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Seis momentos que vão marcar o outono diplomático de Grécia, Turquia e Chipre

Kyriakos Mitsotakis-Recep Tayyip Erdogan
Kyriakos Mitsotakis-Recep Tayyip Erdogan Direitos de autor  AP
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De Foteini Doulgkeri
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As decisões dos próximos meses e os equilíbrios que vierem a definir-se determinarão se este outono diplomático trará mudanças concretas ou se ficará pela gestão da crise.

Agosto costuma ser um mês de menor intensidade política e diplomática, mas, nos bastidores, já decorrem os preparativos para uma agenda particularmente carregada em setembro.

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Atenas, Nicósia e Ancara entram numa fase em que serão postos à prova os equilíbrios das relações greco-turcas, a evolução da questão cipriota e as dinâmicas geopolíticas mais amplas do Mediterrâneo Oriental, numa conjuntura ainda marcada pela guerra em Gaza, pela situação na Síria e pelo conflito que continua na Ucrânia.

Os próximos dois meses incluem uma série de momentos-chave que deverão definir o clima diplomático até ao final do ano.

Assembleia Geral da ONU pode reunir Mitsotakis e Erdogan

O principal acontecimento diplomático de setembro continua a ser a Assembleia Geral das Nações Unidas, que reúne grande parte dos líderes mundiais.

A presença do primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, do Presidente cipriota, Nikos Christodoulides, e do Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, abre espaço para contactos. À margem da Assembleia decorrem também reuniões com líderes, ministros dos Negócios Estrangeiros e organizações internacionais.

Embora ainda não tenha sido oficialmente marcada uma nova reunião entre Mitsotakis e Erdogan, fontes diplomáticas consideram setembro o momento mais provável para um novo contacto, caso as condições o permitam. No ano passado, porém, o encontro previsto à margem da Assembleia Geral acabou por ser cancelado, sem que as duas partes chegassem a acordo sobre os motivos da anulação.

Atenas insiste na necessidade de manter abertos os canais de comunicação, sublinhando, ao mesmo tempo, que o diálogo não implica qualquer alteração das posições da Grécia quanto à delimitação das zonas marítimas e ao Direito Internacional do Mar.

Numa recente entrevista à ERT News, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Giorgos Gerapetritis, frisou que a manutenção dos canais de comunicação com a Turquia e a desescalada não significam uma mudança das posições gregas. Reafirmou que o diálogo só pode avançar com base no Direito Internacional, sendo que Atenas reconhece como única divergência greco‑turca a delimitação das zonas marítimas.

Do lado turco, Ancara continua a defender a sua própria agenda alargada, o que mantém importantes divergências entre as duas partes.

Questão cipriota: dinâmica atual e próximos passos da ONU

Em Nicósia, o foco está na tentativa de manter viva a iniciativa sob a égide das Nações Unidas.

O Governo cipriota procura preservar a dinâmica registada nos últimos meses, com o objetivo de reforçar a confiança e criar condições para uma retoma mais substantiva das negociações.

Ao mesmo tempo, a parte turco-cipriota mantém a exigência de igualdade soberana e de uma solução assente em dois Estados, posição que continua a colidir com as resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

Há também expectativa em torno da nova reunião entre o Presidente da República de Chipre, Nikos Christodoulides, e o líder da comunidade turco-cipriota, Tufan Erhürman.

Segundo um comunicado do Governo cipriota, o encontro insere-se na preparação da convocação de uma nova conferência alargada, com vista à retoma de negociações substanciais a partir do ponto em que foram interrompidas, com base no quadro já acordado e nas convergências alcançadas.

Turquia e União Europeia: relações em análise

Nas próximas semanas deverá prosseguir, no seio da União Europeia, o debate sobre as relações com a Turquia. No centro da discussão está a atualização da União Aduaneira entre a Turquia e a UE, em vigor desde 1995.

Ancara pretende rever este enquadramento, alargando a cooperação a áreas como os serviços, os contratos públicos e a agricultura, defendendo que o acordo atual já não corresponde à dimensão das relações económicas com a União Europeia.

Bruxelas mostra-se disponível para analisar essa possibilidade, mas condiciona qualquer avanço à evolução global das relações entre a UE e a Turquia, bem como aos desenvolvimentos em matérias como o Estado de direito, as relações de boa vizinhança e a situação no Mediterrâneo Oriental.

