Após um longo período de retração, sobretudo nos anos da crise económica, a indústria de defesa grega parece recuperar novamente dinamismo
A indústria de defesa grega parece entrar numa nova fase de reestruturação e maturidade tecnológica, numa altura em que a evolução dos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente redefine as prioridades dos Estados e das forças armadas em todo o mundo. A necessidade de maior flexibilidade operacional, de aproveitamento da inteligência artificial, de desenvolvimento de sistemas não tripulados e de reforço da autonomia tecnológica trouxe para primeiro plano a importância da inovação na defesa.
Na Grécia, o papel central neste esforço cabe ao Centro Helénico de Inovação em Defesa, que assinalou dois anos de funcionamento com um balanço que mostra tanto a mobilização do ecossistema nacional como os primeiros resultados concretos ao nível das aplicações operacionais.
Como explica à Euronews o diretor-executivo do organismo, Pantelis Tzortzakis, o principal feito deste primeiro biénio foi a criação de um mecanismo capaz de atuar em duas frentes: registar as necessidades das Forças Armadas e, em paralelo, mapear as capacidades tecnológicas existentes no mercado grego, nas universidades e nos centros de investigação.
"O mais importante é que se criou uma equipa que conseguiu desempenhar um duplo papel: identificar as necessidades operacionais das Forças Armadas e, ao mesmo tempo, auscultar o ecossistema, ver que produtos e serviços foram desenvolvidos no país e como podem ser combinados", refere.
A filosofia do Centro Helénico de Inovação em Defesa afasta-se da lógica tradicional de financiar ideias de investigação. "Não partimos da ideia. Partimos de um produto que já está num nível de maturidade tecnológica 6 ou 7. O 1 é a ideia e o 9 é o produto final. O nosso objetivo é levá-lo ao 9", sublinha Tzortzakis.
Esta abordagem já começa a dar resultados. De acordo com os dados apresentados no balanço de dois anos, três projetos de inovação foram concluídos e outros seis estão em curso. Em paralelo, três novos projetos de Investigação e Desenvolvimento deverão arrancar ao longo de junho de 2026.
Entre os projetos que já passaram à fase operacional conta-se o sistema de guerra eletrónica "Centauro", desenvolvido pela Indústria Aeroespacial Helénica com o apoio do Centro Helénico de Inovação em Defesa. Estão igualmente em utilização, ou em fase avançada de desenvolvimento, sistemas de reconhecimento e vigilância, entre outras aplicações resultantes de parcerias com empresas e entidades de investigação gregas.
"Temos um conjunto de projetos que já estão a ser usados pelas Forças Armadas e há vários que, ainda este ano, entrarão em produção", referiu Tzortzakis.
As lições da guerra e das operações no Médio Oriente influenciaram diretamente as prioridades do ecossistema de defesa grego. O debate internacional centra-se agora nos sistemas autónomos e não tripulados, que estão a transformar profundamente a forma como se conduzem as operações.
"Os sistemas autónomos e não tripulados são extremamente importantes. Mas não podem substituir o ser humano. Podem assumir muitas funções, mas a decisão final tem de continuar a caber à pessoa, sobretudo quando falamos de sistemas de armas", salienta Tzortzakis.
Investimentos em investigação e capital humano
Paralelamente aos programas operacionais, o Centro Helénico de Inovação em Defesa investe no desenvolvimento de recursos humanos e de know-how. Já foram atribuídos mais de 1,3 milhões de euros a seis projetos de investigação de Instituições Militares de Ensino Superior, e estão a ser financiados 12 projetos de doutoramento, número que se prevê duplicar. Ao mesmo tempo, está a ser implementado pela primeira vez no país um programa de formação do MIT para as Forças Armadas, centrado na robótica marítima e nos sistemas autónomos.
Também é relevante a presença grega no Fundo Europeu de Defesa. Segundo os dados apresentados pelo Centro, foram submetidas 410 propostas à Comissão Europeia, das quais 57 foram aprovadas, sendo que 34 incluem participação grega. No total, 61% das propostas aprovadas contam com participação da Grécia, o que evidencia o reforço gradual da posição do país no ecossistema europeu de defesa.
Ganha igualmente relevo o desenvolvimento de tecnologias de dupla utilização. O relatório "A Dual Use Nation: Startups" (Uma nação de dupla utilização: as startups), elaborado em parceria com a Endeavor Greece, retrata um mercado em forte expansão. Setenta e seis por cento das startups afirma desenvolver tecnologias de dupla utilização, 63% atua na inteligência artificial e 49% considera que a Grécia pode conquistar uma vantagem competitiva na defesa através da sua utilização.
Em paralelo, 84% das startups planeia captar capital nos próximos doze meses e 50% dos fundos de investimento declara que já investe ou tenciona investir neste domínio nos próximos dois anos. Através da iniciativa Pitch Arena, mais de 55 empresas emergentes procuraram financiamento superior a 100 milhões de euros ao longo de 2026.
Contudo, como nota Tzortzakis, o desafio não se resume ao financiamento. "É preciso mudar de mentalidade. Aceitar que o fracasso nos pode tornar melhores. O importante é que as empresas encontrem um primeiro cliente e se adaptem às necessidades operacionais reais".
No mesmo plano coloca a questão da transparência nas aquisições de defesa. "A transparência é absolutamente indispensável. Mas, quando se transforma em burocracia, muitas vezes deixa de produzir resultados. É preciso tomar decisões rápidas, testar mais do que uma solução e escolher a melhor", afirma.
A olhar para o futuro, o Centro Helénico de Inovação em Defesa prepara já uma ação conjunta de desenvolvimento entre Estados com a francesa Agência de inovação de defesa, com arranque previsto para 2027 e focada em sistemas integrados de defesa aérea e naval e em capacidades de colaboração entre vários domínios.
Para Tzortzakis, o desenvolvimento do ecossistema de defesa é um processo que exige tempo e perseverança estratégica. "Há áreas em que podemos produzir resultados imediatos, outras que precisam de reforço e outras em que temos de começar do zero. É como na agricultura: onde há trigo, ceifas; onde é pequeno, pões fertilizante; e onde não há, lanças semente".
O esforço de reorganização da indústria de defesa grega insere-se na estratégia global de reforma das Forças Armadas promovida pelo Ministério da Defesa Nacional. Na cerimónia que assinalou os dois anos de atividade do Centro, o ministro da Defesa Nacional Nikos Dendias sublinhou que _"_a inovação na defesa constitui um pilar fundamental da Defesa Nacional", destacando que o país tem de evoluir e alterar o seu modelo produtivo. Segundo afirmou, trata-se de um instrumento decisivo para articular as necessidades operacionais das Forças Armadas com as capacidades da investigação, da indústria e da inovação gregas, numa altura em que a autonomia tecnológica e a resiliência na defesa ganham um peso estratégico crescente.
Depois de um longo período de retração, sobretudo nos anos da crise económica, a indústria de defesa grega dá sinais de recuperar dinamismo. Se este esforço se traduzirá numa base produtiva robusta, em exportações e em verdadeira mais-valia operacional para as Forças Armadas, ver-se-á nos próximos anos. Pela primeira vez em várias décadas, porém, o debate já não diz respeito apenas a armamento comprado no estrangeiro, mas também a tecnologias concebidas, desenvolvidas e testadas na Grécia.