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Espanha aposta em canhões eletromagnéticos, a arma do futuro

O canhão eletromagnético que está a ser desenvolvido pela Acquisition, Technology & Logistics Agency, instalado no JS Asuka, da Marinha japonesa.
Canhão eletromagnético em desenvolvimento pela Acquisition, Technology & Logistics Agency, instalado no JS Asuka, da Marinha japonesa Direitos de autor  Cortesía de la Fuerza Marítima de Autodefensa de Japón / Wikimedia Commons
Direitos de autor Cortesía de la Fuerza Marítima de Autodefensa de Japón / Wikimedia Commons
De Rafael Salido
Publicado a
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Espanha tem-se concentrado em tecnologias que, até há pouco tempo, pareciam pertencer ao domínio da ficção científica: os “railguns”, canhões que utilizam campos eletromagnéticos, em vez de explosivos químicos, para acelerar projéteis a velocidades muito superiores às da artilharia tradicional.

Num contexto de corrida tecnológica e militar à escala mundial para modernizar as capacidades de defesa, o Ministério da Defesa de Espanha decidiu incluir os canhões eletromagnéticos, também denominados "railguns", entre as prioridades da sua estratégia de inovação. Esta tecnologia, integrada na Estratégia de Tecnologias e Inovação para a Defesa (ETID), publicada em março deste ano, representa uma aposta em novas armas que poderão alterar de forma radical o funcionamento da artilharia e das defesas aéreas nas próximas décadas.

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Que é um canhão eletromagnético?

Ao contrário dos canhões tradicionais, que usam pólvora ou propelentes químicos para lançar um projétil, os canhões eletromagnéticos recorrem a campos eletromagnéticos para o acelerar a velocidades extremas, com o objetivo de atingir o alvo através da energia cinética que adquire no processo.

"Prevê-se que os canhões eletromagnéticos sejam instalados sobretudo em navios e armazenem a eletricidade gerada pela embarcação no seu sistema de alimentação pulsada, para depois enviar um pulso elétrico para o canhão, criando uma força eletromagnética e lançando o projétil", detalha no seu site a Missile Defense Advocacy Alliance (MDAA).

O sistema é composto por dois carris condutores paralelos, daí a designação "railgun", pelos quais passa uma corrente elétrica de muito alta intensidade. Essa corrente gera um campo magnético que, ao interagir com ela, impulsiona o projétil ao longo dos carris e para fora do canhão a velocidades que podem ultrapassar vários milhares de quilómetros por hora, atingindo ou superando velocidades hipersónicas.

"A quantidade de energia elétrica necessária para o canhão dependerá, entre outros fatores, do alcance pretendido e da cadência de tiro que se queira obter", detalha o relatório "A artilharia naval do futuro: o canhão eletromagnético", elaborado por Pedro Ramón Saura e publicado pela Marinha espanhola. "Hoje em dia, a tecnologia existente permite dispor deste tipo de canhão e, além disso, a conjuntura estratégica torna-o desejável devido ao tipo de ameaças que enfrentam as marinhas dos países integrantes da NATO".

A ausência de explosivo no projétil faz com que a destruição do alvo dependa da própria energia cinética do impacto. Uma das grandes vantagens é que se reduzem os riscos associados ao armazenamento e ao manuseamento de explosivos, permitindo um desenho mais compacto e seguro das munições.

Espanha aposta na adoção dos canhões eletromagnéticos

O Ministério da Defesa espanhol destaca que o desenvolvimento de armas eletromagnéticas foi integrado entre as prioridades tecnológicas no âmbito da ETID, que procura modernizar e adaptar as capacidades das Forças Armadas perante ameaças emergentes.

O documento sublinha a importância de desenvolver tanto armas de energia dirigida (como lasers ou sistemas de radiofrequência) como armas eletromagnéticas, para aplicações de defesa, armazenamento de energia e controlo de potência, bem como a sua possível integração em plataformas terrestres ou navais.

"Não se trata apenas de dispor de sistemas avançados, mas de contar com uma base industrial e tecnológica nacional capaz de os desenvolver, produzir e manter de forma autónoma, promovendo a capilaridade do setor e reduzindo dependências críticas que possam comprometer a nossa liberdade de ação em momentos decisivos", defende a secretária de Estado, María Amparo Valcarce, citada na Estratégia de Tecnologia e Inovação para a Defesa.

