Entretanto, o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy afirmou na noite de quinta-feira que esperava receber em Kiev, nos próximos dias, os enviados do presidente dos EUA, Donald Trump, para retomar os esforços no sentido de pôr fim à guerra.
Durante grande parte da guerra, os ataques de drones e mísseis russos contra a capital ucraniana, Kiev, seguiam um certo ritmo: quase sempre chegavam durante a noite.
Os avisos começavam à noite, em canais de monitorização no Telegram. Anunciavam drones a deslocarem‑se para sul, mísseis lançados, defesas aéreas em ação.
Os civis ucranianos avaliavam se era prudente ficar em casa ou procurar abrigo no metro, consoante a gravidade da ameaça.
Agora, a Rússia mudou de tática com o recurso a drones rápidos, a jato, e a expectativa de que a luz do dia traria um regresso à normalidade foi desfeita.
Desde a semana passada, os ataques chegam de dia e de noite, somando ao terror dos bombardeamentos noturnos o cansaço de uma perturbação constante durante o dia.
Em Kiev, o uivo recorrente das sirenes de ataque aéreo tornou‑se parte do quotidiano. Interrompe deslocações, idas às compras e as escolas das crianças, invade alguns dos momentos mais importantes da vida, de casamentos a funerais, e, como sempre, tira vidas.
Os alertas incessantes estão a esgotar os habitantes, deixando muitos a questionar até quando conseguem ficar.
Parte do quotidiano
Dispara um alerta. As pessoas olham para o telemóvel ou para o céu. Momentos depois, ao longe, ouvem‑se os sons familiares das defesas aéreas a intercetar drones.
Plumas de fumo veem‑se frequentemente a erguer‑se ao longe. Fotografias espalham‑se rapidamente pelos canais de Telegram, mostrando onde ocorreu a destruição.
Uma ou duas horas mais tarde, ecoa outra sirene.
Em centros comerciais, bancos e outras empresas, os protocolos de ataque aéreo exigem que clientes e funcionários saiam quando soa um alerta. Uma operação bancária pode ser interrompida a meio de uma conversa; uma ida às compras pode transformar‑se num ciclo de entrar na loja, evacuar, voltar a entrar e evacuar outra vez.
Fazer as compras tornou‑se um pesadelo para Volodymyr Bovsunovskyi, que recorda uma recente ida em família a um centro comercial para comprar roupa para a filha de quase 4 anos.
Estavam lá dentro há cerca de 20 minutos quando soou o alerta. Saíram a correr e viram fumo a erguer‑se nas proximidades. Nunca chegaram a comprar a roupa.
“Muita coisa mudou nos últimos sete dias”, disse. Como muitos habitantes, espera que os ataques abrandem. Mas isso ainda não aconteceu, numa altura em que a Ucrânia tenta encontrar uma forma eficaz de os travar.
Viagens de comboio que normalmente levariam poucas horas prolongaram‑se por muito mais tempo. Em alguns casos, passageiros viram‑se obrigados a caminhar durante horas por campos de erva depois de os comboios pararem na linha, carregando os pertences enquanto um alerta aéreo sucedia ao outro.
A mesma incerteza estende‑se à circulação dentro da cidade.
Quando os sinais de GPS são perturbados para bloquear drones, usar uma aplicação de táxis torna‑se um processo complicado. Um carro que parecia estar por perto pode, de repente, surgir do outro lado do mundo.
Uma recolha que parecia iminente passa, de um momento para o outro, a indicar um tempo de chegada de milhares de minutos.
A ponderar partir
Ivan Datsiv, trabalhador de TI, estava no seu apartamento, no bairro de Podil, em Kiev, quando um drone russo atravessou o piso na terça‑feira, chamuscando tetos e paredes e destruindo por completo o apartamento ao lado.
Datsiv tenta brincar com a situação, dizendo que já andava a pensar em voltar a pintar as paredes.
Os alertas tornaram‑se tão frequentes que já não vê sentido em ir vezes repetidas para o abrigo. A este ritmo, disse, a única alternativa seria viver na cave.
“As sirenes tocam constantemente”, afirmou. “Nem se chega a ter tempo de descer e voltar a subir. É só perder tempo a correr para cima e para baixo.”
Pensa em deixar Kiev. “Estou a pensar viver noutra cidade, num sítio calmo e sem este perigo”, disse.
Do apartamento destruído ao lado, a vista dá para um parque infantil e um campo de basquetebol onde as crianças continuam a brincar.
Depois volta a soar uma sirene. Minutos mais tarde, vê‑se no céu o rasto branco em ziguezague de um drone intercetado.
Bovsunovskyi pondera também deixar a cidade por algum tempo, na esperança de dar à família, incluindo a mulher grávida, oportunidade para descansar.
O jardim‑de‑infância que a filha frequenta tem de levar as crianças para o abrigo sempre que soa um alerta de ataque aéreo. Os avisos tornaram‑se tão frequentes que agora vai buscá‑la a meio do dia.
“Não há estabilidade”, afirmou.
Acabar com a guerra
Entretanto, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, afirmou na noite de quinta‑feira que espera receber em Kiev, nos próximos dias, os enviados do presidente dos EUA, Donald Trump, para retomar os esforços para pôr fim à guerra.
O impulso diplomático para terminar a invasão russa, que dura há quatro anos e meio, estagnou nos últimos meses, à medida que os Estados Unidos desviaram o foco para a guerra com o Irão.
“Esperamos ver aqui em Kiev os enviados do Presidente da América. Temos confirmação da parte deles”, disse Zelensky no seu discurso noturno.
“Terão reuniões em Moscovo e em Kiev. Contamos com um encontro nos próximos dias”, acrescentou.
Os enviados especiais de Trump, Steve Witkoff e o genro do presidente, Jared Kushner, têm conduzido uma diplomacia de vaivém entre a Rússia e a Ucrânia, viajando várias vezes a Moscovo.
Nunca estiveram em Kiev.
Zelensky afirmou que “foram já marcadas ‘datas provisórias’ para a primeira visita dos enviados à capital ucraniana, que tem suportado ataques russos intensificados com drones e mísseis na última semana”.
A invasão da Ucrânia pela Rússia tornou‑se o pior conflito na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, causando a morte de milhares de civis e de centenas de milhares de militares.