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União Europeia reúne-se discretamente com talibãs em Bruxelas para acelerar deportações afegãs

Migrantes afegãos acampam junto a um centro de acolhimento em Bruxelas
Migrantes afegãos acampam junto a um centro de acolhimento em Bruxelas Direitos de autor  AP
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De Jorge Liboreiro & Vincenzo Genovese
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Responsáveis da UE e representantes talibãs reuniram-se em Bruxelas num encontro técnico para debater o regresso de afegãos sem direito a ficar na Europa e reforçar as repatriações.

Responsáveis da Comissão Europeia e de 15 Estados-membros reuniram-se discretamente com uma delegação talibã, na terça-feira, para tentar acelerar a deportação de migrantes afegãos para o país.

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Em Bruxelas, a reunião, cujos detalhes e local não foram divulgados, foi alvo de fortes críticas por parte de deputados progressistas e organizações da sociedade civil, por estabelecer contactos com um regime autoritário que viola regularmente os direitos humanos.

O encontro foi copresidido pela Suécia, um dos países com maior população afegã per capita. Realizou-se fora das instalações institucionais da Comissão e decorreu estritamente a nível técnico, devido à ausência de reconhecimento do governo talibã que assumiu o controlo do país em 2021.

As discussões centraram-se no regresso de migrantes afegãos em situação irregular "que cometeram crimes graves ou representam uma ameaça à segurança", afirmou um porta-voz da Comissão em comunicado. Os países europeus não conseguem muitas vezes repatriar estas pessoas, porque as autoridades afegãs não aceitam o seu regresso.

"É extremamente importante que estes criminosos sejam deportados", afirmou o ministro da Migração sueco, Johan Forssell, aos meios de comunicação locais. "E isso hoje não é possível. Eles não querem colaborar. Não querem regressar a casa."

Na Suécia, cerca de 200 cidadãos afegãos aguardam deportação, depois de condenados por crimes graves, como violação agravada e tráfico agravado de estupefacientes, explicou Forssell. Perante as críticas, defendeu que o seu governo tem de negociar com ditaduras em determinadas situações para "proteger os interesses suecos".

A Comissão não dispõe de dados sobre quantos afegãos em situação irregular são responsáveis por crimes graves ou representam uma ameaça à segurança na Europa.

No entanto, o convite dirigido aos talibãs, a que a Euronews teve acesso, refere apenas o regresso de "cidadãos afegãos sem direito de permanência na UE", sem mencionar a componente criminal. O executivo não confirmou a autenticidade do documento.

As conversações com os talibãs inserem-se numa estratégia mais ampla da UE para aumentar o regresso de migrantes em situação irregular aos países de origem, uma taxa que atualmente se situa nos 29% e mal se alterou nos últimos anos.

As deportações revelam-se particularmente difíceis no caso dos afegãos, que estiveram entre as principais nacionalidades alvo de ordens de regresso em 2025. Segundo a Eurostat, dos 14 270 cidadãos afegãos obrigados a deixar o bloco nos primeiros nove meses do ano passado, apenas 340 foram efetivamente enviados de volta, o que corresponde a uma taxa de regresso de 2%.

Entretanto, continuam as chegadas à Europa. Mais de 3 300 afegãos cruzaram irregularmente as fronteiras da UE nos primeiros quatro meses de 2026, sobretudo pela rota do Mediterrâneo Oriental, e mais de 63 000 cidadãos afegãos pediram asilo na UE em 2025 — 10% do total de requerentes de asilo.

Trata-se apenas de uma fração da diáspora afegã que fugiu à tomada do poder pelos talibãs em 2021. Estima-se que mais de 90% dos afegãos deslocados vivam em países vizinhos, sobretudo o Irão e o Paquistão.

Desde então, a Comissão deu o passo controverso de contactar os talibãs, sob crescente pressão das capitais. Em outubro, 19 Estados-membros e a Noruega assinaram uma carta a apelar a uma abordagem comum para reforçar as deportações, confirmando a disponibilidade para dialogar diretamente com Kabul para atingir esse objetivo.

Contactos técnicos decorrem há vários meses e a reunião de terça-feira foi considerada a continuação da visita de uma delegação da Comissão a Kabul, em janeiro.

"Capítulo vergonhoso para a Europa"

Desde a tomada de poder em 2021, após uma retirada apressada dos Estados Unidos, a UE não reconhece o regime talibã como governo legítimo do país e opta antes por uma política de denominado "envolvimento operacional".

Manter contactos com os talibãs é considerado uma linha vermelha por parte do Parlamento Europeu e da sociedade civil, que alertam que esta aproximação equivale à "normalização" das relações com um regime conhecido por violações generalizadas dos direitos humanos. O Afeganistão ocupa a 140.ª posição entre 142 países no Índice de Estado de Direito do World Justice Project.

Críticos levantam também dúvidas sobre a compensação financeira que Bruxelas poderá oferecer ao governo talibã em troca de aceitar de volta os seus cidadãos. A Comissão insiste que o diálogo, para já, não chega a compromissos políticos.

Eurodeputada socialista Cecilia Strada classificou a reunião de terça-feira como um "capítulo vergonhoso para a Europa", afirmando à Euronews que confere legitimidade "a um regime que espezinha os direitos das mulheres e das raparigas e impõe um sistema de apartheid de género".

Outra eurodeputada, Saskia Bricmont, dos Verdes, considerou "inaceitável" receber representantes de um regime "que oprime sistematicamente as mulheres, reprime toda a oposição e nega liberdades fundamentais".

Numa resolução não vinculativa recentemente aprovada pelo Parlamento, os deputados instaram a Comissão a manter o não-reconhecimento e a não-normalização dos talibãs. O texto lamentou igualmente a decisão de os convidar para Bruxelas.

Da mesma forma, foi suprimida de uma nova lei de migração uma disposição que teria permitido discussões sobre readmissão com entidades de países terceiros não reconhecidas.

O Conselho Europeu para os Refugiados e Exilados afirma que o Afeganistão não pode ser considerado seguro para regresso, devido ao agravamento da situação dos direitos humanos, à ausência de proteção jurídica efetiva e aos riscos contínuos de perseguição.

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