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Euroviews. Planos da FIFA: caso Infantino expõe falhas na governação do futebol

Ebru Köksal, antiga conselheira da FIFA e da UEFA
Ebru Köksal, antiga conselheira da FIFA e da UEFA Direitos de autor  (C) Ebru Köksal
Direitos de autor (C) Ebru Köksal
De Ebru Koksal is a former adviser to FIFA and UEFA, finance and football expert
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As opiniões expressas neste artigo são da responsabilidade do autor e não representam a posição editorial da Euronews.

A antiga conselheira da FIFA e da UEFA, especialista em finanças e futebol, Ebru Koksal denuncia falhas de governação, transparência e representatividade, usando o caso Infantino para tirar lições para o mundo empresarial.

A retirada da proposta FIFA Forward Enterprise pode ter encerrado uma polémica. Não deve pôr fim ao debate sobre governação.

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O episódio levanta questões que vão muito para além de uma transação ou de um órgão dirigente. Quem toma as maiores decisões no futebol? Quem é consultado antes de essas decisões serem tomadas? E de onde vem o escrutínio independente?

Em essência, trata-se de questões de gestão responsável. Os dirigentes do futebol são depositários temporários de instituições que não criaram e que devem perdurar para além deles.

Não têm apenas a responsabilidade de maximizar as oportunidades comerciais, mas de deixar essas instituições mais fortes, mais credíveis e mais resilientes.

Conselho de administração deve testar decisões importantes

Isso torna-se crucial numa altura em que o futebol entra numa nova era comercial. O capital privado não é, por si só, o problema. O futebol precisa de investimento, que pode trazer conhecimento especializado, inovação e crescimento. Mas, à medida que as estruturas de propriedade e de exploração comercial se tornam mais sofisticadas, a governação tem de evoluir ao mesmo ritmo.

Decisões transformadoras exigem uma governação igualmente rigorosa: uma fundamentação clara, consultas significativas às partes interessadas, escrutínio independente e confiança de que os interesses de longo prazo da instituição foram devidamente ponderados.

O conselho de administração deve ser o lugar onde as decisões importantes são testadas e aperfeiçoadas, não apenas onde se ratificam decisões moldadas noutros fóruns.

Administradores independentes não executivos são uma mais-valia

Isto é uma das razões pelas quais defendo há muito que os organismos de tutela do futebol beneficiariam de administradores independentes não executivos. Os conselhos mais fortes combinam um conhecimento profundo da organização com pessoas capazes de pôr em causa pressupostos, fazer perguntas incómodas e trazer experiência de outros setores.

Não se trata de um argumento novo. Em 2023, a Women in Football lançou a agenda Open Doors depois de a FIFA ter convidado as mulheres a “empurrar as portas” e dizer o que era preciso mudar no futebol. A nossa resposta foi que as estruturas por detrás dessas portas têm de estar, elas próprias, à altura da missão.

A agenda Open Doors defendeu maior transparência nas nomeações, liderança verdadeiramente diversa, representação independente não executiva, mandatos com duração definida, mecanismos eficazes de proteção e de denúncia, e uma representação significativa de quem trabalha e joga no futebol.

Limites de mandato reduzem concentrações de poder

Estas propostas são muito mais do que medidas de diversidade. Reforçam o escrutínio, criam processos de recrutamento transparentes e reduzem o risco de redes fechadas. Limites de mandato reduzem concentrações de poder. Sistemas de reporte eficazes tornam a responsabilização real. A representação muda quem está na sala. A governação determina se essas vozes podem, ou não, fazer a diferença quando lá chegam.

Os mesmos princípios aplicam-se muito para lá dos organismos internacionais de governação. A experiência do Reading Women, cuja equipa foi retirada do Championship depois de o clube-mãe ter deixado de a financiar, mostrou como decisões motivadas por realidades financeiras podem ter consequências muito mais amplas.

Mais abaixo na pirâmide competitiva, os problemas financeiros do Ebbsfleet United, detido por Abdulla Al-Humaidi, que levaram à suspensão do clube na National League, lembram-nos que os padrões de governação não podem ficar reservados às instituições mais ricas do futebol. Situações de dificuldade financeira raramente surgem de um dia para o outro. Os sinais de alerta no caso do Ebbsfleet estão bem documentados. Conselhos de administração robustos deveriam fazer perguntas sobre sustentabilidade, risco e estrutura de propriedade antes de jogadores, trabalhadores, credores e adeptos ficarem a lidar com as consequências.

Quão transparente é o processo de decisão

Diferentes contextos, mas questões semelhantes: onde se concentra o poder? Quem garante o escrutínio independente? Quão transparente é o processo de decisão? E as partes interessadas têm, de facto, voz antes de as decisões se tornarem praticamente definitivas?

O futebol registou avanços comerciais extraordinários. Os direitos de transmissão aumentaram, surgiram novas competições e investidores institucionais entraram no setor. A governação nem sempre evoluiu ao mesmo ritmo. Esse desfasamento é importante.

A boa governação nunca deve ser apresentada como um obstáculo ao investimento, à inovação ou à ambição comercial. É ela que torna possível um crescimento sustentável. Dá confiança aos investidores, melhora a tomada de decisões e protege as instituições de uma dependência excessiva de indivíduos. Acima de tudo, protege um dos ativos mais valiosos do futebol: a confiança.

Futebol não funciona sem confiança

O futebol não funciona sem confiança. Os adeptos têm de confiar na integridade das competições. Os jogadores têm de confiar nas instituições responsáveis pelo seu bem-estar. Os trabalhadores têm de confiar nos sistemas concebidos para os proteger. Investidores e parceiros comerciais têm de confiar nas organizações com as quais fazem negócios.

Há também uma distinção importante entre consulta e comunicação. Muitas vezes, as partes interessadas são informadas quando a decisão já está, na prática, tomada. Isso é comunicação. Uma consulta com significado acontece mais cedo. Permite que perspetivas relevantes moldem as questões em debate, em vez de apenas reagirem às respostas.

Jogadoras de Espanha, à esquerda, festejam ao lado do presidente Donald Trump e do presidente da FIFA, Gianni Infantino, na final do Mundial de futebol
Jogadoras de Espanha, à esquerda, festejam ao lado do presidente Donald Trump e do presidente da FIFA, Gianni Infantino, na final do Mundial de futebol Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved.

Conselhos de administração e executivos têm, em última instância, de tomar decisões e responder por elas. Mas ter a autoridade para decidir não gera, automaticamente, confiança no modo como se chegou à decisão.

Como são responsabilizados os líderes

A conversa suscitada pela FIFA não deve terminar na FIFA. Por detrás permanecem as mesmas questões: quem detém o poder, como é esse poder posto em causa, quem tem voz e como são responsabilizados os líderes.

Cada organização no futebol deve perguntar-se se as suas estruturas de governação acompanham a dimensão e a complexidade da instituição em que se tornou. Em última análise, o critério da gestão responsável é simples: a próxima geração vai herdar um futebol mais forte graças às decisões que tomamos hoje?

Ebru Köksal é especialista em finanças e foi diretora executiva do Galatasaray Football Club, bem como secretária-geral da Federação Turca de Futebol. Köksal foi também conselheira da FIFA e da UEFA. É ainda presidente da Women in Football (WIF), organização sem fins lucrativos que promove maior igualdade e diversidade no futebol.

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