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Da promessa de trabalho à escravatura moderna: portugueses apanhados nas redes de tráfico

Enganados com promessas de emprego: portugueses explorados no estrangeiro
Enganados com promessas de emprego: portugueses explorados no estrangeiro Direitos de autor  Foto de Tim Mossholder na Unsplash
Direitos de autor Foto de Tim Mossholder na Unsplash
De Ana Filipa Palma
Publicado a Últimas notícias
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Dois portugueses viveram décadas em exploração laboral em Espanha. Os casos recente revelados pela Polícia Judiciária expõem uma realidade não tão visível: o tráfico de seres humanos também atinge cidadãos portugueses e aproveita-se principalmente dos mais vulneráveis.

Durante 30 anos, um português viveu em exploração laboral em Espanha. Outro permaneceu na mesma situação durante 15 anos. Ambos foram resgatados em maio de 2025, como informou um comunicado do final de junho, deste ano, da Polícia Judiciária, a propósito da operação "Mãos Livres".

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O caso não é isolado. Ainda em junho de 2025, a operação "Mãos Duras" resgatou cinco vítimas de exploração laboral na região de Logronho, também em Espanha. Dois anos antes, a "Operação Worker" permitiu retirar 15 portugueses de situações descritas pelas autoridades como "escravatura moderna" no país vizinho.

Portugueses explorados, em alguns casos em situação de escravidão, parece-nos uma realidade muito longínqua, mas os dados não deixam margem para equívocos. Apesar de Portugal ser predominantemente um país de destino para o tráfico de seres humanos, também é um país de origem e trânsito.

"Pessoas fragilizadas", "carências económicas", "processos de exclusão social" ou "vulneráveis" são expressões que surgem em todos os comunicados da Polícia Judiciária para descrever as vítimas.

Em entrevista à Euronews, Nuno Gradim, técnico superior da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), explica que este tipo de crime só existe quando "há um quadro de vulnerabilidade".

"Estas redes operam junto de alvos mais fáceis, que exigem menos convencimento, porque as pessoas vivem processos de enorme desgaste, falta de oportunidades, ausência de rendimentos ou desemprego estrutural", explica.

No caso mais recente, da operação "Mãos Livres", os dois homens apresentavam "défice cognitivo", o que os tornou alvos mais fáceis de recrutar e controlar durante tantos anos, situação que, "juridicamente falando, já ultrapassa o crime de tráfico de pessoas e passa a configurar um crime de escravatura", esclarece Nuno Gradim.

Os dados mais recentes mostram que a exploração laboral constitui a principal finalidade do tráfico de seres humanos, sobretudo nos setores da agricultura, construção civil, agropecuária, indústria têxtil, restauração, atividades desportivas e trabalho doméstico.

Segundo o RASI de 2025, o Observatório do Tráfico de Seres Humanos (OTSH) rececionou 307 registos. No entanto, como cinco foram classificados como "não confirmados" e 97 como "não considerados por ONG/outras entidades", a amostra válida passou a ser de 205 casos.

Dessa amostra, 34 casos dizem respeito a vítimas portuguesas recrutadas em território nacional: 20 para exploração laboral em Portugal e 14 no estrangeiro, sobretudo nos setores da agricultura e da viticultura, sendo Espanha o principal país de destino.

As presumíveis vítimas são maioritariamente do sexo masculino, adultas entre os 26 e os 64 anos, acrescenta o RASI.

Espanha tem aparecido como o país de destino para muitos portugueses explorados em campos agrícolas
Espanha tem aparecido como o país de destino para muitos portugueses explorados em campos agrícolas AP Photo

Vulnerabilidades que alimentam o tráfico

Pessoas com historial de consumo problemático de substâncias, como o álcool, em situação de sem-abrigo ou oriundas de famílias mais desestruturadas continuam a ser as mais visadas por este tipo de crime.

"As pessoas que são sinalizadas pelas nossas equipas são, muitas vezes, pessoas que perderam, por algum motivo, ao longo do seu percurso, as suas redes de suporte e os seus laços familiares, acabando por viver um pouco à margem", explica à Euronews Vanessa Branco, psicóloga e coordenadora da Equipa Especializada para Assistência a Vítimas de Tráfico de Seres Humanos da Delegação Norte da Associação para o Planeamento da Família.

