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Ar condicionado, sim ou não: a batalha política pelo fresco

Peões passam junto de um aparelho de nebulização no bairro de Thissio, em Atenas, durante uma vaga de calor em julho de 2025.
Peões caminham junto a uma máquina de nevoeiro no bairro de Thisio, em Atenas, durante uma onda de calor, julho de 2025 Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De Estelle Nilsson-Julien & Tamsin Paternoster
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Responsáveis políticos franceses dividem-se ideologicamente sobre o ar condicionado, numa Europa a braços com calor recorde. O que dizem os especialistas?

Temperaturas abrasadoras em toda a Europa Ocidental, provocadas por uma onda de calor, transformam o ar condicionado num tema cada vez mais presente – e controverso – no debate público.

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Países europeus que, historicamente, não dependeram do ar condicionado enfrentam uma decisão complexa: apostar plenamente nesta solução – que, segundo especialistas, pode levantar preocupações ambientais e financeiras – ou resistir-lhe, procurando alternativas.

Em França, políticos que começam a preparar as campanhas para as presidenciais de 2027 agarraram o debate sobre o ar condicionado.

A líder da extrema-direita, Marine Le Pen, renovou os apelos a uma expansão do ar condicionado em todo o país, retomando uma promessa feita em 2025 de lançar um "grande plano de instalação de ar condicionado".

Um letreiro de uma farmácia mostra a temperatura de 41 graus Celsius (105,8 graus Fahrenheit) em Bordéus, no sudoeste de França, em 23 de junho de 2026
Um letreiro de uma farmácia mostra a temperatura de 41 graus Celsius (105,8 graus Fahrenheit) em Bordéus, no sudoeste de França, em 23 de junho de 2026 AP Photo

Já o rival da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, colocou-se no lado oposto da discussão: "Não podemos instalar ar condicionado em todo o lado. É uma falsa solução que agrava o problema", afirmou, defendendo um melhor isolamento dos edifícios.

Na plataforma X, de Elon Musk, vários utilizadores apresentaram a falta de ar condicionado na Europa como uma escolha ideológica, politizada e mal informada, em contraste direto com a dependência dos Estados Unidos desta tecnologia. Argumentam que a decisão do Velho Continente de não a generalizar deixa os cidadãos expostos a temperaturas insuportáveis, sem acesso a espaços frescos.

Dados do Google Trends da última semana mostram que as pesquisas por "instalação de ar condicionado em casa" em França aumentaram 130% desde que as temperaturas começaram a subir, num padrão semelhante ao registado em vários países europeus, à medida que os residentes procuram formas de enfrentar o calor.

Europa: qual é a posição sobre o ar condicionado?

O recurso ao ar condicionado na Europa é reduzido em comparação com outros continentes, em particular a América do Norte e a Ásia, com apenas cerca de 19% a 20% dos agregados familiares a disporem deste sistema.

De acordo com uma análise do Boston Consulting Group, com base em projeções da Agência Internacional da Energia, o número de unidades de ar condicionado na UE pode atingir 275 milhões até 2050, mais do dobro dos níveis registados em 2019.

Entre os países europeus, os países com climas mais quentes lideram, como seria de esperar, em número de aparelhos de ar condicionado.

A Itália lidera, respondendo por mais de um terço de toda a eletricidade usada para ar condicionado nos 27 Estados-membros da União Europeia, segundo o Eurostat. Este consumo ascende a quase 23.000 terajoules, num total de pouco mais de 60.000 em todo o bloco.

Seguem-se a Grécia, França e Espanha no consumo de eletricidade das famílias para arrefecimento dos espaços.

Porque é que a Europa quase não usa ar condicionado?

Há vários fatores que explicam porque é que a Europa, historicamente, não generalizou o uso de ar condicionado.

Um deles é o facto de as alterações climáticas terem feito subir as temperaturas globais, tornando os episódios de onda de calor cada vez mais frequentes em países que, tradicionalmente, tinham climas mais amenos e, por isso, não sentiam necessidade de recorrer em massa ao ar condicionado.

Em declarações à equipa de verificação de factos da Euronews, The Cube, Vincent Viguié, investigador do Centro Internacional de Investigação sobre o Ambiente e o Desenvolvimento (CIRED), sediado em Paris, diz: "Durante muito tempo – na verdade, até agora – com o clima do século XX e dos períodos anteriores, o ar condicionado não era realmente útil na maior parte do território metropolitano francês, porque o clima era ameno tanto no inverno como no verão". "Isso está a mudar com as alterações climáticas", acrescenta.

Embora grandes partes da Europa tenham sido afetadas pelas temperaturas durante a mais recente onda de calor, estes níveis teriam sido quase impossíveis há apenas algumas décadas, segundo cientistas do projeto World Weather Attribution (WWA). Os investigadores usaram dados observados e previstos de temperatura para analisar o período de três dias mais quente desta vaga de calor.

O WWA concluiu que tanto as temperaturas máximas diurnas como as mínimas noturnas teriam sido "praticamente impossíveis de ocorrer nesta altura do ano" ainda em 1976, há apenas 50 anos.

Especialistas avaliam necessidade de ar condicionado na Europa

Embora os responsáveis políticos muitas vezes apresentem a questão como uma escolha entre instalar ar condicionado ou rejeitá-lo por completo, especialistas ouvidos pela Euronews dizem que a realidade é mais complexa.

