria vontade, para estes caçadores de fim de semana.
Os safaris decorriam em Sarajevo, mas também em Mostar e noutras cidades na linha da frente da guerra civil entre sérvios, bósnios e croatas.
Dos testemunhos recolhidos no livro resulta que os alvos mais cobiçados eram crianças e jovens mulheres atraentes. Para os matar, os clientes – sabemos agora, na sua maioria italianos – estavam dispostos a pagar cerca de 100 milhões de liras da época, mais de 100 mil euros atuais (em paridade de poder de compra, n.d.r.)”, diz-nos Gavazzeni.
No preçário seguiam-se as mulheres adultas, que custavam cerca de 70 milhões de liras, e os homens, em torno de 50 e, por fim, os maiores de 80 anos por cerca de 20 milhões. Todo esse dinheiro alimentava os vários elos do tráfico: das empresas europeias de segurança aos acompanhantes, passando pelos subornos a militares nos Balcãs.
São valores apenas ligeiramente inferiores aos revelados no livro publicado em abril, na Croácia, por Domagoj Margetić (fonte em inglês), Plati i Pucai! (Paga e dispara!, n.d.r.), baseado em documentos dos serviços secretos bósnios, que fala de 95 a 110 mil marcos alemães, consoante a presa, e aponta como organizadores figuras do establishment croata e sérvio com ligações ao Reino Unido e à Bélgica.
Segundo Margetić contou ao jornalista britânico do The Times, Tom Kington (fonte em inglês), os atiradores furtivos chegavam por mar aos portos adriáticos de Split e Zadar e daí eram levados até à fronteira e entregues aos sérvios.
Como mostram as tarifas, matar seres humanos respondia a pulsões perversas de empresários, advogados, médicos, notários e outros profissionais.
Não havia chauvinismo nem cruzadas religiosas ou étnicas, mas antes a vontade de acrescentar mais uma marca no cartucho disparado para mostrar em casa.
“A intenção do safari era lúdica, não política nem religiosa”, precisa Gavazzeni, com base no parecer da criminóloga Martina Radice, que analisou a transcrição dos testemunhos recolhidos.
Eram todos homens, “bem integrados no meio social em que trabalham e vivem”, pessoas respeitadas e com boa reputação que, “com esta prática de irem disparar sobre civis é como se afirmassem: sou um homem rico e bem-sucedido e posso até permitir-me matar alguém e voltar para casa impune”.
Também pelas mãos destas pessoas, durante o cerco a Sarajevo, morreram mais de 1600 crianças, “uma em cada dez abatida por um atirador furtivo”, recordou ao programa da Rai3, Presa Diretta, (fonte em italiano) o diretor da Associação de Pais das Crianças Mortas em Sarajevo e pai de uma delas, Fikret Grabovica.
Quem são e quantos são os italianos envolvidos nos safaris humanos
Nos anos noventa a Itália vivia a investigação Mãos Limpas, que varreu a Primeira República, os atentados da máfia contra magistrados e o Estado e a ascensão política de um empresário que personificava sucesso e poder, Silvio Berlusconi.
“As fontes falam de 230 italianos e de outras tantas pessoas provenientes de outros países”, sobretudo do Canadá, Estados Unidos e Rússia, precisa Gavazzeni, que já publicou cerca de uma dezena de livros.
O Ministério Público de Milão já ouviu pelo menos quatro pessoas envolvidas ou informadas sobre os factos. O primeiro, um octogenário do Friul, foi identificado graças ao trabalho da jornalista Marianna Maiorino, que localizou também um caçador da província de Alexandria que, na época, se alistara entre os paramilitares sérvios.
“Havia ingleses, franceses, alguns alemães e ex-militares italianos na reserva ou já reformados”, conta o homem, hoje com 64 anos, numa entrevista exclusiva ao Il Fatto Quotidiano, (fonte em italiano).
Alguns dos nomes identificados por Gavazzeni foram comunicados aos investigadores e não são revelados no livro, para não prejudicar o inquérito, aberto no ano passado após uma queixa apresentada pelo próprio autor, que fala também de naturais do Véneto e de alguns romanos, quase todos antigos frequentadores da caça à grande fauna selvagem em África e na Europa de Leste.
O inquérito prossegue com a acusação de homicídio múltiplo, agravado por motivos torpes, e tem entre as partes ofendidas o Município de Sarajevo, que nomeou para a sua representação dois juristas que colaboraram no livro, o ex-magistrado Guido Salvini e o advogado Nicola Brigida.