A associação, com intervenção social e comunitária desde 1967, iniciou em 2008 uma resposta específica de apoio às vítimas de tráfico de seres humanos em Portugal, sobretudo para responder aos casos de exploração sexual. Foi, assim, a primeira ONG portuguesa a prestar apoio especializado e assistência nesta área do tráfico de seres humanos.

Vanessa Branco alerta que ninguém está completamente imune ao tráfico de seres humanos e que, por vezes, as situações de vulnerabilidade surgem associadas a problemas sociais ou contextos de crise, como os conflitos armados. Recorda, por exemplo, que em 2012, devido à crise económica e à elevada taxa de desemprego em Portugal, muitas pessoas foram aliciadas através de falsas ofertas de trabalho. Por isso, considera que a atual crise da habitação poderá também constituir um fator que contribui para o agravamento deste fenómeno.

"Se uma pessoa não tem onde viver e lhe oferecem um emprego com alojamento incluído, pode aceitar. E, se esse trabalho e essa habitação forem num local isolado, pode acabar numa situação deste tipo", alerta a psicóloga.

Sinais de alerta

Salários muito acima da média, alojamento gratuito, transporte pago e contratação imediata. São este tipo de promessas feitas nos anúncios desta redes de tráfico de seres humanos.

"Um dos principais sinais de alerta é claramente uma oferta de emprego que parece demasiado boa para ser verdade, com demasiadas regalias, demasiadas facilidades, extremamente apelativa e estimulante para quem procura trabalho", explica Nuno Gradim.

Outros sinais de alerta podem surgir numa fase mais avançada do recrutamento, como a assinatura de contratos numa língua que a pessoa não compreende, a ausência de contrato, viajar acompanhada por outras pessoas na mesma situação ou a oferta de pagamento antecipado de despesas, como viagens. "Isso cria uma dívida que facilita o controlo da vítima pelos exploradores", esclarece.

Nuno Gradim refere ainda que muitos destes sinais passam despercebidos às vítimas que, na maioria das vezes, só percebem a fraude quando chegam ao destino e constatam que o trabalho prometido não corresponde ao acordado ou que "as condições são completamente diferentes".

"Por exemplo, o salário até pode ser o mesmo, mas depois têm de descontar a alimentação e a estadia, acabando por receber um valor irrisório."

Inteligência artificial pode ser nova arma para traficantes

Se antigamente o recrutamento era feito sobretudo através do "passa a palavra", por familiares, conhecidos ou amigos de amigos, atualmente as redes sociais e a inteligência artificial facilitam o contacto com potenciais vítimas.

"O grande desafio que hoje se coloca às instâncias internacionais e, em particular, a Portugal e à União Europeia, são as redes sociais e os meios tecnológicos. O recurso à inteligência artificial vai aumentar cada vez mais a capacidade destas redes para criarem uma aparência de legitimidade, através de páginas falsas extremamente bem construídas", afirma Nuno Gradim.

O alerta é reforçado pelas Nações Unidas. No âmbito do Dia Mundial contra o Tráfico de Pessoas, assinalado a 30 de julho, o UNODC lança a campanha "Trapped Behind the Scam", ("Presos no Esquema) dedicada à utilização da internet e das plataformas digitais para recrutar vítimas para esquemas de fraude financeira também pela internet.

"Ela acreditava que tinha controlo sobre a situação"

Na maioria dos casos existe um padrão de mecanismos de controlo por parte das redes de tráfico, que inclui restrição da liberdade de circulação, ameaças diretas ou indiretas, intimidação, violência física e psicológica, retenção de documentos e apropriação dos rendimentos das vítimas.

Há situações que se prolongam durante anos devido ao medo de fugir e à pressão psicológica constante.

Vanessa Branco explica que existem casos particularmente complexos em que a vítima desenvolve uma vinculação traumática ao explorador, motivada por um historial de vida marcado pela desestruturação familiar, pela falta de acesso a cuidados básicos ou pela ausência de relações afetivas seguras.

