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Gronelândia cria comissão da verdade sobre contraceção forçada de mulheres inuítes

Mulheres caminham numa rua em frente a bandeiras nacionais em Nuuk, 14 de janeiro de 2026
Mulheres caminham numa rua diante de bandeiras nacionais em Nuuk, 14 de janeiro de 2026 Direitos de autor  AP Photo
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De Gavin Blackburn
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Entre as décadas de 1960 e 1990, mais de quatro mil mulheres da Gronelândia foram obrigadas a usar um dispositivo intrauterino, na maioria dos casos sem consentimento.

A Gronelândia anunciou, esta sexta-feira, a criação de uma Comissão da Verdade e Reconciliação para investigar a política de contraceção forçada aplicada pela Dinamarca a milhares de mulheres inuítes, depois de peritos não terem chegado a acordo sobre se o programa constituiu "genocídio".

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A campanha de contraceção forçada é um dos capítulos mais sombrios da história da Gronelândia com a antiga potência colonial, a Dinamarca.

Entre as décadas de 1960 e 1990, mais de 4 mil mulheres gronelandesas foram obrigadas a usar uma espiral contracetiva, ou dispositivo intrauterino (DIU), na esmagadora maioria dos casos sem o seu consentimento ou o dos pais, quando eram menores.

Entre as vítimas estavam raparigas a partir dos 12 anos, algumas das quais nunca mais conseguiram ter filhos.

"Não podemos afirmar, em nome do Governo, se houve genocídio. É algo que podemos continuar a debater", declarou a ministra da Justiça da Gronelândia, Marianne Paviasen.

O primeiro-ministro gronelandês, Jens-Frederik Nielsen, afirmou que a prioridade é agora "iniciar o processo de cura".

O primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, e a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, em Marienborg, 27 de abril de 2025
O primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, e a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, em Marienborg, 27 de abril de 2025 AP Photo

"Vamos criar uma comissão de reconciliação", garantiu, acrescentando que pretende cooperar com a Dinamarca nesta questão.

Em Copenhaga, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, adotou também um tom conciliador.

"Vamos conduzir o processo político em conjunto com o Governo da Gronelândia. O mais importante para mim é encontrarmos juntos o caminho certo", afirmou.

Uma comissão de quatro membros recebeu, em agosto de 2024, o mandato para esclarecer o programa.

Os peritos não chegaram a uma conclusão unânime e apresentaram duas versões do relatório.

"Uma afirma que não houve genocídio, enquanto a outra admite que possa ter havido", explicou Paviasen.

Ambos os documentos convergem, contudo, na avaliação de que o programa poderá ter violado vários direitos humanos, bem como os direitos dos povos indígenas.

Reunião na sala do Parlamento, no Folketing, em Christiansborg, Copenhaga, 27 de agosto de 2026
Reunião na sala do Parlamento, no Folketing, em Christiansborg, Copenhaga, 27 de agosto de 2026 AP Photo

"Não se trata apenas de história"

Uma das vítimas, Henriette Berthelsen, afirmou à AFP, antes da apresentação dos relatórios, que as conclusões estavam condicionadas desde o início, uma vez que nenhum inuíte da Gronelândia foi nomeado especialista.

"Para mim, isto não diz respeito apenas à história ou à política. É o meu corpo, a minha vida e o meu direito à autodeterminação", afirmou.

"E, mais uma vez, vejo que serão outros a investigar e a definir o que foi feito a mim e às outras mulheres inuítes".

Na quinta-feira, o Parlamento dinamarquês aprovou a possibilidade de as mulheres afetadas pela campanha de contraceção forçada reclamarem indemnizações ao Estado dinamarquês. A iniciativa foi promovida por Frederiksen, que apresentou o pedido oficial de desculpas da Dinamarca no ano passado.

A cobertura mediática do caso reavivou traumas que tinham sido enterrados durante décadas.

Uma pessoa esquia em Nuuk, 6 de fevereiro de 2026
Uma pessoa esquia em Nuuk, 6 de fevereiro de 2026 AP Photo

"Percebi tudo o que isso me tinha custado, todas aquelas hospitalizações, aquelas cirurgias, a escolaridade que perdi e, sobretudo, aquelas dores que nunca tinha associado àquele maldito DIU", disse Kirstine Najarak Berthelsen.

"Estava enterrado tão profundamente no meu subconsciente... Tudo o que aconteceu às pessoas é inimaginável se não se viveu isso na própria pele", acrescentou.

No final da década de 1970, uma em cada duas mulheres gronelandesas em idade fértil, pelo menos 4.070 mulheres, tinha um DIU colocado, segundo uma investigação apresentada em setembro de 2025.

O escândalo veio a público quando uma das vítimas denunciou nos meios de comunicação social o trauma que viveu.

Uma série de podcasts, em 2022, revelou depois toda a dimensão da campanha.

Henriette Berthelsen há muito que defende a criação de uma Comissão da Verdade e Reconciliação.

A psicóloga, de 68 anos, afirmou que a comissão permitiria "reconhecer o que aconteceu".

"Creio que só então poderemos começar a sarar e a avançar, não como adversários, mas como seres humanos e como povos iguais em dignidade."

Nuuk e Copenhaga estão também a lançar luz sobre outros capítulos dolorosos do passado, incluindo casos de crianças adotadas sem o consentimento dos pais.

Outras fontes • AFP

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