Caso dos atiradores furtivos de Sarajevo era conhecido, mas explode 30 anos depois
Já nos anos 90 tinham sido publicados artigos de jornal sobre o tema. O próprio Gavazzeni diz ter sabido dos atiradores de domingo “pelo Corriere della Sera e pela Stampa em março de 1995”, que divulgaram informações fornecidas pelo Tribunal Permanente dos Povos (fonte em italiano), uma organização de Bolonha que se ocupa de crimes cometidos contra povos e minorias.
Ainda assim, o que se passava era de domínio público nos Balcãs. “De cada dez pessoas com quem falava, sete diziam-me: vocês italianos vieram fazer bem aqui com a ajuda humanitária, mas também vieram disparar sobre nós a partir das montanhas”, recorda Luca Leone, jornalista e editor com longa experiência na região nesses anos, de que resultou o romance I Bastardi di Sarajevo (Edizioni Infinito, 2014). (fonte em italiano)
“Depois pedia para falar com testemunhas diretas, ou se havia fotografias ou filmagens que documentassem o que acontecera, mas as respostas eram sempre negativas”, prossegue Leone.
Os depoimentos, em 2007, de algumas testemunhas ao Tribunal Penal para a ex-Jugoslávia - que anos mais tarde acabaria por condenar parte da liderança sérvia e croata por crimes de guerra e contra a humanidade - descreviam ocidentais na frente que não respondiam aos exércitos e milícias locais e circulavam com roupas caras e espingardas de caça.
Para além de italianos e norte-americanos, indicavam russos, austríacos, alemães, ingleses e espanhóis, misturados com voluntários e mercenários chegados para combater ao lado dos nacionalistas sérvios.
A viragem, no entanto, “só chegou em 2022 graças a um documentário”, diz Gavazzeni.
Primeiros testemunhos públicos sobre os atiradores furtivos no Sarajevo Safari
Trata-se de Sarajevo Safari, do realizador esloveno Miran Zupanic. O filme contém (fonte em italiano) as declarações de um militar dos serviços de informações sérvios em serviço, naqueles anos, em Sarajevo, que soube por um prisioneiro sérvio da presença de cinco estrangeiros, três italianos e provavelmente dois acompanhantes, dispostos a disparar sobre civis.
Dizia também que por detrás do tráfico de caçadores estavam os serviços de segurança sérvios. Outro ex-militar acrescenta ter convivido com grupos de atiradores furtivos estrangeiros, “cavalheiros dos 35 aos 45 anos”, e tê-los visto em ação pelo menos sete vezes.
Os serviços de informação bósnios alertaram então as autoridades e os serviços secretos militares em Itália “e a resposta, poucos meses depois, foi que tinham sido mandados para casa e que a organização dos safaris tinha sido encerrada”, recordou Gavazzeni numa apresentação à imprensa estrangeira, no fim de maio, em Milão. “Esta última informação era falsa”.
A nota enviada às autoridades italianas e a respetiva resposta, bem como a ausência de medidas posteriores para travar o fenómeno, foram confirmadas por um diplomata italiano então em funções em Sarajevo.
O mesmo fez outra fonte de I cecchini del weekend. É um ex-007 apelidado de “Inominado”, segundo o qual “os nossos serviços estavam a par do que se passava”, mas “estavam demasiado ocupados com outras coisas” no caos da guerra civil.
Também os serviços franceses o sabiam, e, no entanto, “se essa informação tivesse vindo a público teria significado desacreditar pessoas” em posições de relevo e, assim, admite hoje Gavazzeni, “um pouco por todo o lado os serviços dos países ocidentais optaram pelo silêncio”.
Nas palavras dos entrevistados no livro, de facto, percebe-se uma combinação de reticências, ambiguidades e uma omertà generalizada, alimentada pelo medo imposto pelas respetivas comunidades de pertença.
Que desenvolvimentos se esperam das investigações na Europa
Até agora foram identificados sobretudo clientes. O Inominado forneceu, porém, aos magistrados de Milão nomes e detalhes da organização e várias testemunhas vieram a público, num efeito dominó que está a completar o quadro traçado em I cecchini del weekend.
Há ainda outro ponto a esclarecer: a morte de alguns destes caçadores, por algo que correu mal na frente, em nome da qual eram passados falsos certificados de óbito por AVC ou enfarte, contou o Francês.
Os magistrados que investigam o caso vão reunir-se em breve para trocar informações, por ocasião de uma reunião a 29 de junho na Eurojust, a agência da UE para a cooperação judiciária com sede em Haia.