Este impulso junta-se a programas industriais e académicos que exploram como gerir e fornecer grandes quantidades de energia elétrica pulsada, uma das principais limitações tecnológicas destes sistemas até agora.

Contexto internacional: um campo de inovação em aberto

O interesse pelas "railguns" não é exclusivo de Espanha. Historicamente, centros de investigação militar dos Estados Unidos e da Europa exploraram esta tecnologia como alternativa de longo alcance para a artilharia naval, com ensaios e protótipos capazes de lançar projéteis acima de Mach 5 (mais de cinco vezes a velocidade do som) e com alcances teóricos de até 100 milhas náuticas ou mais.

Embora no passado a Marinha norte-americana tenha reduzido temporariamente o seu investimento em canhões eletromagnéticos, devido a desafios técnicos e orçamentais, nos últimos anos verificou-se um novo impulso dado pelo Pentágono.

Há já seis anos, um relatório do Centro de Investigação do Congresso dos EUA assinalava que estas armas "estão a ser desenvolvidas por múltiplos ramos do Departamento de Defesa, não apenas pela Marinha"

Por outro lado, várias iniciativas conjuntas na União Europeia reuniram instituições como o Instituto Franco-Alemão de Investigação de Saint-Louis para estudar como integrar as "railguns" em futuros sistemas militares, o que evidencia o interesse internacional por esta tecnologia em aplicações estratégicas.

Há três anos, a Agência Europeia de Defesa (EDA) encomendou um estudo aprofundado para avaliar a viabilidade dos canhões eletromagnéticos como sistemas de artilharia de longo alcance. A análise, dotada de 1,5 milhões de euros, foi financiada no quadro da Ação Preparatória de Investigação em Defesa (PADR) da Comissão Europeia e centrou-se no potencial disruptivo desta tecnologia face à artilharia convencional.

O estudo analisou ainda a combinação do canhão com novos projéteis hipervelozes e a sua integração em plataformas tanto terrestres como navais, abrindo caminho a um futuro sistema de artilharia complementar, com implicações operacionais e estratégicas de longo alcance.

Que vantagens oferecem face à artilharia tradicional?

Os defensores desta tecnologia sublinham várias vantagens potenciais em relação à artilharia convencional:

  • Velocidade e alcance: os projéteis podem atingir velocidades hipersónicas, reduzindo o tempo de voo e aumentando o alcance efetivo.
  • Menor custo por disparo: ao eliminar explosivos, o custo unitário e os riscos logísticos do armamento diminuem de forma significativa.
  • Integração em plataformas modernas: a utilização em navios ou sistemas terrestres pode complementar outras capacidades de defesa e ataque em cenários de alta intensidade.

Estas vantagens são, contudo, acompanhadas de desafios técnicos significativos, entre os quais se destacam a necessidade de fontes de energia extremamente potentes e de sistemas capazes de suportar as enormes forças físicas geradas em cada disparo.

Futuro da defesa passa pela eletricidade

A inclusão dos canhões eletromagnéticos na estratégia de defesa espanhola não responde apenas a uma moda tecnológica, mas ao reconhecimento de que as armas de energia dirigida e de cinética elétrica - juntamente com outras capacidades digitais e de controlo - irão dominar o panorama de segurança nas próximas décadas.

"Qualquer destas novas armas, se for desenvolvida e colocada em operação com êxito, poderá ser considerada um fator decisivo para a defesa dos navios de superfície da Marinha contra mísseis e veículos aéreos não tripulados inimigos", concluía o relatório do Centro de Investigação do Congresso dos EUA.

A abordagem estratégica oficial coloca estas tecnologias como ferramentas essenciais para proteger infraestruturas, neutralizar ameaças aéreas e reforçar as capacidades de defesa face a sistemas cada vez mais sofisticados.

À medida que os projetos avançam dos laboratórios para protótipos mais maduros, a ambição de Espanha passa por se posicionar como um ator relevante num campo que, para lá das suas implicações militares, representa um ponto de viragem na relação entre energia, tecnologia e poder no século XXI.

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