Encerramentos do espaço aéreo têm perturbado voos sobre o Irão, Israel e o Qatar nos últimos meses. Falámos com especialistas sobre como a aviação garante a segurança dos passageiros.
Quando as tensões sobem em conflitos um pouco por todo o mundo, é quase uma piada: os internautas apressam-se a ligar-se para "monitorizar a situação".
Isso costuma significar abrir o X, o blogue ao minuto do seu site de notícias preferido e, claro, o Flightradar24.
Quando um espaço aéreo fecha, os voos abandonam rapidamente a zona e acabamos por ver uma corrente de aviões a seguir a mesma rota, aparentemente demasiado próximos entre si.
Mas os aviões amarelos apertados no ecrã não mostram o trabalho necessário para manter os voos a correr sem sobressaltos e em segurança.
Como decidem as companhias a rota a seguir
As rotas aéreas, ou aerovias, são como estradas num mapa, com várias alternativas entre quaisquer duas cidades do mundo, explica Lindi-Lee Kirkman, responsável regional por operações, gestão do tráfego aéreo e infraestruturas para África e o Médio Oriente, na Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA).
Escolher a aerovia — a "estrada" — envolve vários fatores, como a meteorologia ou a redução de emissões, sendo a segurança e a proteção as prioridades.
"Se essas duas não estiverem asseguradas, nenhum outro fator entra em jogo", assinala Kirkman.
"Uma companhia faz sempre avaliações de segurança operacional e de proteção. Desde logo, numa fase estratégica inicial, e depois em cada etapa do processo até ao voo se concretizar, há várias avaliações. Existem também critérios definidos de "go" ou "no go", estabelecidos por cada companhia."
Nalguns casos, o espaço aéreo pode não estar fechado, mas uma companhia pode considerar que atravessá-lo é demasiado arriscado segundo os seus parâmetros e evitá-lo.
Quando um espaço aéreo fecha
Cada Estado tem controlo exclusivo sobre o seu espaço aéreo, como estabelece o Artigo 1.º da Convenção de 1944 sobre Aviação Civil Internacional.
Se um Estado decidir fechar o seu espaço aéreo, emite um NOTAM (Notice to Airmen). As companhias comunicam tanto com o controlador de tráfego aéreo responsável pelo espaço que ocupam, como com os ATCs dos espaços vizinhos, para definir para onde pode ser encaminhado o avião em segurança.
Embora as imagens do Flightradar24 possam parecer caóticas, é algo com que a indústria lida diariamente.
"Há um equilíbrio entre procura e capacidade no dia a dia do controlo de tráfego aéreo, não é nada invulgar", acrescenta Kirkman.
"É preciso ter controladores suficientes no espaço aéreo para gerir o número de aeronaves que o atravessam. Se houver mais aeronaves, ou seja, se a procura exceder a capacidade, isso pode ser gerido de forma tática."
Os voos podem ser espaçados; por exemplo, aceitar tráfego em intervalos de 10 minutos. Também se pode dar a uma aeronave milhas adicionais de percurso, desviando-a ligeiramente, para que permaneça no ar um pouco mais do que o habitual.
Como lida o setor com zonas de conflito
Os encerramentos de espaço aéreo variam entre totais e parciais e, em conflitos em curso, podem prolongar-se muito para além de algumas horas.
A invasão russa da Ucrânia fez com que países como a Polónia, a Estónia e a Letónia operassem com espaço aéreo reduzido devido a spoofing e jamming do GNSS, enquanto outros, como o Azerbaijão, absorveram tráfego adicional à medida que os aviões eram desviados de zonas inseguras.
Enrico Parini, diretor para os Assuntos Europeus na Civil Air Navigation Services Organisation (CANSO), organismo representativo dos prestadores de serviços de navegação aérea, afirma que o setor está bem preparado para lidar com situações geopolíticas na Europa.
"Creio que, em lado nenhum na Europa, nem no resto do mundo, se esperavam perturbações deste nível", diz.
"Não podemos dizer que, na altura, estávamos prontos, mas acabámos por estar, porque o nível de contingência e de resiliência que construímos antes permitiu gerir a situação.
Infelizmente, chegámos ao ponto de isto ser, basicamente, uma situação normalizada que conhecemos bem, e podemos executar as atividades sem comprometer a segurança."
Em alguns conflitos em curso, como o Sudão, foram estabelecidas rotas de contingência que permitem às aeronaves atravessar partes seguras do país, seguindo um percurso atípico.
Ao não contornar totalmente o espaço aéreo, as companhias evitam horas adicionais de voo e ficam, em vez disso, com cerca de 30 minutos de atraso.
No Médio Oriente, onde os conflitos podem reacender-se sem grande aviso, estabelecer rotas de contingência nem sempre é possível.
Nesses casos, se algo puder surgir, constitui-se uma equipa de coordenação de contingência.
Liderada pela Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO), essa equipa coordena com as organizações de controlo de tráfego aéreo em toda a região afetada e com a companhias aéreas.
A equipa procura obter o máximo de informação antecipadamente para saber onde esperar carga adicional de tráfego, permitindo que os Estados preparem respostas para gerir a procura acrescida.
Viajar durante o fecho de um espaço aéreo: o que esperar
O mais provável, se o seu voo costuma atravessar um espaço aéreo que está fechado, são atrasos, não cancelamentos.
"Não é de esperar cancelamentos, sobretudo quando a situação é continuada", diz Kirkman à Euronews Travel.
"Os cancelamentos, em geral, não são desejáveis porque afetam todos. Por vezes voa-se por percursos mais longos, e pode acontecer o seu tempo de voo ser prolongado; nalguns casos de forma significativa, noutros nem tanto."
O primeiro ponto de contacto para quaisquer atualizações é sempre a companhia aérea.
"A companhia tem sempre a segurança dos passageiros no topo das prioridades", acrescenta. "Mantenha a comunicação com a companhia, para garantir que, se houver atraso, está a par."