Semanas após a entrada massiva de migrantes em Ceuta, continua sem resposta oficial sobre quem a provocou. Há sinais do papel dos boatos, da atitude de Marrocos e da ingerência de Rússia e Israel.
Durante a audiência do presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, confirmaram-se dados sobre o que aconteceu em Ceuta nos dias 30 e 31 de julho, com a travessia da fronteira por dezenas de milhares de pessoas.
Sánchez alegou que a origem destes atos continua por esclarecer. O que, sim, existe é documentação sobre como se propagou o apelo à travessia nas redes sociais nos dias anteriores.
De acordo com o relatório sobre a entrada irregular em massa elaborado pelo Centro Nacional de Imigração e Fronteiras (CENIF), as redes foram determinantes para garantir uma convocatória multitudinária. A mensagem foi passando de plataforma em plataforma: primeiro circulou no Facebook, Instagram e TikTok e, na véspera da crise, nos dias 29 e 30 de julho, passou para grupos fechados de WhatsApp.
O documento identifica três elementos manipulados para incentivar a travessia:
- Uma leitura simplista de um acórdão do Supremo Tribunal, resumida nas redes em frases como “quem entrar a nado não pode ser devolvido”.
- A ideia de que o dispositivo policial destacado para a Festa do Trono, celebrada em Marrocos a 30 de julho, deixaria a fronteira desprotegida.
- Uma mensagem sobre uma regularização extraordinária em Espanha que, embora não se aplicasse a quem atravessasse nesses dias, foi divulgada de forma direta e com grande alcance. Um desses cartazes circulava já no Facebook a 14 de julho, duas semanas antes da crise.
Em coincidência com a entrada em massa, as mensagens multiplicaram-se com atualizações sobre o estado da fronteira e apelos urgentes para aproveitar a ocasião, do tipo “abriram o portão esta manhã” ou indicações concretas sobre pontos de encontro.
A partir do dia 30, somaram-se mensagens de pessoas que já tinham conseguido entrar em Ceuta, com conselhos para evitar a expulsão. Uma análise posterior de mais de 12 000 mensagens enviadas entre 4 e 13 de agosto em três grupos de WhatsApp detetou narrativas falsas, como a abertura da fronteira em horários concretos ou a transferência automática de menores para a península, além de conversas sobre logística e provisões para a travessia.
O CENIF descarta que esta campanha tenha sido espontânea. Defende que respondeu a um padrão pré-estabelecido, concebido para maximizar a difusão junto do seu público-alvo, sobretudo jovens marroquinos das províncias próximas de Ceuta.
Marrocos entre a passividade e a implicação
O comportamento das autoridades marroquinas durante a crise tem sido objeto de debate político desde o primeiro momento. O governo espanhol optou por agradecer publicamente a colaboração de Marrocos no regresso das pessoas que chegaram e no posterior controlo da fronteira. Esta quinta-feira, o país vizinho comunicou a Espanha que está a investigar o sucedido.
Pedro Sánchez tem insistido em que não existem provas sólidas de responsabilidade marroquina, uma posição questionada tanto pela oposição como pelos seus parceiros de governo. Alberto Núñez Feijóo afirmou que há indícios de que Marrocos coordenou a entrada e que o Executivo o sabia. Gabriel Rufián foi mais longe ao acusar o país vizinho de enviar dezenas de milhares de pessoas para a fronteira para desestabilizar o Governo espanhol, enquanto, a partir do Sumar, se exigiu que Marrocos desse explicações.
A avaliação de especialistas sobre os dados do relatório inclina-se mais para a passividade do que para a implicação direta. Bernabé López, catedrático de Estudos Árabes, admitiu que não existem dados tangíveis sobre a participação marroquina, embora considere evidente que houve uma atitude passiva pela qual Marrocos é responsável.
O analista de segurança Chema Gil foi mais contundente ao afastar a hipótese de Marrocos só se ter apercebido da situação à última hora através das redes sociais, apoiando-se em relatórios de informação sobre episódios anteriores de contenção de tentativas de travessia em massa.
Relatório do CENIF fala mesmo em permissividade policial marroquina entre 30 e 31 de julho. Segundo o documento, existem vídeos que mostram condutas compatíveis com a facilitação da imigração irregular e até com a monitorização do próprio processo de entrada.
As entrevistas realizadas a migrantes descrevem quase unanimemente que os agentes marroquinos não só se mantiveram passivos, como indicaram às pessoas por onde atravessar, concretamente pela zona do molhe de El Tarajal. O relatório inclui uma compilação fotográfica em que se identificam tanto elementos fardados como indivíduos sem uniforme a encaminhar a multidão para esse ponto.
Rússia e Israel sob suspeita
O terceiro elemento apontado na investigação é a atividade de redes ligadas à Rússia e a Israel. Numa entrevista a 31 de agosto, Sánchez apontou para a propagação de boatos provenientes de ambos os países como uma das causas da crise. Os dois governos negaram qualquer relação e o ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Gideon Saar, chegou a acusar o presidente espanhol de mentir de forma descarada.
Dias depois, a 3 de setembro, Sánchez precisou a sua versão perante o Congresso: não há provas de que os Estados de Marrocos, da Rússia ou de Israel estivessem diretamente por detrás do sucedido, segundo os serviços de informação espanhóis, embora se tenha constatado a ação de redes pró-russas e pró-israelitas.
Segundo o seu relato, desde 29 de julho foram partilhadas em massa mensagens com mapas e datas de entrada e, a partir do dia 30, juntaram-se campanhas de desinformação que amplificaram a crise. O presidente citou um relatório do Serviço Europeu de Ação Externa que documenta a participação de contas ligadas a ecossistemas informativos russos e pró-israelitas.
Nas redes, algumas figuras públicas alimentaram a polémica: o ministro israelita Itamar Ben Gvir fez uma piada no X sobre a entrada em massa nesse mesmo 31 de julho e o embaixador de Israel junto da ONU, Danny Danon, questionou na mesma rede por que motivo Espanha mantém enclaves coloniais em África. Do lado russo, a rede de desinformação Pravda divulgou uma fotografia de 2025 fazendo-a passar por recente, com uma mensagem falsa sobre alegadas celebrações de ministros do PSOE na embaixada marroquina.
A Comissão Europeia também apontou a Rússia. O porta-voz comunitário Guillaume Mercier confirmou, a 6 de agosto, que Bruxelas vigiava as redes perante o risco de uma nova entrada em massa e que tinha detetado canais ligados à Rússia a amplificar a crise desde 30 de julho, sem mencionar, nessa altura, Israel.
Posteriormente, outro porta-voz explicou que o Serviço Europeu de Ação Externa elabora relatórios confidenciais periódicos sobre manipulação de informação e ingerências estrangeiras e que, no caso de Ceuta, foram detetadas tentativas russas de tirar partido da crise na internet, embora sem provas conclusivas de que a própria crise tenha sido provocada por atores estatais estrangeiros.