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França: fogos perto de Bordéus agravam crise do vinho

Enólogo Edouard Le Grix de la Salle cuida das vinhas da propriedade familiar Grand Verdus, em Sadirac, na região de Bordéus, sudoeste de França.
O viticultor Edouard Le Grix de la Salle trata das vinhas na propriedade familiar Grand Verdus, em Sadirac, na região de Bordéus, no sudoeste de França. Direitos de autor  The Associated Press. All rights reserved
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De Gael Camba
Publicado a Últimas notícias
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Um grande incêndio florestal alastra há quase uma semana na região de Bordéus, afetando a época turística. O fumo tóxico dos fogos prejudica pessoas, animais e vinhas.

Os incêndios florestais já devastaram 42 mil hectares na Gironde, na região de Bordéus. Embora as vinhas continuem protegidas das chamas, os viticultores receiam que as uvas adquiram uma “nota de fumo” se os fumos dos fogos chegarem às plantas.

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As uvas estão ainda na fase de véraison: de pequenos bagos verdes começam a transformar-se em frutos maiores, de cor bordô ou dourada. É uma fase decisiva da maturação das uvas, em que o fumo pode alterar o aroma do vinho.

Alguns vinhos têm naturalmente notas de cinza provenientes de outras fontes, mas se esse sabor se sobrepuser aos aromas frutados, os produtores podem decidir desclassificar a colheita ou vendê-la a granel a destilarias, apenas para aproveitamento do álcool.

“Se estivéssemos mais perto da vindima, que deverá começar dentro de três semanas, poderia ter sido muito mais grave”, disse ao diário francês “Le Figaro” Séverine Bonnie, do château Malartic-Lagravière, situado a apenas 20 quilómetros das chamas.

Cachos de uvas pendem numa vinha da propriedade vinícola Grand Verdus, em Sadirac, na região de Bordéus, no sudoeste de França.
Cachos de uvas pendem numa vinha da propriedade vinícola Grand Verdus, em Sadirac, na região de Bordéus, no sudoeste de França. Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved

Nessa altura da vindima, o fumo pode impregnar seriamente as uvas, embora nem todas as vinhas expostas ao fumo sejam necessariamente afetadas. Ventos fortes, tempo de exposição ao fumo e condições meteorológicas podem alterar o sabor das uvas.

“Em Bordéus, não só ainda estamos na fase de véraison, como podemos esperar que as trovoadas lavem quaisquer bagos que possam ter sido afetados”, disse ao “Le Figaro” Édouard Moueix, proprietário de vários châteaux na região de Bordéus.

França: cheiro a “apocalipse económico”

Os incêndios, que já devastaram uma área quatro vezes superior à de Paris e obrigaram 220 mil pessoas a abandonar casas e algumas das atrações turísticas da região, ameaçam penalizar uma economia francesa já sob pressão.

“É um apocalipse físico quando se vê todos estes locais onde já não resta nada além de casas e florestas queimadas, e depois há o apocalipse económico”, afirmou Patrick Seguin, presidente da câmara de comércio regional, com a voz embargada pela emoção.

Vai ser uma punhalada nas costas daquilo que resta da nossa economia
Patrick Seguin
Presidente da câmara de comércio regional da área de Bordéus

Edouard Le Grix de la Salle é um dos empresários que se preparam para tempos difíceis. Os apelos do governo francês para que se evite a região estão a causar consternação.

“É incrível terem dito uma coisa destas, sobretudo numa altura em que o enoturismo se torna cada vez mais importante”, afirmou Le Grix de la Salle.

O lendário vinho de Bordéus tem visto o consumo cair à medida que os jovens optam por outras bebidas e aumenta a concorrência das vinhas estrangeiras. As tarifas impostas pelo presidente norte-americano Donald Trump deram aos produtores — e a grande parte da economia mundial — uma ressaca adicional.

Setor do vinho já em crise

“O negócio do vinho está em crise há vários anos e a situação agrava-se com os problemas geopolíticos, a inflação generalizada e o facto de o vinho estar a sair de moda entre os mais jovens”, disse Le Grix de la Salle.

“O turismo era realmente a única parte dinâmica do negócio que continuava a crescer, tanto para nós como, de forma mais geral, para os vinhos de Bordéus”, acrescentou. “E agora isto surge como um travão.”

A propriedade vinícola Grand Verdus, da família, fica a cerca de 35 quilómetros dos incêndios que lavram desde a semana passada na outra margem do rio Garona, que atravessa Bordéus. Os fogos afetaram apenas uma pequena parte da região da Gironde, mas o impacto na sua reputação é significativo.

“Como é que não pensaram em proteger esse setor? E o setor cultural também. Há tanto para visitar em Bordéus. Há tantos museus, há châteaux. É inacreditável”, afirmou Le Grix de la Salle.

A região do sudoeste francês está repleta de destinos de férias que atraem turistas com praias de areia fina, châteaux produtores de vinho, alguns dos maiores pinhais de França e a histórica cidade de Bordéus, classificada como Património Mundial da UNESCO. A baía de Arcachon, rica em ostras, seduz os amantes da gastronomia, mas os incêndios e as evacuações esvaziaram alguns dos locais mais procurados.

A câmara de comércio indica que 39 mil empresas foram afetadas na região, um polo das indústrias de defesa e aeroespacial, que inclui grupos como a Airbus, a Dassault e a Thales.

Mesmo antes dos incêndios, a câmara de comércio já alertava que o aumento dos custos da energia estava a comprimir os lucros. Cerca de 94% das empresas que responderam a um inquérito regional em meados de julho referiram enfrentar dificuldades.

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