Paris procura retirar Usmanov da lista de sanções numa aparente troca de favores, visando garantir a libertação dos cidadãos franceses detidos.
França está a pressionar para que o empresário russo-usbeque Alisher Usmanov seja retirado da lista de sanções da UE, numa tentativa de garantir a libertação de um número indeterminado de cidadãos franceses detidos no Azerbaijão, segundo vários responsáveis e diplomatas familiarizados com as negociações.
A posição francesa veio complicar os esforços em Bruxelas para renovar as sanções da UE contra a Rússia, que abrangem quase 3.000 pessoas e entidades acusadas de apoiar a invasão em grande escala da Ucrânia. As medidas expiram este mês.
O bloqueio foi inicialmente provocado pela Eslováquia, que há muito defende a retirada de Usmanov da lista de sanções, por motivos distintos.
França juntou-se a Bratislava ao pedir a sua retirada da lista na sexta-feira, para surpresa de vários diplomatas, relatou a Euronews.
Os embaixadores da UE acordaram na segunda-feira prolongar as sanções por mais uma semana, até 22 de setembro, dando mais tempo aos Estados-membros para chegarem a um entendimento. Se não houver acordo, todos os cidadãos russos serão retirados da lista, o que aumenta a sensação de urgência.
“A França não está para ceder, mas isso passaria a pior mensagem possível no pior momento”, afirmou um responsável, sob anonimato.
“Não sei o que mudará numa semana.”
A maioria dos Estados-membros continua a opor-se à retirada de nomes da lista de sanções enquanto a Rússia prosseguir a guerra na Ucrânia e num contexto de preocupações com ataques híbridos na Europa.
Alguns responsáveis admitem, porém, que a França invocou motivos de segurança nacional, um princípio reservado para questões críticas. O governo francês recusou comentar.
“Tudo tem uma explicação”, comentou um diplomata.
Ainda assim, esta mudança de última hora deixou frustrados os diplomatas que rejeitam a remoção de qualquer cidadão russo da lista de sanções.
Um diplomata próximo das conversações afirmou que a abordagem de contrapartidas de Paris equivalia, na prática, a vetar uma posição comum da UE, fazendo lembrar táticas usadas pela Hungria sob a liderança de Viktor Orbán.
Por seu lado, França insiste que continua a ser um dos defensores mais firmes das sanções contra a Rússia no bloco.
O Financial Times foi o primeiro a noticiar a troca de prisioneiros no Azerbaijão.
Usmanov foi incluído na lista de sanções da UE nos primeiros dias da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia. O Conselho da UE apontou os seus “laços estreitos” com o presidente russo Vladimir Putin e os interesses em “setores-chave” da economia russa.
Usmanov rejeita as acusações e tem feito uma forte campanha para ser retirado da lista.
A Eslováquia tem igualmente defendido há muito a retirada de Usmanov e do também empresário russo Mikhail Fridman da lista de sanções. Outros Estados-membros da UE têm, até agora, recusado o pedido, que consideram politicamente motivado.
Este ano, uma investigação jornalística revelou uma carta de duas páginas enviada pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, ao primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, a pedir ajuda para pôr termo àquilo que Erdoğan descreveu como a “prática injusta” relativa a Usmanov.
“O seu apoio para o retirar da lista de sanções da UE e restaurar os seus direitos violados seria extremamente valioso”, escreveu Erdoğan na missiva, datada de 2 de março de 2026.
O documento indicava que o Azerbaijão, o Cazaquistão, o Quirguizistão e o Uzbequistão também apoiavam a retirada de Usmanov.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, criticou o estado das negociações no seu discurso noturno de segunda-feira, mencionando nominalmente Usmanov e Fridman.
“Não é de todo o momento para levantar sanções, para resgatar oligarcas russos das mesmas, e muito menos para a Europa oferecer presentes à Rússia”, declarou Zelenskyy.
“Usmanov, Fridman e outras figuras russas como eles ainda não deram passos contra a guerra. Não é o momento para a Europa esquecer o que se está a passar.”