Von der Leyen e Costa consideram “chocante” o funeral de Ratko Mladić em Belgrado, com altos responsáveis sérvios presentes com honras militares, complicando a candidatura da Sérvia à UE num futuro previsível.
Os líderes das duas principais instituições da UE condenaram a presença de altos responsáveis sérvios no funeral do criminoso de guerra condenado, numa declaração conjunta publicada em simultâneo na rede social X na manhã de terça-feira.
“As imagens do funeral de Ratko Mladić ontem em Belgrado foram chocantes. Ratko Mladić era um criminoso de guerra condenado. Foi responsável por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade”, escreveram na rede social X a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa.
Ratko Mladić, conhecido como o Carniceiro da Bósnia, morreu no final de agosto, aos 84 anos, num centro de detenção das Nações Unidas em Haia. O sérvio da Bósnia serviu no Exército da República Srpska com a patente de coronel-general durante as guerras da Jugoslávia.
Após a sua morte, o corpo foi transportado para Belgrado num avião de Estado, foi recebido com guarda de honra pelo exército sérvio e por várias forças de segurança e foi elogiado pela televisão pública e pela Igreja Ortodoxa sérvia. O caixão foi envolvido na bandeira da Sérvia.
Na sexta-feira, a glorificação do criminoso de guerra provocou a indignação de altos responsáveis da UE, ministros e diplomatas, enquanto a comissária do Alargamento, Marta Kos, advertiu que o funeral seria “um teste importante” para a candidatura de adesão da Sérvia.
“Morreu enquanto cumpria uma pena de prisão perpétua pelo genocídio de Srebrenica e por outros crimes. Os elementos de apoio oficial e a presença de alguns altos responsáveis sérvios no funeral são profundamente lamentáveis”, prossegue a publicação.
Na segunda-feira, a principal porta-voz da Comissão, Paula Pinho, gerou fortes críticas públicas depois de, na conferência de imprensa diária, ter afirmado que “tínhamos ouvido que estava previsto um funeral com honras de Estado, o que não aconteceu”.
“Cinco ministros do Governo sérvio estavam sentados na primeira fila do funeral, um criminoso de guerra condenado recebeu honras militares e o seu corpo foi transportado num avião do Governo sérvio”, escreveu a conta oficial no X do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Bósnia-Herzegovina, classificando a declaração de Pinho como “uma vergonha para toda a União Europeia”.
A declaração conjunta de von der Leyen e Costa parece consolidar a condenação institucional da UE à glorificação de Mladić, sublinhando que a incapacidade da Sérvia para enfrentar um capítulo sombrio da história europeia contraria os valores que sustentam a adesão à União. Assinala também uma clara escalada, de simples aviso para condenação institucional.
Em julho, a Comissão tentou relançar a candidatura de adesão da Sérvia ao voltar a pôr em cima da mesa a abertura do Cluster 3. Oito Estados-membros bloquearam o avanço, invocando preocupações com o Estado de direito e o facto de Belgrado não se ter alinhado com as sanções da UE contra a Rússia.
“Toda a gente percebe que, após esta hedionda glorificação de Mladić, a abertura do Cluster 3 está completamente fora de questão, por agora”, disse um diplomata da UE à Euronews, sob condição de anonimato.
A comissária do Alargamento, Marta Kos, cancelou a visita que tinha prevista à Sérvia, enquanto um porta-voz da Comissão negou que Ursula von der Leyen alguma vez tivesse previsto qualquer visita ao país.
O presidente sérvio, Aleksandar Vučić, convocou eleições legislativas antecipadas para o final de outubro.