Anúncio-surpresa de demissão surgiu numa altura em que Farage é investigado no parlamento por ocultar um donativo de 5,8 milhões de euros de um magnata das criptomoedas com residência na Tailândia
O político britânico anti-imigração Nigel Farage enfrenta a perspetiva embaraçosa de disputar diretamente uma eleição relâmpago com o candidato satírico habitual, o Conde Binface, depois de ter decidido abandonar o parlamento.
Esta decisão inesperada pode virar-se contra ele, depois de os outros grandes partidos confirmarem que não iriam concorrer à eleição intercalar.
O Conde Binface, que se descreve como um "guerreiro espacial intergaláctico", é até agora a única outra pessoa que disse que se iria candidatar.
Que anúncio fez Farage?
Num discurso televisivo na terça-feira, o líder do partido de extrema-direita Reform UK anunciou que se demitia do cargo de deputado por Clacton, círculo eleitoral no sudeste de Inglaterra que representava desde julho de 2024.
O anúncio inesperado surgiu numa altura em que Farage é alvo de uma investigação parlamentar por não ter declarado uma doação de 5 milhões de libras (5,8 milhões de euros) do multimilionário das criptomoedas Christopher Harborne, com residência na Tailândia.
A doação foi feita pouco antes de Farage ser eleito deputado e foi revelada no início deste ano pelo jornal The Guardian, que noticiou na terça-feira que banqueiros levantaram junto da Agência Nacional do Crime a suspeita de que poderia tratar-se de dinheiro lavado.
Farage, cujo partido lidera as sondagens nacionais, enfrenta ainda um escrutínio sobre alegadas ofertas separadas de George Cottrell, empresário de criptomoedas de 32 anos, anteriormente condenado por fraude.
Farage insiste que não fez nada de errado e acusa os adversários no parlamento de utilizarem as investigações sobre escândalos como "instrumento político" contra si.
Num exercício de espetáculo típico do militante do Brexit de 62 anos, Farage afirmou que iria procurar a reeleição, apresentando a votação como uma eleição intercalar "povo contra sistema".
Como reagiram os outros partidos?
O Partido Trabalhista no poder, os Conservadores, principal formação política da oposição, os Liberais Democratas, centristas, e os pequenos partidos Verdes, de esquerda, e Restore Britain, de extrema-direita, deitaram por terra os planos de Farage ao anunciar que não apresentariam candidatos à eleição intercalar.
O primeiro-ministro cessante, Keir Starmer, classificou a iniciativa de Farage como uma "manobra desesperada" de alguém "metido até ao pescoço em escândalos", enquanto a líder conservadora Kemi Badenoch a descreveu como uma "eleição intercalar falsa" destinada a provocar uma distração.
Rupert Lowe, que rompeu com Farage no ano passado e criou o Restore como alternativa de extrema-direita que tem corroído o apoio ao Reform, qualificou a eleição proposta como uma "farsa desnecessária".
Que poderá acontecer a seguir?
Uma pessoa já se apresentou para anunciar que irá desafiar Farage: o Conde Binface, alter ego do comediante Jon Harvey, que concorre regularmente às eleições britânicas com a sua cabeça em forma de caixote do lixo e uma longa capa.
"Serei um candidato de unidade e prometo construir pelo menos uma casa a preços acessíveis", escreveu na terça-feira numa publicação na rede X, acrescentando sobre Farage: "Deixem-no comigo".
Outra possibilidade é que um candidato independente credível anuncie que vai concorrer, à semelhança do antigo jornalista da BBC Martin Bell, que conseguiu conquistar um lugar no parlamento em 1997.
O especialista em sondagens John Curtice disse à BBC que Farage esperava "um circo político muito significativo", mas poderá acabar com um "fiasco relativo" se ninguém o desafiar a sério.
Se Farage vencer, o que se segue?
A decisão de Farage de se demitir significa que a investigação de Daniel Greenberg, comissário parlamentar para as normas, à doação de Harborne fica suspensa.
Os Liberais Democratas instaram o governo a bloquear a eleição intercalar até que o inquérito possa ser concluído. Se avançar, deverá realizar-se no prazo de 35 dias.
Farage venceu confortavelmente em Clacton em 2024, com uma maioria de 8 405 votos e mais de 46% da votação.
Se for reeleito, a investigação deverá provavelmente ser retomada.
Se se concluir que Farage violou as regras, poderá ser suspenso da Câmara dos Comuns e poderá ser desencadeada outra eleição intercalar.