Para Atenas e Nicósia, a questão central é saber se a melhoria da cooperação económica será acompanhada por progressos efetivos nos dossiês políticos em aberto. A Grécia insiste que a única divergência greco-turca passível de discussão diz respeito à delimitação das zonas marítimas, nomeadamente da plataforma continental e da Zona Económica Exclusiva (ZEE), com base no Direito Internacional. Em paralelo, Nicósia acompanha de perto a evolução da questão cipriota, onde subsiste o desacordo fundamental quanto ao modelo de solução.

Na agenda europeia mantêm-se temas como a atualização da União Aduaneira, a cooperação em matéria migratória, a liberalização de vistos para cidadãos turcos e a avaliação global da postura da Turquia na região.

Para Atenas, qualquer avanço nas relações entre a União Europeia e a Turquia continua a estar associado à preservação da estabilidade no Egeu e no Mediterrâneo Oriental.

Turquia: conceito de "Pátria Azul" mantém-se no discurso oficial

O debate na Turquia em torno de um projeto de lei sobre zonas marítimas de jurisdição tem suscitado preocupação em Atenas e atenção da União Europeia, embora, para já, se limite a informações de bastidores e não seja claro se, e quando, será apresentado.

A Alta Representante da UE, Kaja Kallas, afirmou nos últimos dias que Bruxelas acompanha de perto essas informações e sublinhou esperar que a Turquia respeite os direitos soberanos dos Estados-membros, o Direito Internacional e os princípios de boa vizinhança. A UE reiterou que a abstenção de ações unilaterais é condição para uma relação mais cooperante com Ancara. Foi ainda esclarecido que a entidade mencionada em algumas notícias como envolvida na preparação do texto não é financiada por fundos europeus.

Apesar de, até ao momento, não ter sido apresentada qualquer iniciativa legislativa oficial no Parlamento turco, a "Pátria Azul" continua a ser um elemento central da narrativa estratégica da Turquia sobre as zonas marítimas e o Mediterrâneo Oriental. O dossier permanece sob atento escrutínio de Atenas, sobretudo tendo em conta os próximos passos do diálogo greco-turco.

Grécia: agenda de defesa entra em fase crucial

O outono deverá ser decisivo também para a agenda de defesa da Grécia, coincidindo com etapas importantes dos principais programas de armamento e com uma participação mais ativa do país na nova arquitetura europeia de defesa.

Na Marinha, 2026 perfila-se como um ano-chave para o programa das fragatas Belharra. Após a integração da primeira fragata, "Kimon", a segunda FDI grega, "Nearchos", deverá ser entregue à Marinha por volta de outubro de 2026, enquanto a terceira, "Formion", está prevista para o final do ano, reforçando de forma significativa as capacidades operacionais da frota grega no Egeu e no Mediterrâneo Oriental.

Em paralelo, Atenas procura tirar partido dos novos instrumentos europeus de financiamento da defesa. Através do programa SAFE (Security Action for Europe), a Grécia garantiu 787,7 milhões de euros para reforçar capacidades críticas, como a defesa aérea, os sistemas de combate a drones, as munições e o desenvolvimento da indústria de defesa nacional.

Ganha também particular relevância geopolítica o debate sobre a participação de países terceiros no SAFE, com a Turquia no centro das atenções. Atenas sublinha que a cooperação europeia em matéria de defesa deve assentar no respeito pelos princípios de boa vizinhança e pelo Direito Internacional.

O grande desafio para a Grécia passa agora por transitar de uma fase de grandes aquisições de armamento para um modelo mais integrado de poder militar, que conjugue novos sistemas de armas, financiamento europeu, desenvolvimento tecnológico e reforço da base produtiva nacional.

Grécia - Líbia: diálogo sobre zonas marítimas

No calendário diplomático do outono, o processo de delimitação das zonas marítimas entre a Grécia e a Líbia deverá manter-se entre as prioridades. A 27 de julho realizou-se, em Atenas, a terceira ronda de conversações técnicas entre as duas partes, na sequência de contactos anteriores em Atenas e em Trípoli.

Embora não tenha sido anunciado qualquer acordo nem um calendário específico para a conclusão das negociações, Atenas considera que a continuação das conversações técnicas representa um passo importante para definir um quadro de diálogo assente no Direito Internacional do Mar.

O ponto central continua a ser a delimitação das zonas marítimas a sul de Creta, com a Grécia a insistir que as ilhas têm plenos direitos em matéria de zonas marítimas e que o memorando turco-líbio de 2019 não produz efeitos jurídicos.

O próximo passo crucial passa por manter o processo ao nível técnico e avaliar até que ponto será possível aproximar as posições das duas partes, numa conjuntura em que o Mediterrâneo Oriental continua a ser palco de forte competição geopolítica.

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