A evidência disponível indica que o ar condicionado pode desempenhar um papel importante na proteção das pessoas durante ondas de calor, ao reduzir os riscos de saúde associados ao calor, sobretudo em grupos vulneráveis, como idosos, doentes hospitalizados e pessoas com doenças crónicas.

Antonio Gasparrini, professor de bioestatística e epidemiologia na London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM), afirma que há "claramente provas" de que o ar condicionado está associado a menores riscos de saúde relacionados com o calor.

Embora o impacto seja difícil de quantificar, descreve-o como "uma das medidas de saúde pública mais diretas para enfrentar, a curto prazo, os efeitos imediatos do calor", sublinhando, no entanto, que deve integrar estratégias de longo prazo.

Entre essas medidas, aponta o reforço do isolamento dos edifícios e soluções de ordenamento urbano que protejam melhor as cidades do calor.

Pierre Masselot, epidemiologista ambiental na mesma instituição, refere que os estudos associam um maior uso de ar condicionado a uma redução da mortalidade relacionada com o calor nas últimas décadas, mas que isso parece explicar apenas cerca de um quinto da melhoria global.

"Diria que é claramente útil, sobretudo para as populações mais vulneráveis", afirmou Masselot. "No entanto, isto também levanta questões de equidade, já que o ar condicionado individual nem sempre é utilizado por quem é mais vulnerável."

"Há ainda a reserva de que é muito difícil dispor de dados de qualidade sobre a posse e a utilização de ar condicionado, sendo que estes dados são, em parte, extrapolações", acrescentou.

Ar condicionado faz mal à saúde?

Embora alguns críticos do ar condicionado defendam que faz mal à saúde e pode provocar doenças, especialistas sublinham que a tecnologia em si não é, por natureza, o problema.

Primrose Freestone, professora associada de microbiologia clínica na Universidade de Leicester, disse ao The Cube que sistemas de ar condicionado bem mantidos podem até melhorar a qualidade do ar interior, ao filtrar pólen e partículas em suspensão.

Os riscos surgem quando os filtros não são devidamente mantidos, limpos ou substituídos. Unidades negligenciadas podem, por exemplo, albergar microrganismos nocivos, incluindo a legionella.

Impacto ambiental do ar condicionado

Apesar de o ar condicionado poder proteger as pessoas durante episódios de calor extremo, a sua generalização acarreta custos ambientais.

Os sistemas de refrigeração aumentam a procura de eletricidade, sobretudo durante as ondas de calor e, se forem alimentados por combustíveis fósseis, podem contribuir para as emissões de gases com efeito de estufa.

Estes sistemas expulsam ainda calor residual para o exterior, o que pode agravar o efeito de ilha de calor urbana, tornando ainda mais quentes as zonas densamente edificadas, e aumentar a pressão sobre a rede energética, com risco de cortes de eletricidade.

Viguié considera que o debate não deve ser colocado como uma escolha entre instalar ar condicionado e rejeitá-lo: "A questão não é ter ou não ter ar condicionado", explicou. "O essencial é perceber como se isola um edifício do calor."

Acrescenta que, embora hospitais e outras estruturas que acolhem pessoas vulneráveis precisem de sistemas de refrigeração fiáveis, a necessidade de instalar ar condicionado noutros edifícios depende do grau de isolamento e de proteção contra o sobreaquecimento de que já dispõem.

Esta questão é particularmente relevante em França e noutras partes da Europa Ocidental, onde milhões de pessoas vivem em edifícios concebidos, historicamente, para reter o calor no inverno e que, com a maior frequência de períodos de temperaturas elevadas, revelam agora as suas limitações.

Uma manta térmica cobre uma janela para ajudar a manter o calor do lado de fora durante uma onda de calor em Saint-Germain-en-Laye, a oeste de Paris, quinta-feira, 25 de junho de 2026.
Uma manta térmica cobre uma janela para ajudar a manter o calor do lado de fora durante uma onda de calor em Saint-Germain-en-Laye, a oeste de Paris, quinta-feira, 25 de junho de 2026. AP Photo

Segundo o especialista em construção Julien Hans, diretor de investigação e inovação do Centro Científico e Técnico da Construção (CSTB), cerca de metade do parque edificado existente em França não cumpre os critérios de sobreaquecimento que passaram a ser exigidos nas novas construções.

Para Hans, o ar condicionado "deve ser instalado em paralelo com outras soluções".

"Em primeiro lugar, dando prioridade à redução do efeito de ilha de calor; em segundo, protegendo as fachadas e as janelas dos edifícios e, só depois, isolando os telhados", explicou. "Se aplicar todas estas medidas, é possível manter condições de vida satisfatórias sem recurso sistemático ao ar condicionado na maioria dos casos."

Hans acrescentou que, em França, o debate se focou excessivamente na questão de se estar "a favor ou contra" o ar condicionado, em vez de se centrar na adaptação dos próprios edifícios a um clima mais quente.

De acordo com Viguié, medidas como instalar estores, aumentar as zonas de sombra e plantar árvores podem, muitas vezes, ser implementadas de forma relativamente rápida.

Já as reabilitações mais profundas, como o reforço do isolamento dos edifícios contra o calor, são mais difíceis e têm sido travadas por obstáculos administrativos e financeiros.

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