"Em algumas circunstâncias, as pessoas que exploram são simultaneamente as pessoas que cuidam. Cria-se uma vinculação traumática: 'esta pessoa obriga-me a trabalhar, mas dá-me casa, dá-me comida e, sem ela, eu não teria este apoio'. É esta a narrativa que começa a ser construída", explica, acrescentando que os exploradores "são muito hábeis" a alimentar essa perceção.

A psicóloga, que trabalha há dez anos na área do tráfico de seres humanos na Associação para o Planeamento da Família, afirma que ajudar as vítimas a tomarem consciência do processo de exploração continua a ser um dos maiores desafios, sobretudo no caso dos migrantes explorados em Portugal.

Muitas vítimas nunca viveram num ambiente seguro, onde se sentissem protegidas, pudessem expressar as suas opiniões ou tomar decisões sobre a própria vida. Por isso, resistem frequentemente quando lhes é oferecida assistência, por não conseguirem imaginar uma realidade diferente daquela que sempre conheceram.

Também o caso de uma idosa explorada em servidão doméstica durante vários anos mostrou como as vítimas desenvolvem mecanismos psicológicos de defesa que as impedem de reconhecer a violência de que são alvo.

Tratava-se de uma mulher com pouco mais de 70 anos que realizava todas as tarefas domésticas e cuidava dos filhos da família. "Foi inicialmente sinalizada como uma possível vítima de violência doméstica", recorda Vanessa Branco.

"Havia a perceção de que até as próprias crianças maltratavam a senhora, porque reproduziam aquilo que viam os pais fazerem, numa lógica de maltratar a empregada da casa. Além disso, nunca recebeu qualquer remuneração pelo seu trabalho e permaneceu nestas condições durante muitos anos", explica.

Apesar disso, a vítima desenvolveu a convicção de que controlava a situação e de que conseguia impor limites, "o que não era verdade".

A dificuldade em reconhecer a exploração também torna o combate ao tráfico de seres humanos particularmente complexo.

Dificuldades de combater o tráfico humano

A identificação de sinais de alerta e a sinalização de potenciais vítimas são também desafios no combate ao tráfico de seres humanos, uma vez que exige uma forte cooperação transnacional entre as autoridades policiais e os operadores de investigação dos diferentes países.

“Quando existem cidadãos portugueses vítimas no estrangeiro, torna-se necessária uma cooperação transnacional, envolvendo um conjunto de mecanismos de interoperabilidade que têm de estar assegurados. No espaço da União Europeia, existem instrumentos que permitem agilizar a articulação entre as diferentes forças de investigação”, explica Nuno Gradim.

Para Vanessa, o combate passaria também por um cenário quase "utópico" onde uma sociedade mais justa conseguiria oferecer os recursos e respostas necessárias às pessoas que estão em situação de vulnerabilidade, diminuindo a hipótese destas situações.

"Trabalharmos no sentido de uma sociedade mais justa e uma sociedade que protege as pessoas que precisam, e um estado social forte e robusto que consegue dar resposta aos problemas sociais que vão surgindo", diz.

Por outro lado, a sensibilização continua a ser uma resposta muito forte. "Falar sobre estas equipas, falar sobre este crime, dizer às pessoas que isto existe, para que elas tenham cuidado consigo e para que tenham também a capacidade de olhar à volta e identificar possíveis situações de vitimação por este crime", conclui.

A prevenção e a identificação precoce são fundamentais para retirar as pessoas de situações de exploração.

Portugal tem registado progressos no combate ao tráfico de seres humanos, congratulado recentemente por um grupo de peritos do Conselho da Europa sobre tráfico de seres humanos, GRETA, contudo também referiu a necessidade de melhoria no que toca à identificação das vítimas e na facilitação do acesso à assistência jurídica e a uma indemnização.

***

Em Portugal, a Linha Nacional de Apoio a Vítimas de Tráfico de Seres Humanos é o +351 964 608 288. Esta linha de emergência da Associação para o Planeamento da Família (APF) funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana.

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