Analistas de desinformação detetaram, antes das eleições do último fim de semana, novas táticas: notícias falsas adaptadas a narrativas de propaganda, grupos privados no Facebook para difundir mensagens partidárias e indícios de interferência russa
Realizaram-se eleições legislativas na Hungria num contexto de forte desinformação, desde programas partidários fabricados até operações de influência ligadas ao Kremlin.
Depois da votação de domingo e de um resultado histórico, vale a pena perceber em detalhe o que foi feito para tentar influenciar o escrutínio.
Conquistou uma maioria de dois terços, com 138 dos 199 lugares no parlamento, o partido Tisza, de Peter Magyar, afastando o primeiro-ministro Viktor Orbán após 16 anos no poder.
Apesar de as preocupações com a ingerência externa, sobretudo da Rússia, terem chamado a atenção internacional durante toda a campanha, analistas afirmam que a grande maioria da desinformação que circulou antes da votação teve origem interna e não em Moscovo.
Szilárd Teczár, jornalista da organização húngara de verificação de factos Lakmusz, estima que pelo menos 90% teve origem doméstica e, quando se têm em conta o alcance e o impacto, diz que a percentagem poderá ser ainda maior.
Dentro dessa fatia de origem interna, o Fidesz foi a força dominante, e não apenas o partido em si.
Teczár aponta para o ecossistema mais vasto que o rodeia, incluindo órgãos de comunicação sob influência ou controlo do partido e organizações de fachada, como o Movimento de Resistência Nacional e a Megafon, uma chamada rede de influenciadores, que descreve como dois dos atores mais importantes desta campanha.
A Euronews Next analisa mais de perto a narrativa global desta campanha e algumas das novas tendências de comunicação política que surgiram, tanto online como offline, à medida que se aproximou o dia da votação.
Desinformação interna domina a campanha
Investigadores de desinformação referiram que os atores pró-governamentais usaram táticas mais agressivas nesta campanha do que em eleições anteriores.
Uma das novidades passou pela fabricação de notícias assentes em "desinformação completa", segundo Konrad Bleyer-Simon, investigador no European University Institute.
Por exemplo, Bleyer-Simon afirmou que o partido de Orbán criou um falso programa do Tisza e o fez chegar ao Index (fonte em inglês), um site noticioso húngaro, que publicou uma peça a alegar que a oposição planeava um forte aumento de impostos caso vencesse.
O documento era, na realidade, uma falsificação e incluía propostas fictícias, como um imposto sobre gatos e cães, segundo Bleyer-Simon. O Tisza intentou várias ações judiciais contra o Index e outras empresas de comunicação pela publicação da notícia (fonte em inglês).
O partido de Orbán passou depois a utilizar falsos programas políticos em cartazes de campanha espalhados pelo país.
"O que me parece diferente é que agora o governo vai mais além da propaganda e está também a criar os seus próprios factos no terreno", disse. "Tentaram fabricar provas para sustentarem a sua propaganda."
Bleyer-Simon considerou que o campo de Orbán teve de se tornar mais "extremo" nos métodos porque havia um receio real de que pudesse perder as eleições, um medo que se concretizou no fim de semana com a vitória expressiva de Magyar.
Para contrariar isso, o partido Tisza empenhou-se em ir "de aldeia em aldeia" para conquistar apoio ao longo da campanha, estratégia que, segundo Bleyer-Simon, os tornou muito mais fortes face ao partido de Orbán, apesar das tentativas de minar a sua credibilidade.
Rússia segue manual clássico de interferência eleitoral
Embora se tenham notado marcas do Kremlin na campanha, os analistas de desinformação dizem que o alcance foi mais limitado do que se temia.
A Rússia recorreu ao que Alice Lee, analista da NewsGuard, chamou o "manual clássico" de interferência eleitoral, fabricando notícias com "acusações graves" contra os adversários de Orbán.
Uma das operações, a Matryoshka, especializa-se em criar falsos noticiários em vídeo.
Na Hungria, o grupo produziu um falso vídeo, apresentado como sendo do francês Le Monde, em que se alegava que o artista ucraniano Denis Panshenko andava a envenenar cães húngaros, explicou Lee.
Outro ator russo envolvido na campanha, o Storm 1516, publicou artigos mais elaborados que imitavam sites noticiosos.
Num dos principais artigos, afirmava-se que o principal adversário de Orbán insultara o presidente dos EUA, Donald Trump, alegação que ganhou grande visibilidade na rede social X.
