O antigo ministro francês das Finanças defendeu dar novo impulso à União Europeia, unindo seis países centrais para agir nos dossiês-chave perante ameaças externas.
Trabalhar com uma coligação de seis países europeus centrais, em vez de 27, é a melhor forma de reforçar a Europa, afirmou o antigo ministro francês da Economia Bruno Le Maire à Euronews, à margem da cimeira do G7 em Évian, em França.
As declarações surgem numa altura em que a União Europeia procura formas de agilizar o seu processo de decisão e tornar‑se mais rápida a agir em questões fundamentais, da defesa à política externa.
"A grande lição que todos os líderes europeus devem tirar dos últimos meses, e diria mesmo dos últimos dois anos, é que, se querem ser relevantes e fortes, têm de estar unidos. E não precisam dessa união com os 27 Estados‑Membros", disse em entrevista à Euronews.
"Têm de dar um novo impulso à construção europeia, criando um projeto europeu com seis países centrais", sublinhou Le Maire, que foi o ministro da Economia e das Finanças há mais tempo em funções desde a Segunda Guerra Mundial e o ministro da Defesa com o mandato mais curto.
Le Maire enumerou França, Alemanha, Itália, Espanha, Polónia e Países Baixos — as seis maiores economias da UE — como os Estados que deveriam formar um núcleo duro para discutir as principais questões que se colocam ao bloco, desde o conflito no Irão e o apoio à Ucrânia à produção de chips em solo europeu e à energia nuclear.
"Seis países, em vez de 27, é a melhor forma de reforçar a Europa, enfrentar as ameaças colocadas por muitos impérios no mundo e obter resultados concretos", afirmou.
Le Maire apontou a pressão exercida pela administração norte‑americana sobre a UE, incluindo tarifas e ameaças relativas a normas regulatórias, em resposta às multas por práticas anticoncorrenciais e às regras digitais de Bruxelas que visam gigantes tecnológicos norte‑americanos como a Google e a Amazon.
"Já não podemos aceitar ser alvo de chantagem [...]. A forma como o presidente Trump e a administração norte‑americana dizem: 'Devem acabar com a tributação da Google, da Amazon, do Facebook e da Microsoft, caso contrário aplicarei novas tarifas', é totalmente inaceitável entre aliados", afirmou.
"Se quisermos resistir a esse tipo de ameaça, a esse tipo de chantagem [...], os seis Estados‑Membros europeus mais fortes têm de manter‑se unidos [...]. Se estivermos divididos, não conseguimos resistir a essa pressão", acrescentou.
"Se estivermos unidos, explicando que será difícil para os EUA acederem ao mercado europeu se não respeitarem a Europa como parceiro, essa é a melhor forma de obter resultados concretos."
Muita conversa, poucas decisões
Frequentemente bloqueada pelo princípio da unanimidade, a UE, disse Le Maire à Euronews, fica condenada a "longas conversas e muito poucas decisões" quando tenta chegar a um consenso entre 27 países, quando o que é preciso agora são "decisões firmes e menos conversa".
Imaginou uma estrutura em que os seis países centrais avançam nos dossiês e "depois os outros 21 Estados‑Membros, se quiserem aderir, aderem", acrescentando: "Antes de mais, avancemos".
A ideia desta coligação não é nova. Na verdade, já existe de alguma forma.
No início do ano, os ministros das Finanças da Alemanha, França, Itália, Países Baixos, Polónia e Espanha lançaram uma nova coligação, batizada de "E6", para defender "ação decisiva e progressos rápidos" em quatro áreas estratégicas: defesa, cadeias de abastecimento, União da Poupança e do Investimento e reforço internacional do euro.
"Estamos a dar o impulso, e outros países são bem‑vindos a juntar‑se a nós", afirmou na altura o ministro das Finanças alemão, Lars Klingbeil. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apoiou este conceito de Europa a duas velocidades como forma de reforçar a economia europeia.
Em maio, o E6 assinou uma carta conjunta a pedir a aceleração da União dos Mercados de Capitais (UMC), numa tentativa de desbloquear um acordo numa Bruxelas politicamente estagnada.
A UMC visa criar um mercado único e integrado de capitais em todos os 27 Estados‑Membros, ao serviço de empresas, investidores e consumidores.