Comissária do alargamento da UE Marta Kos diz que forma como Belgrado gere o funeral do criminoso de guerra Ratko Mladić testa e pode afetar a adesão sérvia à UE.
Altos responsáveis da UE emitiram um aviso ao governo sérvio sobre o funeral do criminoso de guerra Ratko Mladić, com a responsável pelo Alargamento da UE, Marta Kos, a afirmar que este “será um teste muito importante” para a candidatura de Belgrado à União Europeia e para o seu futuro caminho.
Mladić morreu a 27 de agosto, aos 84 anos, num estabelecimento de detenção das Nações Unidas em Haia, onde cumpria uma pena de prisão perpétua por crimes contra a humanidade relacionados com o massacre de Srebrenica e o cerco de Sarajevo.
O corpo foi repatriado para a Sérvia num avião do governo na quinta-feira, com o caixão transportado por soldados e envolto na bandeira sérvia, segundo imagens transmitidas pela televisão.
Embora o ministro da Justiça da Sérvia, Nenad Vujić, tenha dito na semana passada que Mladić seria sepultado com honras de Estado, o presidente Aleksandar Vučić afirmou entretanto que caberia à família decidir sobre as cerimónias fúnebres, e não foram ainda confirmados planos oficiais.
Segundo a imprensa sérvia, poderá realizar-se uma cerimónia de homenagem no sábado, seguida de um funeral num subúrbio de Belgrado na segunda-feira.
Falando com jornalistas em Dublin na manhã de sexta-feira, a responsável pelo Alargamento da UE, Marta Kos, declarou: “Levar os restos mortais de Ratko Mladić para Belgrado será um teste muito importante.”
“Há neste momento muitos desenvolvimentos na Sérvia (...) e tudo pode influenciar a forma como os Estados-membros avaliam a Sérvia.”
Acrescentou que a forma como for organizado o funeral de Mladić será considerada em relação ao alinhamento de Belgrado com a política externa e de segurança da UE, requisito essencial para aderir ao bloco.
“Um funeral de Estado seria inaceitável”, declarou à imprensa o ministro dos Assuntos Europeus e da Defesa da Irlanda, Thomas Byrne, à margem de uma reunião ministerial na sexta-feira. “Compreendo que, na realidade, não esteja a ser preparado um funeral de Estado, mas poderá haver altos responsáveis do governo a homenagear esse homem. Isso não é aceitável.”
“É um passo que afasta a Sérvia dos valores fundamentais da UE, nomeadamente o respeito pela dignidade humana, pelos direitos humanos e pela luta contra a impunidade, indo no sentido oposto ao que é esperado de um país candidato à UE”, escreveu o ministro dos Negócios Estrangeiros belga, Maxime Prevot, na rede X.
A polémica em torno do funeral já chegou ao nível dos chefes de governo. Numa conferência realizada no início desta semana, o primeiro-ministro croata, Andrej Plenković, advertiu a Sérvia de que atribuir as mais altas honras a um criminoso de guerra condenado seria “equivalente a bater com a porta da União Europeia”.
Dois responsáveis da UE, que falaram sob anonimato, disseram à Euronews que os planos para o funeral suscitaram preocupação no seio do executivo comunitário em Bruxelas, que vê a futura adesão dos países dos Balcãs Ocidentais como uma prioridade estratégica para o bloco.
Fontes diplomáticas disseram à Euronews que, no geral, o sentimento dominante entre os ministros dos Assuntos Europeus reunidos na Irlanda para uma reunião informal na sexta-feira era de que um funeral de Estado para Mladić, ou qualquer homenagem por responsáveis do Estado sérvio, seria completamente inaceitável e enfraqueceria inevitavelmente o apoio à candidatura do país à UE entre os Estados-membros.
“Qualquer pessoa que ponderasse sequer abrir o Cluster 3 vai pensar duas vezes”, afirmou um diplomata da UE à Euronews, pedindo para não ser identificado devido à sensibilidade do tema. “Parece muito improvável que alguém queira agora insistir nesse sentido.”
No início deste verão, o esforço da Comissão Europeia para fazer avançar a adesão da Sérvia, abrindo negociações sobre competitividade e crescimento, conhecido como Cluster 3, ficou bloqueado depois de os Estados-membros terem levantado preocupações sobre polémicas reformas judiciais.
A UE estima igualmente que o alinhamento de Belgrado com a Política Externa e de Segurança Comum seja de 60%, o nível mais baixo entre todos os candidatos potenciais.