O Storm-1516 visou também outras figuras do Tisza, acusando-as de arrastar a Hungria para a guerra entre a Rússia e a Ucrânia e de ameaçarem piorar as relações entre os Estados Unidos e a Hungria, acrescentou Lee.
Porque é que a atividade russa aumentou? Lee tem uma explicação.
"Os russos estão a interferir mais agora porque partiam do princípio de que Orbán estaria relativamente seguro, já que dispõe de uma espécie de monopólio dos media públicos e de um controlo bastante sólido sobre a população", afirmou.
Mas grande parte dessa interferência poderá não ter tido o efeito desejado.
A Lakmusz, organização de verificação de factos, concluiu que muitas das campanhas russas estavam em inglês e não em húngaro e eram publicadas no X, uma plataforma "não assim tão relevante" para o debate político húngaro quando comparada com o Facebook, segundo Teczár.
"Devemos ter cuidado para não exagerar o efeito das peças de desinformação russa mais flagrantes, porque, quando analisámos o alcance e a disseminação, verificámos que eram bastante limitados", disse.
Restrições à publicidade
Novas restrições impostas pela Meta e pela Google obrigaram os partidos húngaros a mudar de tática para fazer chegar as mensagens à sua base nas plataformas mais populares do país, como o Facebook, o Instagram e o YouTube, explicou Bleyer-Simon.
Em outubro passado, a Meta proibiu a publicidade política nas suas plataformas (fonte em inglês) na União Europeia devido a "incertezas jurídicas". Restrições semelhantes foram impostas (fonte em inglês) pelo YouTube em setembro, proibindo anúncios de atores políticos que possam influenciar o resultado de uma eleição ou referendo.
As restrições funcionaram em certa medida, segundo Bleyer-Simon e Teczár, já que houve menos propaganda nestas redes sociais do que noutras campanhas.
Ainda assim, o Fidesz encontrou formas de colocar anúncios nas redes sociais, acrescentaram ambos.
O Fidesz criou grupos privados no Facebook, como o "Fighters Club", com mais de 61 mil pessoas, e o grupo "Digital Civic Circles" (Círculos Cívicos Digitais), com mais de 100 mil.
Numa descrição traduzida do grupo Fighters Club no Facebook, lê-se que foi fundado por Viktor Orbán em 2025 para "representar de forma eficaz os interesses da Hungria no espaço online".
O grupo é apenas por convite e procura húngaros "ativamente prontos a agir por Deus, pela pátria e pela família", pode ler-se.
"O que o Fidesz esperava destes grupos no Facebook era criar uma estrutura capaz de enviar os seus apoiantes para publicações específicas nas redes sociais e instruí-los a fazer gosto, partilhar e comentar para aumentar o alcance", explicou Teczár, salientando que o envolvimento nas publicações não é muito elevado.
Segundo a Political Capital, uma das principais ONG húngaras, ambos os grupos apoiados pelo Fidesz difundiram mais de 4 000 anúncios na Meta para incentivar os utilizadores a aderirem.
Outras páginas de Facebook, como Heart of Hungary, apresentada como um grupo equestre, publicaram (fonte em inglês) cinco anúncios pagos com base num artigo fabricado que acusava Romulusz Ruszin-Szendi, político do Tisza, de recrutar húngaros para combater na guerra na Ucrânia, indicou a Lakmusz.
Esses anúncios chegaram a pelo menos 100 mil pessoas numa semana.
A Political Capital assinalou que o Fidesz recorreu a vídeos gerados por inteligência artificial no Facebook para fazer campanha negativa, desacreditar adversários e incitar medos na sociedade.
Por exemplo, o candidato do Fidesz István Mohácsy publicou um vídeo gerado por IA (fonte em inglês) com tema de guerra, que mostrava o partido Tisza a levar jovens húngaros para a frente de combate.
Outros membros do partido, como Ruszin-Szendi, Tibor Ferenc Halmai e Tamás Cseh, surgiam igualmente com uniformes militares.
A Political Capital referiu que também membros do Tisza recorreram à IA para contrariar narrativas pró-governamentais que procuravam desacreditá-los.
Magyar e vários políticos do Tisza publicaram (fonte em inglês) no Facebook imagens da revista TIME geradas por IA, onde apareciam como Pessoa do Ano, algo que, segundo a Political Capital, alimenta "o mito do homem que desafia o poder".
Esses vídeos e anúncios nas redes sociais não são rastreados pela Meta Ad Library nem por outras ferramentas semelhantes, antes disponíveis para investigadores, o que dificulta a análise da sua disseminação antes das eleições, concluiu Bleyer-Simon.