A Europa depende de tecnologia estrangeira, mas cidadãos pedem cada vez mais alternativas controladas pela UE: até onde vai a vontade de pagar pela soberania digital?
Cerca de 80% da infraestrutura e da tecnologia digitais da Europa vêm de fora da União Europeia.
O mercado digital é dominado por gigantes norte-americanos como a Google, a Microsoft e a Apple, e por conglomerados chineses como a Alibaba e a ByteDance, dona da TikTok.
Ainda assim, a maioria dos cidadãos da UE quer que a infraestrutura digital esteja sob controlo europeu, com inquiridos na Suécia (94%), Finlândia (93%) e Dinamarca (92%) a considerar que a União Europeia deve dar prioridade a estes investimentos, segundo o mais recente Eurobarómetro.
Ao mesmo tempo, os cidadãos da UE querem, de forma esmagadora, reduzir a dependência de tecnologias de fora da UE, de países como os Estados Unidos e a China.
Esta posição é especialmente forte entre os inquiridos na Suécia (88%) e na Alemanha, Dinamarca, Finlândia e Luxemburgo (todos com 87%).
Uma das razões para que este sentimento seja tão vincado nestes países tem a ver com "a forma como o sentido de urgência se reflete na sociedade e no debate público", afirmou ao Europe in Motion Johan Linåker, investigador sénior do instituto de investigação sueco RISE e professor auxiliar convidado na Universidade de Lund.
"Na Dinamarca, por exemplo, as ameaças dos Estados Unidos em relação à Gronelândia desencadearam reações e mobilização através de iniciativas de soberania digital, como a campanha pública "Danmark Skifter'", acrescentou Linåker.
"Danmark Skifter" foi uma campanha que decorreu nos primeiros três meses de 2026, destinada a desligar os ecrãs em determinados períodos ou a mudar para plataformas alternativas, menos viciantes.
O governo dinamarquês também reservou cerca de 6,96 milhões de euros (80 milhões de coroas) para o período entre 2026 e 2029, com o objetivo de garantir que o país reduz a dependência das grandes empresas tecnológicas.
Europa: cidadãos dispostos a abandonar tecnologia estrangeira?
Ainda assim, quando são questionados sobre a disponibilidade para mudar para um prestador de serviços digitais sediado na UE, mesmo que isso implique custos mais elevados, as opiniões divergem bastante entre Estados-membros.
Os inquiridos dinamarqueses (76%), suecos e croatas (ambos 73%) revelam maior disposição para essa mudança, enquanto os estónios (35%), búlgaros e checos (ambos 45%) registam os níveis mais baixos de concordância.
"Em alguns países, as ferramentas e a infraestrutura digitais são vistas como um bem de consumo e não como uma componente crítica da infraestrutura da sociedade, e as prioridades estão noutro lado — um padrão que se observa em certos países da Europa de Leste", afirmou Linåker.
Além disso, os homens mostram-se mais dispostos do que as mulheres a aceitar a mudança, e essa predisposição diminui acentuadamente com a idade, sendo os mais jovens os que se revelam mais favoráveis.
Maior segurança e fiabilidade são os principais fatores que levariam os cidadãos da UE a fazer a transição, sobretudo no caso de gregos (68%), finlandeses (67%) e suecos (64%).
Logo a seguir surge a melhor proteção dos dados pessoais, com as percentagens mais elevadas a registarem-se na Áustria (57%) e nos Países Baixos, Irlanda e Portugal (todos com 54%).
União Europeia: que medidas está a tomar?
Na semana passada, a administração Trump decidiu cortar o acesso estrangeiro aos modelos de inteligência artificial mais avançados da Anthropic, incluindo para os próprios funcionários estrangeiros da empresa.
A decisão veio confirmar os receios europeus de um "kill switch"(interruptor de emergência) e dar mais um impulso à agenda de soberania tecnológica.
No início deste mês, a Comissão Europeia apresentou o seu pacote de soberania tecnológica, destinado a reforçar o setor tecnológico interno do bloco, com grande enfoque na infraestrutura de cloud, nos serviços de IA, no software de código aberto e nos semicondutores.
A proposta legislativa prevê quatro iniciativas ao longo de todas as etapas da cadeia de valor, desde os semicondutores à infraestrutura, ao software, à cloud e à inteligência artificial.
O nível mais elevado, que abrange setores como a defesa e a saúde, exclui na prática empresas não europeias da adjudicação de contratos públicos. O objetivo é evitar um cenário de "kill switch", o risco de um governo estrangeiro poder simplesmente cortar o acesso a hospitais ou aviões de combate.
"De um modo geral, os países europeus, ou qualquer país, precisam de garantir a soberania e a resiliência das suas instituições digitais e do seu espaço digital, tal como fazem no plano físico", afirmou Linåker.
"Essencialmente, isso não implica substituir todas as soluções provenientes de países terceiros. Trata-se antes de identificar e avaliar os riscos associados às novas e às atuais dependências e de desenvolver as capacidades necessárias para os gerir", acrescentou.