Sem gasolina para civis, cortes de eletricidade e época turística cancelada: o que se passa na Crimeia anexada pela Rússia durante a campanha de Kiev para isolar a península de Moscovo?
Os representantes da ocupação russa na Crimeia anexada encerraram todos os campos de férias infantis, racionaram a venda de combustíveis apenas para responsáveis da administração e cancelaram todos os eventos públicos, numa altura em que a Ucrânia intensifica uma campanha de drones e mísseis contra a infraestrutura de combustível e energia da península.
A suspensão dos campos de férias entra em vigor a partir de segunda-feira até 1 de setembro e abrange a "reserva de lugares, a admissão e o alojamento de crianças e grupos de crianças em colónias de férias e centros de saúde infantis".
"Nas circunstâncias atuais, estas medidas são necessárias para garantir a segurança pública", afirmaram as autoridades instaladas por Moscovo.
No domingo, foram igualmente introduzidos cortes rotativos de eletricidade na Crimeia ocupada, devido a problemas de abastecimento de energia.
Alegadamente, registou-se uma interrupção parcial do fornecimento entre consumidores nos distritos energéticos do noroeste, centro e costa sul da península ocupada pela Rússia, devido a danos nas infraestruturas da rede elétrica.
Além disso, as autoridades de ocupação da Crimeia anunciaram a introdução de uma nova restrição à venda de gasolina na península, ao abrigo da qual o combustível só pode ser comprado por representantes da administração de ocupação.
As autoridades de ocupação instaladas por Moscovo anunciaram também que partes da península ficarão sem iluminação pública e que todos os eventos públicos foram cancelados.
O comandante das Forças de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia, Robert Brovdi, conhecido pelo indicativo de chamada "Madyar", afirmou numa publicação no Telegram que os ataques na noite de domingo tiveram como alvo terminais petrolíferos, compressores de gás e sistemas de radar na Crimeia ocupada.
Ucrânia intensifica campanha de ataques a alvos russos na Crimeia
O think tank norte-americano Institute for the Study of War (ISW), Instituto para o Estudo da Guerra em português, confirmou que as forças ucranianas mantêm a campanha de ataques para impedir a Rússia de sustentar a logística e transportar combustível através do estreito de Kerch.
Responsáveis militares ucranianos informaram, em 21 de junho, que as forças ucranianas atingiram o porto de Kavkaz, no istmo de Chushka, na região de Krasnodar, a nordeste da ponte de Kerch, incendiando o parque de tanques do complexo de transbordo de petróleo e o território do depósito de combustível.
As Forças de Sistemas Não Tripulados (USF) referiram que a Rússia depende do depósito de combustível no porto de Kavkaz para abastecer com combustível a Crimeia ocupada e o sul da Ucrânia.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, confirmou no domingo que um depósito de petróleo na Crimeia e uma instalação de transporte de petróleo na região de Krasnodar, no sul da Rússia, estiveram entre os alvos. Descreveu os ataques como parte da campanha de "sanções de longo alcance" da Ucrânia contra a Rússia.
A 414.ª Brigada Separada de Sistemas Aéreos de Ataque Não Tripulados "Magyar's Birds" — uma brigada de elite de guerra com drones das Forças Armadas da Ucrânia — chamou à Crimeia "uma mala sem pega" para Moscovo, admitindo, no entanto, que Moscovo "se agarrará à Crimeia até ao fim, como principal troféu da guerra".
"Parece não haver outra forma de desmilitarizar estes vermes e enxotar um milhão de ocupantes para fora da península. Este é um tipo de trabalho que conhecemos bem."
Cortar metodicamente a Crimeia da Rússia
A posição geográfica da Crimeia é, ao mesmo tempo, estrategicamente importante e invulgarmente complexa, situando-se entre a Ucrânia continental, a Rússia e a mais vasta região do mar Negro.
No norte, a Crimeia está ligada ao sul da Ucrânia ocupado por Moscovo por um estreito corredor terrestre através do istmo de Perekop e por uma teia de estradas e linhas ferroviárias que atravessam as partes da região de Kherson que estão sob ocupação desde o início de 2022.
Moscovo utiliza estas vias terrestres de comunicação para deslocar tropas, munições e combustível para a península.
É esta a zona que Kiev tem vindo a atacar sistematicamente para perturbar esses fluxos.
Além disso, as forças de Kiev estão também a atacar instalações de logística militar e infraestruturas energéticas do outro lado da ponte de Kerch, construída ilegalmente, a única ligação entre a Crimeia anexada e a Rússia.
O tabuleiro foi atingido em outubro de 2022 por uma bomba instalada num camião, que matou cinco pessoas, destruiu duas secções da ponte e levou a meses de reparações. Seguiram-se novos ataques à ponte em 2023 e 2025.
A primeira invasão da Ucrânia pela Rússia, lançada há 12 anos, começou com a anexação da Crimeia, uma península estrategicamente importante no sul da Ucrânia que se projeta para o mar Negro.
Desde então, a Ucrânia tem reiterado que, para Kiev, a guerra não será considerada totalmente concluída enquanto a Crimeia não for libertada, restituída à soberania ucraniana e devolvida à comunidade tártara da Crimenia, o povo autóctone da península.
Para Moscovo, a Crimeia é o troféu mais valioso da invasão e da guerra contra a Ucrânia, e é o território que a Rússia estará mais relutante em abandonar, se alguma vez o fizer.