Eurobarómetro recente classifica manipulação e ingerência estrangeiras na informação e desinformação eleitoral como o segundo desafio mais grave à democracia na UE. Especialistas pedem cautela.
A propaganda estrangeira não é um fenómeno novo. Remonta a séculos e ganhou visibilidade com a ascensão dos meios de comunicação social. Continua a evoluir, adaptando-se às ferramentas de comunicação mais recentes.
A internet e as redes sociais abriram novos canais poderosos para a propaganda internacional, incluindo informação enganosa e desinformação. A Rússia foi acusada em vários casos, incluindo interferência nas eleições dos EUA, e tornou-se cada vez mais um alvo frequente de suspeitas em toda a Europa.
Um Eurobarómetro recente concluiu que "manipulação de informação estrangeira, interferência e desinformação, incluindo no contexto de eleições" são o segundo desafio mais grave que a UE enfrenta. Mais de dois em cada cinco europeus (42%) partilham esta opinião. Em alguns países, a preocupação ultrapassa os 50%.
“Deixo a cautela contra a sobrerinterpretação destes resultados... A própria pergunta diz-nos muito sobre a autoperceção dos autores (isto é, a equipa de comunicação da Comissão Europeia?) quanto ao que poderá ser o desafio à democracia na UE”, disse à Euronews Pawel Zerka, investigador sénior no Conselho Europeu de Relações Externas (ECFR).
_“_Claro que isto não significa que estes resultados sejam totalmente inúteis”.
O terceiro desafio mais grave é interno, mas relacionado: "Falta de transparência quanto a saber se o conteúdo político online é promovido através de novas tecnologias como a IA". Quase um terço dos inquiridos (32%) concorda com esta visão.
Os europeus apontam, em primeiro lugar, "a crescente desconfiança pública em relação às instituições e processos democráticos", citada por quase metade (49%).
Enviesamento dos media ou ameaça real?
Até que ponto a manipulação de informação estrangeira ameaça a democracia na UE?
Sander van der Linden, da Universidade de Cambridge, apontou duas hipóteses concorrentes. Uma sugere enviesamento mediático. Nesta perspetiva, a ampla cobertura da manipulação de informação estrangeira está a alarmar as pessoas sem necessidade.
A outra sustenta que a preocupação é legítima porque a realidade está a ser percebida com clareza: a manipulação de informação estrangeira ocorre hoje em larga escala, com apoio sem precedentes da IA.
“Pessoalmente, diria que é verdade que os media estão a amplificar a preocupação com a manipulação de informação estrangeira, mas essa preocupação é justificada”, disse à Euronews.
“Russia Today está a transformar a informação em arma?”
“As elites políticas europeias contam a história de que as operações de informação estrangeiras têm de ser más porque podem ser más”, disse à Euronews Ben O'Loughlin, professor na Royal Holloway, Universidade de Londres. Sublinhou que investigação publicada após a proibição da Russia Today (RT) em 2022 mostrou que, embora parte do conteúdo da RT fosse manipulador, outra parte era simplesmente factual.
Se houver protestos por qualquer motivo nas capitais europeias, a RT relata-os. Isso indica que os cidadãos europeus estão descontentes, logo a política não está a funcionar.
“Isso gera pânico nos governos europeus de que a RT está a transformar a informação em arma para os prejudicar. O pânico duplica porque já havia desafios à democracia, mesmo que a manipulação estrangeira não existisse”, acrescentou.
Porque é a Suécia uma exceção?
Na Suécia, 73% dos inquiridos veem a manipulação de informação estrangeira como o desafio mais grave que a UE enfrenta. Isto torna o país nórdico uma exceção.
“[Isso] pode, em princípio, estar ligado a vários fatores, incluindo a proximidade geográfica à Rússia, a sua recente adesão à NATO e campanhas de influência atribuídas ao Kremlin”, disse à Euronews Cristina Arribas, investigadora na Universidade Rey Juan Carlos.
Explicou que esta perceção também se relaciona com elementos estruturais internos como uma forte tradição de literacia mediática, cultivo do pensamento crítico, níveis elevados de escolaridade, cultura democrática consolidada e um sistema mediático pluralista.
“Estas características estendem-se a outros países nórdicos — em particular Finlândia e Dinamarca — e explicam a sua maior resiliência à desinformação”, acrescentou.
A Finlândia e os Países Baixos seguem a Suécia com 55%, a Dinamarca com 51% e a Alemanha com 49%.
Em oito países da UE, esta proporção fica abaixo de um terço. Chéquia, Portugal e Estónia registam os níveis mais baixos, com apenas 28% dos inquiridos a partilhar esta visão.
Importa a proximidade geográfica à Rússia?
Arribas salientou que a proximidade geográfica não se traduz necessariamente em perceções mais elevadas da manipulação de informação estrangeira como ameaça. Isso é evidente nos países bálticos, na Polónia (29%) e na Roménia (31%), onde, apesar da proximidade à Rússia, a preocupação expressa no inquérito é comparativamente menor.
“Esta conclusão reforça a hipótese de que fatores estruturais, mais do que a geografia por si só, têm um papel mais decisivo na formação das perceções dos cidadãos sobre a desinformação e a FIMI como riscos para a democracia”, disse.
Entre os “quatro grandes” da UE, a Alemanha regista a maior percentagem, com quase metade dos inquiridos (49%) a concordar. França e Espanha ficam perto da média da UE com 43%, enquanto Itália iguala essa média com 42%.
Ao explicar as diferenças entre países, Zerka afirmou que a ocorrência de grandes casos de interferência estrangeira ou ciberataques no passado recente de um país pode moldar as perceções públicas.